Copom mantém Selic em 13,75% e especialistas projetam pausa prolongada nos cortes – BM&C
Fonte: bmcnews.com.br | Data: 05/11/2026 08:50:07
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, nesta quarta-feira (4), interrompendo o ciclo de redução dos juros. A decisão ocorre em um cenário de deterioração das expectativas de inflação, desvalorização cambial, aumento das incertezas internacionais e desaceleração mais acentuada da economia brasileira.
A manutenção dos juros já havia passado a ser considerada por parte do mercado financeiro diante da piora recente dos indicadores. Para economistas ouvidos pela BM&C News, o comunicado adotou um tom mais cauteloso e deixou em aberto os próximos movimentos da política monetária, incluindo a possibilidade de uma pausa prolongada no ciclo de cortes.
Embora o Banco Central reconheça que a atividade econômica perdeu força, a inflação persistente e o afastamento das expectativas em relação à meta limitam o espaço para novas reduções da Selic.
Piora das expectativas levou mercado a rever apostas para a Selic
Para Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, a manutenção da Selic confirmou uma mudança de expectativa que ganhou força nos dias anteriores à reunião.
Segundo ele, o banco trabalhava anteriormente com a possibilidade de uma nova redução dos juros, mas revisou sua projeção diante da desvalorização do real e da deterioração das expectativas inflacionárias.
“A decisão do Banco Central do Brasil de manter a taxa Selic em 13,75% veio em linha com o que passamos a esperar desde o início desta semana, principalmente diante da deterioração das expectativas de inflação observadas junto ao mercado”, afirma Cardoso.
O economista observa que o comunicado trouxe uma avaliação mais negativa do ambiente internacional e reconheceu o enfraquecimento da atividade doméstica, especialmente nos setores mais sensíveis aos ciclos econômicos.
Ao mesmo tempo, o Banco Central reforçou a preocupação com o distanciamento das expectativas de inflação em relação à meta, mantendo um balanço de riscos com maior peso para pressões inflacionárias.
Para Cardoso, a principal mudança está na avaliação de que o aumento das incertezas, combinado à desaceleração econômica e às expectativas de inflação mais elevadas, exige maior cautela na condução dos juros.
Comunicado mais duro mantém possibilidade de alta dos juros
Na avaliação de Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, o comunicado de novembro apresenta uma postura mais restritiva do que o documento divulgado em setembro.
“O texto de novembro é mais duro que o de setembro”, afirma.
O economista chama atenção para a retirada de uma referência à magnitude total do ciclo de calibração monetária, presente na comunicação anterior.
No novo texto, a Selic é classificada como “substancialmente contracionista”, enquanto a orientação passa a enfatizar a necessidade de preservar uma restrição monetária adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.
Saadia também destaca a inclusão explícita da assimetria altista no balanço de riscos, com atenção especial à persistência da inflação de serviços e aos efeitos de uma desvalorização prolongada do real.
Para o economista, o enfraquecimento da atividade econômica ajuda a explicar por que o Banco Central optou pela manutenção, em vez de uma elevação imediata dos juros.
Isso, entretanto, não significa que uma nova alta esteja completamente descartada.
“A frase sobre manter a restrição adequada deixa implícita uma opção de alta se as expectativas piorarem”, avalia Saadia.
Essa interpretação indica que, embora o Copom tenha interrompido o ciclo de cortes, a evolução da inflação e das expectativas continuará determinante para as decisões seguintes.
Inflação projetada para 2028 reforça preocupação do Copom
Um dos principais pontos de atenção do comunicado foi a revisão das projeções de inflação do próprio Banco Central.
A estimativa para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, passou de 3,2% para 3,5%, afastando-se da meta central de 3%.
Para Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, essa revisão foi determinante para a decisão de manter os juros.
“A projeção de inflação no horizonte relevante subiu de 3,2% para 3,5%, em razão da piora nas expectativas de inflação, que continuam preocupando, e da incorporação de choques desde a última reunião”, explica.
Segundo o estrategista, a combinação de expectativas mais elevadas, riscos externos e incertezas domésticas tornou o ambiente mais desafiador para a condução da política monetária.
Chicoli considera que a manutenção da Selic contribui para preservar a credibilidade da política monetária diante do atual quadro de incerteza.
O economista também ressalta a importância da política fiscal para a trajetória futura dos juros.
“Acreditamos que, na ausência de um ajuste fiscal relevante por parte do governo, a taxa Selic não deve sofrer cortes adicionais nas próximas reuniões”, afirma.
Banco Central projeta inflação de 5,6% em 2026
As projeções apresentadas pelo Copom no cenário de referência indicam que a inflação deve permanecer elevada no encerramento de 2026 e ao longo de 2027.
| Indicador | 2026 | 2027 | 2º tri. 2028 |
|---|---|---|---|
| IPCA | 5,6% | 4,7% | 3,5% |
| IPCA livres | 5,5% | 4,8% | 3,4% |
| IPCA administrados | 6,0% | 4,2% | 3,9% |
Fonte: Banco Central — Comunicado do Copom de 04/11/2026.
As projeções oficiais diferem das expectativas coletadas pelo Boletim Focus, que apontam inflação de 5,2% em 2026 e de 4,8% em 2027.
Para elaborar seu cenário de referência, o Banco Central considera a trajetória esperada para a Selic, uma taxa de câmbio inicial de R$ 5,20 por dólar e hipóteses sobre o comportamento dos preços internacionais do petróleo e das tarifas de energia elétrica.
A revisão da inflação no horizonte relevante mostra que o desafio do Copom não está restrito aos indicadores de curto prazo. A preocupação também envolve a persistência das pressões inflacionárias nos próximos anos.
Desaceleração da economia limita espaço para juros mais altos
Apesar do agravamento do cenário inflacionário, o Banco Central reconheceu que a economia brasileira apresenta sinais mais intensos de desaceleração.
Segundo o comunicado, os indicadores divulgados desde a reunião anterior apontam moderação mais acentuada da atividade, especialmente nos setores mais sensíveis às condições de crédito e juros.
O mercado de trabalho continua resiliente, mas apresenta sinais de desaquecimento na margem.
Essa combinação cria um desafio para a autoridade monetária. Embora juros elevados contribuam para conter a inflação, também restringem o consumo, o investimento e a atividade econômica.
Na análise de Saadia, o enfraquecimento da economia foi um dos elementos utilizados pelo Copom para justificar a manutenção da taxa, evitando um aperto monetário adicional neste momento.
Já Cardoso destaca que o Banco Central passou a reconhecer de maneira mais clara a intensidade da desaceleração, sem abandonar a preocupação com os riscos inflacionários.
Petróleo, câmbio e política fiscal ampliam riscos
O cenário externo também ganhou peso na avaliação do Banco Central.
O prolongamento dos conflitos no Oriente Médio elevou os riscos relacionados aos preços do petróleo e de seus derivados, enquanto a manutenção de políticas monetárias restritivas nas economias avançadas contribui para um ambiente de maior volatilidade financeira.
No Brasil, a desvalorização cambial representa um fator adicional de pressão sobre a inflação, ao encarecer produtos importados e insumos utilizados pela indústria.
A preocupação com o câmbio aparece tanto na análise de Cardoso, que relaciona a depreciação do real à revisão das expectativas para a Selic, quanto na avaliação de Saadia, que identifica o risco de uma moeda persistentemente depreciada como um dos pontos relevantes do novo comunicado.
No ambiente doméstico, Chicoli destaca a necessidade de acompanhar a evolução das contas públicas. Em sua avaliação, a ausência de um ajuste fiscal relevante pode dificultar a retomada dos cortes de juros.
Quando o Banco Central poderá voltar a cortar a Selic?
Apesar da decisão de manter os juros, o comunicado do Copom não estabeleceu uma trajetória para as próximas reuniões.
Para o Banco Daycoval, o cenário mais provável é de uma interrupção prolongada do ciclo de flexibilização monetária.
“Por ora, nosso cenário-base é de que o ciclo de cortes de juros permaneça pausado nas próximas reuniões, com retomada prevista para meados de 2027”, afirma Cardoso.
O economista ressalta, entretanto, que uma melhora das expectativas de inflação ou uma valorização do real poderia alterar essa perspectiva.
A Monte Bravo também não espera novos cortes nas próximas reuniões sem uma mudança relevante nas condições fiscais.
Já a Nomos chama atenção para uma possibilidade adicional: caso as expectativas inflacionárias continuem se deteriorando, o Banco Central poderá precisar considerar um novo aperto monetário.
As três avaliações convergem na percepção de que a decisão de novembro representa uma mudança importante no cenário para os juros, embora apresentem diferenças sobre os riscos e o momento de retomada da flexibilização.
Com a Selic em 13,75%, o Banco Central sinaliza que a desaceleração econômica, por si só, não é suficiente para justificar novas reduções dos juros enquanto persistirem as pressões sobre a inflação e as expectativas. O comportamento do câmbio, dos preços e das contas públicas estará entre os fatores acompanhados pelo mercado para avaliar os próximos passos do Copom.
