Os passos que transformam a alma: a jornada de Flávia Giacon e suas companheiras pelo Caminho de Santiago
Fonte: imparcial.com.br | Data: 30/10/2026 05:35:07

As peregrinas consideram a jornada “uma profunda imersão cultural, religiosa e humana”
Há jornadas que começam muito antes do primeiro passo no solo, nascidas do desejo de desacelerar, olhar para dentro e testar os próprios limites. Para a psicóloga prudentina, Flávia Giacon, o Caminho de Santiago de Compostela representou uma verdadeira viagem através do tempo. Mais do que um desafio de resistência física, a travessia tornou-se uma profunda imersão cultural, religiosa e humana. Ao lado da irmã, Vina, e da grande amiga Hitomi, Flávia estruturou e executou de forma totalmente independente uma peregrinação de 315 quilômetros ao longo do lendário Caminho Francês, conectando o coração da Espanha à catedral de Santiago.
A preparação durou meses de planejamento estratégico. O grupo precisou equilibrar a altimetria das montanhas com uma distribuição consciente dos percursos ao longo de 14 dias de caminhada contínua, sem equipe de apoio externa. A escolha da mochila compacta exigiu desapego e precisão: era preciso carregar apenas o essencial para garantir leveza nas costas sem comprometer a saúde e o bem-estar ao longo da rota.
O DESPERTAR EM LEÓN E A MÍSTICA DO ACOLHIMENTO MEDIEVAL
A jornada começou a ganhar contornos reais com a saída do Brasil rumo a Madri e o deslocamento de trem até León. A primeira grande impressão visual deu-se diante da imponente Catedral de León, um palácio de luzes e vitrais esculpido para tocar os céus. Para vivenciar a verdadeira essência da hospitalidade jacobina, o trio trocou a impessoalidade dos hotéis por uma noite no emblemático Albergue Las Monjas Benedictinas del Monasterio de Santa María de Carbajal. Dormir sob o silêncio, a partilha e os cuidados das monjas e voluntários selou o tom espiritual do início da caminhada.
Ao longo do percurso, a gestão do corpo foi tratada com rigor. Flávia e suas companheiras alternaram pernoites em albergues paroquiais e conventos históricos com estadias estratégicas em hotéis para repor as energias com quartos privativos. A disciplina incluiu repositores de eletrólitos, aporte proteico diário e hidratação constante. O passaporte dessa jornada foi a credencial do peregrino — um verdadeiro diário de bordo artístico que acumulou 72 carimbos de igrejas, cafés e albergues, comprovando a superação de cada etapa.
CHOQUE DE ERAS: DAS RELÍQUIAS TEMPLÁRIAS AOS ENCANTOS DE GAUDÍ
Iniciada a caminhada de León rumo a Compostela, o trio deparou-se com paisagens que misturavam arquitetura monumental e vilarejos que exalavam atmosfera medieval. Em Astorga, contemplaram o contraste entre o traçado das antigas muralhas romanas, a Catedral de Santa María e o Palácio Episcopal, obra singular de Antoni Gaudí. Seguindo pelas montanhas até Rabanal del Camino, caminharam por terras que no passado eram patrulhadas pelos Cavaleiros Templários para proteger os fiéis contra assaltos.
No topo da montanha, a mítica Cruz de Ferro impôs um momento de reflexão e desapego emocional. Em seguida, a chegada à histórica Ponferrada revelou a imponência do Castelo Templário e seus mais de 8.000 m² de pedra e madeira, onde uma visita guiada trouxe à tona histórias de cavaleiros e batalhas medievais. O caminho seguiu por Villafranca del Bierzo e sua famosa Porta do Perdão, na Igreja de Santiago, local onde historicamente os peregrinos doentes recebiam a indulgência plenária quando não conseguiam concluir o trajeto a pé.
DORES, RESILIÊNCIA E A FORÇA DA SUPERAÇÃO
Apesar das paisagens deslumbrantes, o percurso exigiu cota máxima de resiliência. A descida rumo a Molinaseca, com seu chão irregular tomado por pedras soltas, colocou à prova o corpo e a mente. Entre o esforço e o cansaço acumulado, a força da amizade e a vontade de realizar o sonho prevaleceram sobre as dores articulares e musculares.
A própria Vina resumiu com emoção o auge do desgaste físico durante a travessia: “Por duas vezes pontualmente pensei em desistir, pois as dores falavam mais alto, porém a vontade de viver essa experiência foi bem maior… e que bom que eu insisti”. A cada passo, a saudação “Buen Camino!” ecoava entre peregrinos de todas as partes do globo, funcionando como um mantra universal de empatia, encorajamento e proteção mútua.
A NATUREZA DA GALÍCIA E O CONTRASTE DA “ESPANHA ESVAZIADA”
À medida que deixavam as terras áridas e adentravam o coração verde e montanhoso da Galícia, a paisagem transformou-se. O grupo enfrentou a implacável subida até O Cebreiro, aldeia mítica localizada a mais de 1.200 metros de altitude, onde habitava o povo celta em suas pallozas de pedra e telhados de palha. Entre neblinas e o som marcante da gaita de foles, ouviram saudações medievais como “Ultreia!” (Siga em frente!) e “Et Suseia!” (Vamos mais alto!).
A caminhada revelou também os aromas marcantes da vegetação: o cheiro do ládano, os eucaliptos perfumados, macieiras, pereiras e milhares de castanhas-portuguesas espalhadas pelo chão. Porém, ao cruzar vilarejos históricos com casas de pedra fechadas e ruínas seculares, Flávia deparou-se com a melancólica realidade da “España Vaciada” (Espanha Esvaziada), o fenômeno do êxodo rural que deixou pequenas aldeias habitadas apenas por idosos e com igrejas centenárias trancadas por falta de cuidadores.
SABORES QUE RESTAURAM E A TRAVESSIA FINAL
A jornada gastronômica foi uma celebração à parte. A culinária rústica e reconfortante do interior espanhol funcionou como combustível para os corpos fadigados. O grupo deliciou-se com as clássicas tortillas, o famoso jamón ibérico sobre pães rústicos, as tostadas com o Doce Tomate Negro de Santiago, o cocido maragato, o tradicional pulpo á feira (polvo cozido com azeite e páprica) em Sarria e o reconfortante Caldo Galego. Para adoçar a alma ao fim do dia, a icônica Tarta de Santiago, com o desenho em açúcar da Cruz de Santiago, coroava o jantar.
A passagem por marcos históricos continuou em Portomarín — cidade reconstruída no topo da colina após a inundação da vila antiga na década de 1960 —, no bucólico vale de Ribadiso de Baixo e na purificadora parada em Lavacolla. Faltando apenas 10 quilômetros para o destino final, o grupo encarou a manhã chuvosa que os conduziu ao Monte do Gozo, de onde avistaram, pela primeira vez entre as nuvens, as torres da Catedral de Santiago de Compostela.
A CHEGADA AO MARCO ZERO E AS MEMÓRIAS ETERNAS
A entrada na Plaza del Obradouro, cruzando o Arco do Palácio sob chuva, marcou o auge de uma conquista inesquecível. A vibração dos peregrinos reunidos na praça e a celebração da missa no altar-mor da Catedral fecharam com chave de ouro a peregrinação a pé. No dia seguinte, o grupo realizou uma visita ao Cabo de Finisterra, o mítico “fim do mundo” dos antigos romanos, onde as águas do Atlântico simbolizam o encerramento e o renascimento de cada caminhante.
A viagem ainda desdobrou-se em dias de efervescência cultural e aprendizado em Madri e Salamanca, onde realizaram visitas guiadas por monumentos e catedrais seculares. A amiga Hitomi traduziu a essência da bagagem trazida de volta ao Brasil: “Das alvoradas, brumas, crepúsculos, vilas, monumentos… o Castelo dos Templários em Ponferrada, tão maravilhosos! Serão memórias sem fim”.
De volta ao cotidiano e à clínica em Presidente Prudente, Flávia Giacon guarda a certeza de que o verdadeiro tesouro da travessia não coube na mochila, mas sim na alma: “Essa jornada foi a prova de que tirar um sonho do papel exige esforço, prazo e estratégia, mas a recompensa de vê-la ganhar o mundo é simplesmente extraordinária! Buen Camino! Siempre”.

FLAVIA, VINA E HITOMI INICIANDO A CAMINHADA PELO LENDÁRIO CAMINHO FRANCÊS

PARADA EM SAN JUSTO DE LA VEJA, NA PROVÍNCIA DE LEÓN, ESPANHA; ESCULTURA EM BRONZE SE CHAMA “TENGO SED” (“TENHO SEDE”) E FOI FEITA PELO ESCULTOR SENDO GARCÍA RAMOS EM 2014

SETA APONTA OS JARDINS E A IMPRESSIONANTE FACHADA BARROCA DO HOSTAL DE SAN MARCOS (ATUAL PARADOR DE LEÓN), UM DOS EDIFÍCIOS HISTÓRICOS MAIS EMBLEMÁTICOS DE TODA A ROTA

FLAVIA E HITOMI NA IMPLACÁVEL SUBIDA ATÉ O CEBREIRO, ALDEIA MÍTICA LOCALIZADA A MAIS DE 1.200 METROS DE ALTITUDE

AS IRMÃS FLAVIA E VINA EM TRIACASTELA, NA PROVÍNCIA DE LUGO, REGIÃO DA GALÍCIA, NA ESPANHA












