As implicações geopolíticas da fuga de Flávio Bolsonaro. Especialistas analisam
Fonte: brazileconomy.com.br | Data: 29/10/2026 11:38:12
Em uma operação secreta, o senador Flávio Bolsonaro deixou o Brasil após descumprir uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) para entregar seus passaportes à Polícia Federal. Em meio a diversos rumores sobre seu paradeiro ao longo da terça-feira (27), o mais provável, de acordo com as informações divulgadas até agora, é que Flávio e sua família tenham cruzado a ponte que liga as cidades de Foz do Iguaçu, no Brasil, e Puerto Iguazú, na Argentina.
O senador então embarcou em um avião particular com destino aos EUA, com escala na cidade de Guayaquil, no Equador, desviando do espaço aéreo brasileiro. Flávio e sua família desembarcaram em Miami às 10h24. Ontem, ele publicou uma carta nas redes sociais se autoproclamando “líder do Brasil”.
A fuga do senador passou por três países com os quais o Brasil tem entraves geopolíticos por motivos ideológicos: Argentina, EUA e, em menor grau, Equador, todos governados por líderes de direita. Diante disso, quais são as implicações geopolíticas desse acontecimento?
De acordo com especialistas ouvidos pelo BRAZIL ECONOMY, as relações do Itamaraty com os EUA e a Argentina devem se abalar ainda mais, considerando que tanto o presidente Milei quanto Trump ainda não reconheceram a vitória de Lula no segundo turno.
De acordo com Moyses Marques, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), as relações diplomáticas devem piorar.
“Do ponto de vista das relações internacionais, há uma série de problemas. Evidentemente, houve uma tremenda participação do governo argentino, já que havia representantes esperando Flávio e sua família no aeroporto. Então, as relações com o governo Milei, que já eram esgarçadas, ficarão ainda mais. Em segundo lugar, cogita-se a participação de Marco Rubio, em nome do governo Trump, na ajuda a Flávio, o que também cria uma certa fricção”, disse.
Mas qual será o papel que Flávio irá desempenhar nos EUA? Para o professor Moyses Marques, o candidato derrotado deve criar uma narrativa de resistência e perseguição por parte do governo brasileiro.
“Não acredito que ele vá falar de fraude eleitoral por muito tempo. Isso fica frágil, já que praticamente todos os aliados e países reconheceram a vitória de Lula. Acredito que Flávio deve conclamar o governo norte-americano a aumentar o tarifaço contra o Brasil, mas Trump vai enfrentar agora as eleições legislativas, nas quais tudo indica que perderá base no Congresso, o que deixa a estratégia de Flávio mais difícil”, afirmou.
Tanto na Argentina quanto nos EUA, deputados de oposição aos governos Milei e Trump já criticam a ajuda que ambos teriam dado para a fuga de Flávio.
Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos EUA, a escalada da crise dificulta ainda mais a nomeação de um novo embaixador brasileiro em Buenos Aires. Ele lembra que a representação está vaga desde que Júlio Bitelli foi chamado de volta a Brasília por chamar Lula de “corrupto” durante o processo eleitoral.
“Acho que o relacionamento com a Argentina vai continuar tenso, sem a volta do embaixador para Buenos Aires, e a crise política e diplomática com os EUA vai escalar”, disse Barbosa.
Mais do que isso: o fato de Flávio ser recebido nos EUA se soma à imposição do tarifaço e à dimensão estratégico-militar do Escudo das Américas, que pretende ampliar a presença de governos de direita na América Latina, com o compromisso público de combater o crime organizado.
Outro elemento é a classificação de grupos criminosos como organizações terroristas por parte dos EUA, o que, para Gustavo Menon, professor de Relações Internacionais da USP e da Universidade Católica de Brasília, pode abrir mais um flanco para a atuação e a ingerência dos Estados Unidos no Brasil.
“Nesse contexto, considero fundamental a posição de Lula em defesa da soberania brasileira e da democracia nacional, sem fechar as portas ao diálogo com os Estados Unidos, sobretudo diante da possibilidade de mudanças na correlação de forças políticas naquele país com as eleições de meio de mandato”, disse.
Possível extradição
Muito já se especula sobre a possibilidade de extradição de Flávio, o que é improvável, de acordo com especialistas ouvidos pela redação. Eles destacam que, juridicamente, a extradição é possível, mas os entraves políticos devem prevalecer.
“O governo Trump se recusa a cooperar policialmente e a extraditar pessoas que têm condenações transitadas em julgado, como mostra o exemplo de Eduardo Bolsonaro, que, no dia 3 de outubro deste ano, foi condenado pela Justiça brasileira. Trump já disse ainda que concederá visto permanente ao senador Flávio Bolsonaro nos EUA, o que o coloca sob a égide das leis norte-americanas e dificulta seu processo de condenação”, afirmou Jhonattan Mattos, advogado e pesquisador em Economia Política Internacional pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Para o jurista Thomaz Delgado de David, especialista em Direito Internacional, o tratado bilateral entre Brasil e EUA, de 1961, traz uma lista de possíveis crimes que podem levar ao processo de extradição, mas aqueles que incidem sobre Flávio não estão incluídos.
Porém, David lembra que há outros mecanismos jurídicos, como as Convenções de Palermo e Mérida, focadas no combate ao crime organizado transnacional e à corrupção, das quais tanto o Brasil quanto os EUA são signatários. Esses instrumentos incluem a lavagem de dinheiro, um dos principais focos de investigação contra o senador brasileiro, entre os crimes que podem levar à extradição.
“Ocorre que a extradição não depende apenas de fundamentação jurídica. Para além da análise judicial, a decisão final cabe ao governo estadunidense e, portanto, esbarra em decisões de natureza política. As declarações recentes de Trump apontando que aprovaria a ida de Flávio Bolsonaro aos EUA, somadas ao anúncio do Departamento de Estado de que concederá vistos à família, tornam improvável o atendimento ao eventual pedido de extradição”, afirmou o jurista.