MS ganha rede de 500 mil volts: leilão garante R$ 4,1 bi em transmissão
Fonte: acritica.net | Data: 30/10/2026 16:52:50
Quando você liga o ar-condicionado numa tarde de verão em Campo Grande, a energia percorre, antes de chegar à tomada, uma rede de torres e cabos de alta tensão que, em Mato Grosso do Sul, ainda não passa de 230 mil volts nas linhas mais potentes. Na manhã desta sexta-feira (30), num pregão na B3, em São Paulo, esse limite começou a ser derrubado: o leilão de transmissão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vendeu o maior pacote de obras da disputa, R$ 4,11 bilhões, e boa parte dele vai atravessar o território sul-mato-grossense.
O pacote é o Lote 4, vencido pela Celeo Redes Brasil. Ele prevê 1.167 quilômetros de novas linhas entre Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná e vai elevar a Rede Básica do estado para 500 quilovolts (kV), segundo o Ministério de Minas e Energia (MME). É a primeira vez que o estado entra no nível de tensão mais alto do sistema elétrico nacional.
Mato Grosso do Sul em númerosO Lote 4 do Leilão de Transmissão nº 4/2026
R$ 4,113 bide investimento previsto, o maior lote do leilão
1.167 kmde novas linhas de transmissão
500 kVnível de tensão; hoje a rede básica do estado chega a 230 kV
8.225empregos estimados na obra
até 60 mesespara entrar em operação, após a assinatura dos contratos
50,55%de deságio na proposta vencedora da Celeo
Fonte: Ministério de Minas e Energia e Aneel. Deságio é o desconto da proposta em relação ao teto de receita fixado pela agência.
A rede que faltava
O que está em jogo, na prática, é o caminho da energia que o estado produz. Mato Grosso do Sul concentra usinas de biomassa, ligadas às indústrias de celulose e de açúcar e etanol, e uma geração solar em expansão. Com as linhas atuais, limitadas a 230 kV, o escoamento dessa produção esbarra na capacidade da rede. Em 500 kV, a mesma energia viaja mais longe e com menos perdas, e abre espaço para ligar novas usinas e novas fábricas ao sistema.
Na prática, o salto de 230 para 500 mil volts muda a capacidade da estrada por onde a energia viaja. Uma linha de 500 kV transporta muito mais energia, por distâncias maiores e com menos perdas pelo caminho, do que uma de 230 kV. Para Mato Grosso do Sul, que gera energia de biomassa e solar e a envia a outras regiões, isso significa menos risco de a rede virar um gargalo para novas usinas e fábricas e mais segurança para o sistema, segundo o MME. Quem liga o ar-condicionado em Campo Grande não vai notar diferença de um dia para o outro: as obras têm prazo de até 60 meses depois da assinatura dos contratos. Mas é essa infraestrutura que decide se o estado consegue crescer em geração e em indústria sem esbarrar nos limites da rede.
As obras do Lote 4 se dividem em dois conjuntos. O primeiro é uma linha de 500 kV de 620 quilômetros entre Rio Brilhante, em Mato Grosso do Sul, e Sarandi, no Paraná, com uma subestação em Rio Brilhante de 2.400 megavolt-ampères (MVA) de capacidade. O segundo liga Rio Verde Norte, em Goiás, a Chapadão, e Chapadão a Rio Brilhante, em 547 quilômetros, com a nova Subestação Chapadão, de 1.200 MVA. Juntos, os dois conjuntos somam os 1.167 quilômetros do lote.
O traçado também costura a conexão entre Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná e, de acordo com o Campo Grande News, é visto como estratégico para a integração elétrica com a Bolívia.
“Estamos construindo a infraestrutura que o Brasil precisa para crescer. Esse ciclo de investimentos amplia os caminhos da energia, fortalece a segurança do abastecimento e cria condições para novos empreendimentos e empregos.”
Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, em nota antes do leilão
A disputa no pregão
O Lote 4 foi o primeiro a ser leiloado e, segundo a Agência Brasil, reuniu sete concorrentes: além da Celeo, participaram Cymi, Consórcio Olympus XXI, Axia Energia Norte, Engie, o fundo Warehouse (do BTG Pactual) e EDP Transmissão Goiás. A Aneel permitiu que o lote fosse disputado inteiro ou dividido nos sublotes 4A e 4B. A proposta da Celeo para o conjunto completo, de R$ 377,09 milhões por ano de Receita Anual Permitida (RAP), ficou abaixo da soma das menores ofertas dos dois sublotes, e foi a escolhida, de acordo com o MegaWhat.
A RAP é a remuneração que a transmissora recebe todo ano para construir, operar e manter as linhas. O teto fixado para o Lote 4 era de R$ 762,63 milhões, e a Celeo propôs 50,55% menos. No conjunto dos oito lotes, a RAP máxima era de R$ 1,625 bilhão, e as vencedoras ofereceram R$ 811,09 milhões, o que dá um deságio médio de 50,1%. Segundo o Campo Grande News, a diferença representa uma economia estimada de R$ 20,77 bilhões para os consumidores ao longo dos 30 anos de concessão.
Para onde vai o dinheiroR$ 8,87 bilhões em sete estados, por empreendimento
Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná (Lote 4) R$ 4,113 bi
Paraná (Lotes 5 e 6) R$ 1,46 bi
Bahia e Paraíba (Lotes 1 e 7) R$ 1,16 bi
São Paulo (Lote 3) R$ 1,071 bi
Rondônia (Lote 8) R$ 753,2 mi
Goiás e Bahia (Lote 2) R$ 317 mi
Fonte: Ministério de Minas e Energia (press kit do leilão). O Lote 4 sozinho responde por quase metade do total.
Quem levou cada umOs oito lotes
Lote 1, BahiaNeoenergia, RAP de R$ 59,85 mi, deságio de 51,21% (150 lances em viva-voz)
Lote 2, Goiás e BahiaEDP, RAP de R$ 26,53 mi, deságio de 53,29%
Lote 3, São PauloCymi, RAP de R$ 78,70 mi, deságio de 57,08%, o maior do leilão
Lote 4, MS, GO e PRCeleo Redes, RAP de R$ 377,09 mi, deságio de 50,55%
Lote 5, Curitiba (PR)Cymi, RAP de R$ 96,4 mi, deságio de 46,36%
Lote 6, Santa Terezinha de Itaipu (PR)Cox, RAP de R$ 37,85 mi, deságio de 53,46%
Lote 7, ParaíbaNeoenergia, RAP de R$ 68 mi, deságio de 38,55%
Lote 8, RondôniaCeleo, RAP de R$ 66,66 mi, deságio de 48,02%
Fonte: Agência Brasil e MegaWhat. RAP: Receita Anual Permitida, por ano.
O que o governo diz
Depois do pregão, o ministro Alexandre Silveira comemorou o resultado e disse que o sucesso do certame mostra que a estabilidade regulatória e econômica se converte em investimento real, obras e empregos.
“O resultado consolida as diretrizes do MME sob a gestão do presidente Lula para a modernização do setor. Os lotes arrematados reforçam a segurança e a resiliência do sistema, garantem o escoamento da energia limpa e preparam o país para novas demandas estratégicas, como a atração de data centers e inteligência artificial. Continuamos construindo, com planejamento, o sistema elétrico de que o Brasil vai precisar nas próximas décadas.”
Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, após o leilão
Os contratos de concessão duram 30 anos, e os empreendimentos têm prazo de 42 a 60 meses para entrar em operação, contados da assinatura. O leilão faz parte do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e do Novo PAC.
Os outros leilões
O leilão desta sexta-feira foi o último do ano e fecha um ciclo. Segundo o MME, os leilões de transmissão de 2023 a 2026 mobilizaram R$ 69,64 bilhões em investimentos estimados, ou R$ 77,54 bilhões com a atualização pelo IPCA.
Mato Grosso do Sul já tinha aparecido em outro pregão neste ano. Em 3 de julho, a Aneel leiloou quatro lotes, com R$ 1,8 bilhão em investimentos, em São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O Lote 8, de instalações em território sul-mato-grossense, foi para a Axia Energia Sul, com RAP de R$ 10,8 milhões e deságio de 59,04%. A rodada de julho foi a segunda do ano, depois de uma primeira, em março, que vendeu cinco lotes. Em outubro de 2025, segundo o Valor Econômico, seis grupos arremataram os lotes da época, com R$ 5,5 bilhões em investimentos e deságio médio de 47,98%.
O que vem em 2027 é maior. A Aneel prevê três leilões de transmissão, que podem superar R$ 50 bilhões em investimentos: um em abril, um em outubro e um em dezembro. O de outubro deve envolver um sistema de corrente contínua com tecnologia VSC, inédita no país. “Provavelmente esses contratos que se originarem desse leilão serão os maiores que o Brasil já contratou em transmissão”, disse o secretário de Leilões da agência, Ivo Sechi Nazareno.
Há ainda outros leilões em andamento no setor de energia, de tipos diferentes. O MME viabilizou um leilão inédito para ampliar a oferta e reduzir o preço do gás à indústria e abriu consulta pública sobre as diretrizes do Leilão dos Sistemas Isolados de 2027.
O que muda para quem mora no estado
A transmissão é a estrada de alta tensão da energia: leva a eletricidade das usinas até as regiões de consumo, e depois a distribuidora, no caso de Mato Grosso do Sul a Energisa, entrega na casa do consumidor. Obras de 500 kV não resolvem, sozinhas, quedas e falhas na ponta, que são responsabilidade da distribuição. A cobrança do prefeito de Maracaju por mais equipes e manutenção é um exemplo desse outro lado. O ganho do leilão é de capacidade: mais energia podendo chegar e sair do estado, com mais segurança para o sistema.
Leilão de Transmissão nº 4/2026Serviço
QuandoSexta-feira, 30 de outubro de 2026, às 10h
OndeB3, em São Paulo
PromoçãoAneel, com coordenação do Ministério de Minas e Energia
Lotes8, todos arrematados
InvestimentoR$ 8,9 bilhões, em sete estados
Linhas1.866 km de novas linhas e 483 km de continuidade de linhas existentes
EmpregosCerca de 20,3 mil durante a implantação
Registro do pregãoTransmissão ao vivo no YouTube, em youtube.com/live
Fonte: MME e Agência Brasil.