Celeiro Vó Tunica completa sete anos e amplia atuação na formação de jovens
Fonte: sonhoseguro.com.br | Data: 28/10/2026 09:48:09
Há sete anos, Jorge e Djane Sant’Anna decidiram transformar uma experiência pessoal em um projeto social. “O que começou como uma iniciativa para acolher jovens que, ao completar 18 anos, precisavam deixar os serviços de acolhimento tornou-se um programa estruturado de formação, trabalho e construção de autonomia. Foi assim que começamos este projeto. De novembro de 2019 a novembro de 2026, 56 jovens passaram pelo Celeiro Vó Tunica, sete concluíram sua jornada na instituição e mais de 75 voluntários participaram do projeto”, conta Jorge Sant’Anna.
O avanço não se mede apenas pelo número de jovens atendidos. O Celeiro chega aos sete anos com três casas, a caminho da quarta, e com uma proposta que vai muito além da oferta de moradia. Cada jovem tem um PDI — Plano de Desenvolvimento Individual —, com ações definidas de acordo com suas necessidades e objetivos. O acompanhamento pode incluir mentoria, coaching, aulas de inglês, espanhol e francês, reforço em português, matemática e redação, além de apoio psicológico e psiquiátrico.
A educação tornou-se um dos principais pilares da iniciativa. Uma conquista destacada por seus fundadores é a possibilidade de oferecer ensino superior a todos os jovens atendidos que desejam fazer uma graduação. O programa também conta com psicóloga, assistente social e gerente de serviço, permitindo um acompanhamento individualizado.
O projeto nasceu de uma história que começou antes de sua constituição formal. Em 2018, Jorge e Djane tornaram-se padrinhos afetivos de uma jovem de 17 anos e passaram a conhecer de perto a realidade de adolescentes que se aproximavam da maioridade dentro dos serviços de acolhimento. Em julho de 2019, com a morte de Antônia Borges, a Vó Tunica — mãe de Djane —, decidiram transformar o luto em uma iniciativa inspirada nos valores que atribuíam a ela: afeto, limite, estudo, trabalho, simplicidade e responsabilidade.
O Celeiro foi formalizado no fim daquele ano. A proposta inicial era funcionar como uma República Jovem, oferecendo uma alternativa para quem precisava deixar os abrigos e ainda não tinha estrutura financeira, profissional ou familiar para iniciar sozinho a vida adulta. Com o tempo, o público foi ampliado e hoje inclui também jovens de comunidades em situação de vulnerabilidade. A instituição define sua atuação em três grandes pilares: acolher, qualificar e cuidar.
Da casa para a universidade e o mercado de trabalho
A trajetória dos jovens que atualmente fazem parte do Celeiro ajuda a mostrar como o modelo evoluiu. Samy cursa Ciências Econômicas e trabalha na PIVA Educacional. Paulina estuda Comércio Exterior e trabalha no restaurante Mani Manioca. Vitória cursa Direito e é jovem aprendiz na Daycoval Seguros. Dulce estuda Farmácia e trabalha no Hospital Sírio-Libanês.
Luana cursa Administração e faz estágio na CET. Fiama está terminando o ensino médio e trabalha na Daycoval Seguros, enquanto Tainá também conclui o ensino médio e é jovem aprendiz no Sesc Interlagos.
Alexandre cursa Fisioterapia e trabalha no A.C.Camargo Cancer Center. Davi estuda Desenvolvimento de Software e Análise e Desenvolvimento de Sistemas e faz estágio na Avivatec. Jonata cursa Enfermagem e trabalha no Hospital Israelita Albert Einstein. Josué estuda Engenharia de Software e trabalha na Kovi.
A combinação entre educação e trabalho está presente desde a origem do projeto. O Celeiro parte do princípio de que a conquista de autonomia depende não apenas de um lugar para morar, mas da criação de condições para que cada jovem consiga desenvolver uma profissão, gerar renda e construir sua própria trajetória.
Uma atuação que começa a ultrapassar as casas
Em 2026, o projeto deu outro passo importante: parte das ações de desenvolvimento começou a alcançar jovens que não moram nas casas do Celeiro. Com recursos provenientes de emenda parlamentar, foram contratados cursos de tecnologia e inglês destinados tanto aos moradores quanto a jovens atendidos por SAICAs — Serviços de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes — da região. Documentos da Prefeitura de São Paulo registram a aprovação de recursos municipais destinados ao Celeiro Vó Tunica para o serviço de República para Jovens.
Também em 2026, por meio da Lei Rouanet, o Celeiro passou a oferecer oficinas de improviso para jovens da instituição e de SAICAs. É uma mudança relevante na dimensão do projeto: depois de estruturar um modelo de acolhimento e desenvolvimento dentro das próprias casas, a instituição começa a compartilhar parte dessas oportunidades com seu entorno.
A expansão acontece enquanto o Celeiro se prepara para chegar à quarta casa. A organização também avançou em governança e transparência. Em seu portal, disponibiliza demonstrações financeiras e relatórios de atividades e informa possuir o Selo Doar, certificação voltada às práticas de gestão e transparência das organizações da sociedade civil.
Uma história ligada ao mercado de seguros
Para quem acompanha o mercado segurador, o Celeiro Vó Tunica também carrega uma ligação particular com o setor. Jorge Sant’Anna construiu boa parte de sua trajetória profissional no mercado financeiro e de seguros. Cofundador e ex-CEO da BMG Seguros, atualmente é diretor da Daycoval Seguros, além de exercer funções em conselhos de instituições do setor.
Em 2024, o Sonho Seguro contou a história de Sant’Anna e do Celeiro quando o projeto completava cinco anos. Naquele momento, a instituição já tinha três casas e buscava recursos para abrir a quarta. A matéria também mostrou a tentativa de aproximar o projeto do próprio mercado segurador, criando oportunidades profissionais para os jovens atendidos.
Dois anos depois, alguns dos resultados dessa aproximação podem ser vistos nas trajetórias dos próprios jovens: Vitória e Fiama, por exemplo, trabalham na Daycoval Seguros. O desafio agora é ampliar a escala sem perder uma característica que acompanhou o Celeiro desde o início: o atendimento individual. Em vez de oferecer apenas uma vaga em uma casa, o projeto procura identificar o que cada jovem precisa para construir autonomia — seja universidade, curso técnico, idioma, reforço escolar, emprego, acompanhamento psicológico ou orientação profissional.
Sete anos depois, talvez seja justamente essa a principal transformação do Celeiro Vó Tunica. A iniciativa que nasceu para oferecer um teto a jovens que precisavam deixar os abrigos passou a construir caminhos para que eles possam deixar também a condição de vulnerabilidade. E, em 2026, começa a dar um passo além: levar parte dessas oportunidades para jovens que ainda estão fora de suas casas. “A gente não muda o mundo. Mas muda o mundo de alguém”, finaliza Djane Sant’Anna.
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.