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De Gil a Rita Lee, o que está por trás da febre das biografias musicais no Brasil

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 31/10/2026 08:00:25

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Artistas em palco com iluminação roxa e azul. Um homem sorridente no centro toca acordeão, vestindo branco. Outros dançarinos, alguns com roupas estampadas, estão em diferentes níveis de uma estrutura metálica e no chão, em poses expressivas
SUPERPRODUÇÃO - Cena de Gil — Andar com Fé: espetáculo narra a trajetória do cantor, da infância aos dias atuais (Caio Gallucci/.)

Em um cenário suntuoso, com uma banda dividida em dois andares e dançarinos que transitam como acrobatas por rampas, um jovem Gilberto Gil se depara com um homem que se apresenta como o Tempo. O encontro conduz Gil — Andar com Fé, peça em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo. Primeira biografia musical do cantor baiano, o espetáculo é a novidade mais vistosa de uma onda que tomou o país de produções do tipo sobre figuras brasileiras notáveis. Só neste ano, além de Gil, as cantoras Gal Costa e Fafá de Belém, o pianista Tom Jobim, o escritor Marcelo Rubens Paiva e o humorista Paulo Gustavo tiveram suas vidas encenadas nesse formato — e ainda retornaram aos palcos as peças sobre Alcione e Rita Lee para novas temporadas.

Dois homens negros sorrindo para a câmera. O mais velho, com barba e cabelo grisalhos, usa óculos e jaqueta verde-oliva. O mais jovem, com cabelo crespo, veste camisa listrada clara. Estão em um palco com painéis de madeira ao fundo e assentos de teatro escuros.
TEMPO REI - Gilberto Gil (à esq.) e Gui Ventura: mineiro interpreta baiano (Robert Schwenck/.)

O apelo desses espetáculos já foi amplamente testado lá fora. As raízes dessa popularidade estão fincadas na criação de um formato próprio, desenvolvido pela produção nacional após uma longa experiência de importação de títulos da Broadway. “Começamos construindo nossa história no teatro musical baseado nas réplicas”, analisa Bárbara Guerra, produtora de Andar com Fé, que trouxe ao Brasil musicais de estrelas internacionais, como os de Donna Summer e Elvis. Agora, a busca por histórias nacionais marca um amadurecimento do gênero no país e também uma estratégia comercial.

Mulher negra sorrindo, com cabelo curto e volumoso, vestindo um macacão estampado colorido, em um palco. Atrás dela, quatro pessoas seguram guarda-chuvas grandes com estampa preta e branca ondulada, parecida com o calçadão de Copacabana.
MARROM - Ester Freittas como Alcione: musical mistura vida da cantora com lenda maranhense (Nil Canine/.)

Caros para produzir, os musicais brasileiros dependem da Lei Rouanet para sobreviver, já que a bilheteria raramente cobre as despesas. Andar com Fé, por exemplo, custou 11 milhões de reais, dos quais 6 milhões foram captados via incentivo fiscal. Entre os critérios da lei, está a prioridade para projetos que prezam pela cultura nacional. “Isso fez os produtores se mobilizarem para contar as nossas histórias”, afirma Julio Figueiredo, realizador do musical de Gil. Ter um nome famoso envolvido e canções que o público sabe de cor ajuda a vender ingressos e a conquistar patrocínios. Feliz Ano Velho, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, ganhou sua versão musical em São Paulo, com uma trilha de sucessos dos anos 1980 — de Legião Urbana a Titãs. “O mercado está tentando diminuir o risco. Produzir um musical original é uma aposta muito grande para o patrocinador acreditar”, diz o diretor Gustavo Barchilon.

Dois homens sentados em cadeiras de rodas, um jovem à esquerda com jaqueta marrom e calça bege, sorrindo e olhando para cima, e um homem mais velho à direita com jaqueta verde-oliva e calça marrom, sorrindo e olhando para frente, em um palco com iluminação vermelha
ANOS 80 - Hugo Bonèmer (à esq.) e Bruno Garcia: vida de Marcelo Rubens Paiva (Caio Gallucci/.)

Se as canções são conhecidas, as narrativas tentam fugir do tradicional. Marrom, o Musical, costura a vida de Alcione com a lenda do bumba meu boi, tradição do Maranhão natal da cantora. “Adoro musical americano, mas queria contar as nossas histórias”, diz o produtor Jô Santana, que prepara agora espetáculos sobre os 100 anos da Mangueira e sobre Johnny Alf (1929-2010), um dos precursores da bossa nova.

Mulher de cabelos ruivos e franja, vestindo jaqueta jeans, canta e toca violão sentada em um palco vermelho, olhando para um homem que também toca violão e canta, sentado à direita.
MANIA DE VOCÊ - Mel Lisboa e Bruno Fraga: o romance de Rita Lee e Roberto de Carvalho no palco (João Caldas/.)

Já a grande protagonista dos musicais biográficos nacionais é Rita Lee (1947-2023). Em 2014, a peça Rita Lee Mora ao Lado misturou a trajetória da cantora, vivida por Mel Lisboa, com a ficção. Depois de lançar a autobiografia, em 2016, a própria Rita pediu uma nova montagem — e que Mel voltasse ao papel. Em 2024, estreou o estrondoso Rita Lee: Uma Autobiografia Musical, que, após uma turnê pelo país, acaba de voltar aos palcos de São Paulo, somando até agora 250 000 espectadores. Produtor das duas versões, Edinho Rodrigues resume como o mercado se abriu nesse intervalo: “A primeira montagem levou quase três anos para conseguirmos viabilizar o patrocínio. Na atual, conseguimos fazer tudo em um ano”.

Estão previstos para 2027 um musical sobre o artista plástico Candido Portinari e outro sobre o sambista Jorge Aragão. Em 2028, uma peça sobre o aviador Santos Dumont, com direito a um 14-Bis sobrevoando a plateia, promete dar um novo passo apostando em canções inéditas. O show não pode parar.

Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019