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Majur lança novo álbum em que canta a cura após separação: ‘Estou no momento mais especial da minha vida’

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 01/11/2026 04:48:58

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Depois de uma separação ruir o sonho antigo de um casamento que chegou a virar capa de revista, Majur viu-se diante de um precipício. Havia oito andares sob os seus pés, e ela vislumbrou no abismo a possibilidade de estancar a dor. “Mas aí, Maria Padilha falou no meu ouvido: ‘Você está louca?’”, recorda-se a cantora, citando a entidade do candomblé, religião na qual é iniciada. “Comecei a ver algumas coisas da minha vida que tinham importância, como a família e o trabalho. Então, voltei para trás e escrevi uma música.” Trata-se de “Doeu demais”, faixa que abre, a partir de um respiro profundo, o quarto álbum de estúdio da cantora baiana que chega às plataformas de música no próximo dia 13.

A tristeza, contudo, acaba ali. As canções subsequentes são uma jornada exitosa em busca da felicidade e do bem-estar, entre paixões, “periguetagem” e celebrações. “Este projeto começou a existir enquanto me curava”, diz ela, que superou a depressão a partir de uma força-tarefa armada por amigos e familiares, além de muita terapia, com direito a três sessões por semana. “A segunda música, ‘Ei mulherada!’ (um feat com Tasha & Tracie), já fala sobre as minhas amigas me ligando para levantar o meu astral.” E, assim como as demais, vem embalada por uma sonoridade definida pela artista como “afropop”. Embora a percussão amarre o trabalho do começo ao fim, há incursões entre R&B, forró, arrocha, reggae e ijexá.

Majur dissecou cada uma das 11 faixas do disco num encontro de quase duas horas com a reportagem, mas manteve segredo absoluto sobre o nome da obra. Num acordo com a gravadora Universal, ficou definido que o título será revelado apenas no dia do lançamento. “Tem a ver com a minha religião. Gosto de não contar os segredos até que aconteçam. Também acho bacana essa coisa energética de todo mundo ver algo novo ao mesmo tempo”, comenta, sobre o álbum cuja produção musical é de Feijuca, Icaro Santiago e Raonir Braz.

Nascida em Salvador, a cantora, de 31 anos, começou a soltar a voz, ainda criança, no coral da igreja evangélica frequentada por sua mãe, Luziane Luzia. O talento fez com que se destacasse a ponto de “tomar cargo” dentro da congregação e ministrar louvores quando adolescente. Mas o jeito efeminado dela, que viria se entender uma mulher trans no início da vida adulta, começou a incomodar os pastores. “Eles queriam que eu me comportasse de uma forma masculina, mas nunca fui assim”, recorda-se. “Sempre soube que, quando entendesse a minha vida, iria atrás dos meus objetivos. Quando percebi que era travesti, e eles nunca aceitariam isso, disse: ‘Aqui não é o meu lugar. Beijo! Tchau!’. E fui embora.”

Entrou para a faculdade de Design Gráfico aos 19 anos e, a partir de um trabalho de semiótica em que a professora pediu aos alunos para escreverem sobre si, entendeu, de uma vez por todas, a sua identidade de gênero. Se na igreja e no colégio militar onde estudou havia opressão, dentro de casa o acolhimento era pleno. “Minha mãe mudou tudo por causa de mim”, conta. “Sabe a coisa da coruja sempre relacionada à sabedoria nos desenhos animados? Ela é assim. Entende as coisas rapidamente e começou a trabalhar em vários projetos sociais com pessoas em situação de vulnerabilidade, sendo a maioria LGBTQIAPN+.”

O pai de Majur saiu de casa quando ela estava com 2 anos e sua mãe, grávida da segunda filha, Karen. Restou a Luziane encontrar os próprios meios para garantir a sobrevivência da família. Vem daí parte importante dos ensinamentos que a cantora trouxe para a vida adulta. “Cada dia era uma luta para conseguirmos comer”, conta. “Mas minha mãe não chorava na nossa frente e lidava com os problemas de uma forma lúdica. Se estávamos catando materiais recicláveis ou vendendo brincos na praia, agia como se estivéssemos brincando.”

A artista assimila o comportamento a algo que reverbera em sua cabeça como um mantra: “Minha mãe já fez de tudo e se formou em vários cursos. Isso é hackeamento e tem a ver com se reinventar e se dar importância ainda que ninguém dê”. Munida desse pensamento, agarrou todas as oportunidades ao longo da vida. Cantou em bares, ganhou projeção ao participar de um show da Liniker, em Salvador, e caiu nas graças de Caetano Veloso e Paula Lavigne, com quem chegou a morar por dois meses, no começo da carreira. Em retribuição ao casal, incluiu, como faixa-bônus no novo álbum, uma versão de “Tigresa”, prontamente liberada para ela. “Eles me ajudaram muito. Amo aquela família”, diz.

Combinadas ao talento da artista, todas essas chances tiveram o sucesso como caminho natural. Foi assim com a explosão de “AmarElo”, sample de “Sujeito de sorte”, de Belchior, lançado em 2019 por Emicida, em parceria com ela e Pabllo Vittar. Um hit celebrado por Majur, à capela, no Palco Mundo do Rock in Rio, em 2024, quando participou de um show dedicado à MPB. Foi a primeira vez em que uma cantora trans se apresentou no principal espaço do festival. “Ela faz um trabalho muito importante, com melodias ricas e não óbvias”, afirma Zé Ricardo, músico e diretor do espetáculo. “Também tem uma presença de palco única. Foi maravilhoso tê-la no line-up.”

Naquela noite, dividiu o setlist com nomes como Ney Matogrosso, Margareth Menezes e Gaby Amarantos. Esta última, amiga pessoal e aficionada pelo trabalho da baiana. “Sou viciada no álbum ‘Gira Mundo’. Ouço quase todos os dias”, comenta a paraense, sobre o disco inteiramente cantado em iorubá e lançado no ano passado. “Ela está para mim num lugar de espiritualidade, é uma mulher de muita sabedoria, que me emociona e me incentiva. Na minha opinião, é a maior cantora do país.”

O alcance vocal citado por Gaby aparece também nos posicionamentos políticos de Majur, ciente do quanto a sua projeção tem a contribuir para a visibilidade de pautas relacionadas à população transexual. Isso aparece, por exemplo, na maneira como aborda os próprios procedimentos cirúrgicos. Além de colocar próteses nos seios, fez intervenções na região dos olhos e redução de protuberâncias no rosto, num processo de feminilização facial. “Eram marcas que me tiravam a paz. Às vezes, começava a me arrumar para sair e não conseguia me ver como menina no espelho. Já passei uma hora e meia tirando e botando maquiagem”, conta.

O próximo passo, diz, será a cirurgia de redesignação de gênero, já liberada pelos médicos. “Mas preciso me preparar porque são seis meses de recuperação em casa. Com um álbum novo, isso é impossível”, comenta. Para além da realização pessoal (“Não aguento mais as pessoas olhando, na praia, para ver se tenho pinto ou xereca. Coisa ridícula!”), ela registra todas as intervenções e planeja mostrar o processo num documentário. “Não falamos sobre a saúde das pessoas trans e a transição de gênero de forma livre e aberta. Pode ser uma referência para outras meninas.”

Enquanto a obra não se concretiza, segue inspirando por outras plataformas. A moda é uma delas. Além do visual caprichado em trabalhos e shows, a cantora já desfilou na São Paulo Fashion Week para marcas como Meninos Rei e Dendezeiro, criada por Hisan Silva e Pedro Batalha, amigos de longa data. “Nós nos desenvolvemos juntos”, conta Hisan. “Ela é aquele tipo de pessoa e persona no Brasil que admiramos e amamos ver vencer. Desde o começo, só precisava de um microfone e um palco para subir e arrasar. Com a passarela, foi a mesma coisa.”

É assim também em relação à própria vida. Sem tempo a perder com a tristeza de outrora, Majur encerra o novo álbum com “Meu novo endereço”. Na faixa, cantada com Mariene de Castro, reflete sobre o momento atual, considerado “o mais especial” de sua vida. “Compreendo meus limites, objetivos e aquilo que realmente desejo com a minha família, os meus amigos e a minha espiritualidade”, afirma, pronta para levar o trabalho aos palcos com uma turnê no ano que vem. Cinco datas já estão confirmadas, incluindo um grande festival. Dada a decolagem, só lhe resta voar.