Renúncia de Santiago Peña: quem assume o Paraguai e o que é o ‘Master paraguaio’
Fonte: ururau.com.br | Data: 05/11/2026 14:29:07
A renúncia de Santiago Peña à Presidência do Paraguai, anunciada nesta quinta-feira (5) em vídeo nas redes sociais, ainda precisa ser aceita pelo Congresso. No mesmo dia, a Câmara dos Deputados aprovou a abertura de um processo de impeachment contra ele por causa da quebra do Ueno Bank, banco digital do qual o presidente foi acionista até março de 2025.
“Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai”, afirmou Peña, que pediu desculpas à população afetada. Economista do Partido Colorado, ele assumiu em agosto de 2023 e governaria até agosto de 2028.
Se o Congresso aceitar a renúncia, o vice Pedro Alliana assume e completa o mandato. Ele também é alvo de um pedido de impeachment: a oposição o acusa de ter protegido politicamente o banco. “Estou muito tranquilo porque sei da minha inocência”, disse Alliana antes da renúncia.
Integrantes do Partido Colorado passaram a defender que Alliana assuma, apoio que cresceu depois de uma reunião dele com o ex-presidente Horacio Cartes. Presidente do partido e apontado como mentor de Peña, Cartes tinha retirado o apoio ao governo e defendido o impeachment.
Pela Constituição paraguaia, se presidente e vice ficarem impedidos, o cargo passa, nesta ordem, ao presidente do Senado, ao da Câmara e ao da Corte Suprema de Justiça.
O que falta acontecer
• Peña precisa entregar a renúncia formal ao Congresso
• Deputados e senadores precisam se reunir para aceitar ou rejeitar o pedido
• Se a renúncia for rejeitada, o processo de impeachment segue
• O pedido de impeachment contra Alliana continua pendente
O que é o Ueno Bank
O Ueno nasceu em 1976 como Financiera El Comercio e foi comprado pelo Grupo Vázquez em 2021. A marca digital surgiu em 2022 e virou banco em novembro de 2023. Com abertura de conta pelo celular, cashback de até 40% e patrocínios esportivos, chegou a 2,94 milhões de clientes em junho deste ano e a 9,1% de todos os depósitos do país.
O banco fechou as portas na terça-feira (3), depois que o Banco Central do Paraguai iniciou o processo de resolução ao constatar que a solvência estava abaixo da metade do mínimo legal, por causa de empréstimos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que já tinha comandado o Ueno, renunciou no mesmo dia. O banco concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
A Procuradoria acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco, e executivos se entregaram após a emissão de mandados de prisão. A garantia de depósitos cobre até 75 salários mínimos por cliente, e um adiantamento inicial de até 10 milhões de guaranis será pago pelo fundo garantidor. Antes de renunciar, Peña promulgou uma lei para acelerar a devolução do dinheiro.
Por que o Ueno é chamado de “Master paraguaio”
A comparação é com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025. Os dois cresceram rápido, com estratégias agressivas para captar clientes, receberam dinheiro público e fizeram operações com empresas ligadas aos donos. A diferença é a escala: o Master tinha cerca de 0,55% dos depósitos do sistema brasileiro, enquanto o Ueno reunia quase um em cada dez guaranis depositados no Paraguai.
O caso Master no Rio
No Brasil, o fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio foi o que mais aplicou no Master. Dados do Ministério da Previdência apontam R$ 970 milhões em letras financeiras do banco, título que não tem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. O Rioprevidência afirma que o valor foi de R$ 960 milhões. Em janeiro, a Polícia Federal fez buscas na sede do fundo na Operação Barco de Papel.
As acusações contra Peña
O pedido de impeachment, apresentado por 35 deputados, acusa o presidente de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, além de apontar que o Banco Central teria encoberto irregularidades. “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai”, disse a deputada de oposição Rocío Vallejo na sessão.