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Derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro ameaça lançamento de filme Dark Horse

Fonte: brasil247.com | Data: 31/10/2026 13:37:00

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247 – O lançamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL), tornou-se ainda mais incerto após a derrota do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. A produção, que enfrenta investigações sobre a origem de seu financiamento, corre o risco de não chegar às salas de cinema brasileiras e passar a ser distribuída diretamente por plataformas digitais.

Segundo a coluna da jornalista Malu Gaspar, no jornal O Globo, a combinação entre o resultado eleitoral e o avanço das investigações sobre possíveis repasses do ex- banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, comprometeu os planos comerciais do longa-metragem. A previsão inicial de estreia no primeiro semestre de 2027 já não é considerada segura pelos envolvidos no projeto.

A possibilidade de lançamento diretamente em uma plataforma de streaming ganhou espaço nas discussões sobre o futuro da produção. Essa alternativa permitiria contornar a necessidade de autorização da Agência Nacional do Cinema (Ancine), uma vez que os serviços de streaming ainda não estão submetidos ao mesmo regime regulatório aplicado ao cinema e à televisão.

“A legislação sobre streaming ainda tramita no Congresso. Como os serviços de streaming não foram incluídos dentre os já regulados, um streaming do Brasil ou estrangeiro pode ofertar o filme, sim”, afirmou à coluna um integrante do governo Lula que acompanha o caso.

Outro obstáculo envolve o risco de bloqueio judicial das receitas obtidas com a exibição do filme. A possibilidade preocupa a distribuidora Europa Filmes, que poderia enfrentar dificuldades para recuperar os recursos destinados à campanha de lançamento.

Investigadores também consideram a hipótese de retenção de eventuais lucros, diante das apurações relacionadas ao Banco Master. “Se houvesse lucro com o filme, ele pode ser bloqueado até o levantamento da liquidação do Master”, afirmou uma fonte envolvida na investigação.

Investigação sobre financiamento envolve Flávio e Eduardo Bolsonaro

As suspeitas sobre o financiamento de “Dark Horse” ganharam dimensão política em maio, quando o site The Intercept Brasil divulgou gravações nas quais Flávio Bolsonaro cobrava dinheiro de Daniel Vorcaro. A revelação levou à abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e provocou desgaste na campanha presidencial do senador.

Flávio e seu irmão, o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), passaram a ser investigados por suspeitas de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas e lavagem de capitais.

Uma das frentes da investigação da Polícia Federal busca esclarecer se recursos transferidos por Vorcaro ao fundo Havengate, administrado por um advogado próximo de Eduardo Bolsonaro, foram utilizados para financiar a permanência do ex-parlamentar nos Estados Unidos.

O caso também passou a envolver diretamente a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa-metragem. A empresa, que ainda não havia lançado filmes nos cinemas brasileiros, entregou à Polícia Federal mais de 20 mil páginas de documentos, incluindo contratos de câmbio, notas fiscais e comprovantes de despesas operacionais.

A documentação está sendo submetida a uma análise contábil e financeira destinada a verificar a origem dos recursos e a correspondência entre os pagamentos declarados e os gastos efetivamente realizados.

PF investiga movimentação de US$ 12,3 milhões

Um dos principais pontos da perícia envolve sete transferências financeiras realizadas pela Entre Investimentos ao fundo Havengate, que somaram US$ 12,3 milhões.

Segundo as informações reunidas pela investigação, os depósitos foram efetuados no exterior pelo operador Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, a pedido de Daniel Vorcaro.

Mineiro firmou um acordo de colaboração premiada, homologado em setembro pelo ministro André Mendonça, do STF.

Os investigadores pretendem determinar se existe uma ligação financeira direta entre os recursos enviados ao Havengate e os valores posteriormente recebidos pela Go Up Entertainment no Brasil para custear a produção cinematográfica.

De acordo com a Polícia Federal, a análise deve “focar na verificação da compatibilidade” entre as despesas apresentadas pela produtora, os contratos de câmbio e as movimentações financeiras identificadas durante a investigação.

Os peritos também buscam verificar se é possível “estabelecer nexo financeiro ou contábil direto” entre as remessas internacionais e os pagamentos associados ao filme.

A conclusão dessa análise poderá esclarecer se os recursos destinados à produção tiveram origem nas operações financeiras investigadas. Até o momento, a documentação apresentada pela empresa não foi integralmente examinada.

Perícia aponta que 72% dos gastos ocorreram nos Estados Unidos

Outro aspecto que chamou a atenção dos investigadores foi a distribuição das despesas de “Dark Horse”.

Uma perícia privada contratada pela própria Go Up Entertainment apontou que 72% dos gastos da produção ocorreram nos Estados Unidos, embora as filmagens tenham sido realizadas no Brasil.

O levantamento estimou o custo total do longa-metragem em US$ 13,39 milhões, aproximadamente R$ 75,1 milhões pela cotação utilizada no estudo.

Os valores destinados às etapas iniciais da produção também despertaram questionamentos de profissionais do setor audiovisual.

Segundo a reportagem, cinco produtores que atuam no mercado cinematográfico brasileiro consideraram excessivos os gastos apresentados para as fases preliminares do projeto.

A chamada soft produção, etapa dedicada à definição de aspectos conceituais e criativos do filme, teria consumido US$ 2,68 milhões, equivalentes a 20% do orçamento total.

O percentual contrasta com os parâmetros habitualmente utilizados no setor, em que essa fase costuma representar entre 3% e 5% dos custos de uma produção.

O levantamento foi elaborado pelo perito Anísio Costa Castelo Branco, contratado pela produtora.

Outro dado destacado é que as despesas com as filmagens realizadas no Brasil foram inferiores à soma dos gastos com a soft produção e a pré-produção, etapa que inclui preparação do elenco, planejamento e deslocamentos para as locações.

Flávio Bolsonaro havia prometido apresentar a prestação de contas do filme depois da divulgação das gravações envolvendo Vorcaro. Posteriormente, passou a sustentar que a perícia privada havia esclarecido os gastos da produção.

Entretanto, a investigação da Polícia Federal continua em andamento e ainda busca verificar a consistência das informações financeiras apresentadas pela empresa.

Filme previa bilheteria superior ao recorde do cinema brasileiro

Além das suspeitas sobre a origem e a aplicação dos recursos, os investigadores identificaram projeções comerciais consideradas incompatíveis com os resultados históricos do mercado cinematográfico nacional.

Um relatório da Polícia Federal, divulgado em setembro por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, revelou que o plano de negócios de “Dark Horse” previa receitas de bilheteria muito superiores às registradas pelos maiores sucessos brasileiros.

O documento, apresentado pelo publicitário Thiago Miranda, apontado como articulador do financiamento do longa-metragem, trabalhava com três cenários comerciais:

  • Pessimista: arrecadação de US$ 45 milhões
  • Conservador: arrecadação de US$ 70 milhões
  • Otimista: arrecadação de US$ 100 milhões

Mesmo a projeção mais baixa ultrapassaria o desempenho de “Minha Mãe é uma Peça 3”, lançado em 2019, que arrecadou aproximadamente R$ 120 milhões, equivalentes a cerca de US$ 30 milhões na época, segundo a comparação apresentada pela PF.

No cenário mais favorável, a produção sobre Jair Bolsonaro teria uma receita mais de três vezes superior à referência histórica utilizada pelos investigadores.

A Polícia Federal destacou a dimensão dessas estimativas e observou que o desempenho projetado se aproximaria daquele registrado por grandes produções internacionais.

Para os investigadores, a diferença entre as expectativas comerciais e os resultados conhecidos do mercado brasileiro justifica um exame mais aprofundado do projeto.

O relatório afirma que a discrepância “entre as projeções do plano de negócios e qualquer parâmetro realista do mercado cinematográfico nacional constitui elemento que reforça a necessidade de apuração quanto à viabilidade econômica e à verdadeira finalidade da operação”.

Futuro da produção permanece indefinido

Estrelado pelo ator estadunidense Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro, “Dark Horse” foi concebido como uma produção cinematográfica sobre a trajetória política do ex-mandatário.

O projeto, entretanto, passou a enfrentar dificuldades que ultrapassam a distribuição comercial. A investigação sobre seu financiamento, os questionamentos a respeito dos custos declarados e a possibilidade de bloqueio judicial de receitas colocaram em dúvida a viabilidade de uma estreia convencional.

A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro acrescentou um novo fator de incerteza. O senador deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos após o segundo turno e se recusou a reconhecer o resultado das urnas.