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O que o Mounjaro pode fazer com a depressão, segundo novo estudo

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 28/10/2026 07:00:40

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depressão
Depressão e ganho de peso: um alimenta o outro (iStock/Getty Images)

Quem atende pessoas com obesidade e depressão conhece bem o círculo vicioso: uma condição alimenta a outra. Quem tem obesidade tem 55% mais chance de desenvolver depressão; quem tem depressão tem 71% mais chance de chegar à obesidade. Para complicar, vários antidepressivos e antipsicóticos favorecem o ganho de peso.

É nesse contexto que chamou a atenção um estudo publicado na revista científica Translational Psychiatry, do grupo Nature.

Psiquiatras e epidemiologistas de Taiwan analisaram prontuários eletrônicos de 172 instituições de saúde reunidas na rede TriNetX, que soma dados anônimos de mais de 200 milhões de pessoas. Eles selecionaram adultos com sobrepeso ou obesidade e diagnóstico de depressão maior que começaram a usar tirzepatida (Mounjaro) ou um dos remédios mais antigos para emagrecer: fentermina, orlistate, topiramato, naltrexona ou bupropiona.

Ficaram de fora pessoas com pensamentos suicidas, tentativa de suicídio, internação ou ida ao pronto-socorro nos seis meses anteriores.

Depois de um pareamento estatístico, que forma duplas de pacientes semelhantes em idade, sexo, doenças e remédios em uso, sobraram 24.103 pessoas em cada grupo. Três em cada quatro eram mulheres, com idade média de 50 anos e índice de massa corporal próximo de 40.

Em seis meses, pensamentos suicidas foram registrados no prontuário de 37 usuários de tirzepatida (0,15%) e de 71 pacientes do outro grupo (0,29%). Em termos relativos, o risco foi 37% menor. Em termos absolutos, são cerca de 15 casos a cada 10 mil pacientes contra 29 a cada 10 mil, o que equivale a um caso a menos para cada 700 pessoas tratadas no período. A diferença se manteve nas análises de um e dois anos.

O padrão se repetiu em outros desfechos. Novos registros de ansiedade apareceram em 26,5% dos usuários de tirzepatida e em 35% do grupo comparado, risco 17% menor. Insônia: 6,8% contra 8,6%. Idas ao pronto-socorro ou internações: 8,9% contra 11,3%. E as mortes por qualquer causa somaram 0,12% contra 0,38%, redução de 62%.

Trata-se de um estudo observacional. Ele mostra associação, não causa, e os próprios autores escrevem que o resultado não deve ser lido como prova de um efeito antissuicida direto. Há bons motivos para essa cautela.

O primeiro é a mortalidade. Uma queda de 62% nas mortes em apenas seis meses é grande demais para ser atribuída só ao remédio. Uma meta-análise com mais de 71 mil participantes de estudos controlados mostrou redução de 12% na mortalidade com essa classe de medicamentos.

Isso sugere que quem recebe tirzepatida, uma caneta de custo maior, provavelmente difere de quem recebe as opções antigas em acesso a médicos, acompanhamento e adesão. O banco de dados não trazia renda, escolaridade, frequência de consultas nem a gravidade da depressão, fatores que pesam tanto na escolha do tratamento quanto no desfecho.

O segundo é o peso. A diferença na perda de peso entre os grupos foi modesta, pouco mais de meio ponto no índice de massa corporal. Ou seja, o emagrecimento sozinho dificilmente explica tudo, mas isso também não comprova uma ação direta da droga no cérebro. Por fim, como foram excluídos pacientes em crise recente, os resultados não valem para quem tem depressão grave e instável ou pensamentos suicidas ativos.

O estudo chega num momento em que o temor inicial perdeu força. Em janeiro de 2026, a agência americana que regula alimentos e medicamentos (FDA) pediu a retirada do alerta sobre pensamentos e comportamentos suicidas das bulas de Wegovy, Saxenda e Zepbound, após uma revisão ampla que não encontrou aumento de risco. Em 2025, outra análise com mais de 16 mil pares de pacientes com obesidade já havia associado a tirzepatida a um risco 48% menor de ideação ou tentativa de suicídio.

A novidade agora é o público. Os grandes estudos que levaram à aprovação da tirzepatida excluíram pessoas com depressão relevante, justamente as de maior risco. Hipóteses biológicas existem: há receptores dos hormônios GLP-1 e GIP em regiões do cérebro ligadas ao humor, e a droga pode reduzir a inflamação. Mas, por enquanto, são apenas hipóteses.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a tirzepatida para diabetes tipo 2 em 2023 e para obesidade em junho de 2025. O remédio exige retenção de receita, não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) e custa mais de mil reais por mês, o que limita o acesso.

Para quem vive com obesidade e depressão, a mensagem é de tranquilidade quanto à segurança, não de resolução do problema. A caneta não substitui o tratamento psiquiátrico, ninguém deve interromper antidepressivos por conta própria, e qualquer mudança de humor durante o tratamento precisa ser comunicada ao médico. Cuidar do metabolismo e da saúde mental ao mesmo tempo continua sendo o melhor caminho.