Aeroporto de Congonhas passa a contar com recurso que facilita decolagens e pode reduzir atrasos
Fonte: estadao.com.br | Data: 06/11/2026 05:49:08
Como é o barulho dos aviões perto de Congonhas
Professora da FAU/USP mede ruído dos voos no Parque Jabaquara, zona sul. Crédito: Goncalo Jose de Sousa Junior
O Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, é o terceiro do País a contar com um sistema que organiza as decolagens e pode reduzir os atrasos em casos de arremetida das aeronaves. O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) implementou, na semana passada, a Área de Vetoração em Subida (AVS) no terminal paulistano. Até então, só os aeroportos internacionais de Brasília e de Campinas (SP) contavam com a ferramenta. De acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB), o próximo terminal que receberá o sistema será o de Confins (Belo Horizonte), no dia 26.
Conforme o Decea, órgão vinculado ao Comando da Aeronáutica, a medida ajuda a modernizar o gerenciamento do tráfego aéreo, pois proporciona aos controladores maior flexibilidade na condução das aeronaves nas fases iniciais de subida, especialmente em situações de decolagem e aproximação perdida (arremetida).
“Quando um avião deixa a pista, começa uma etapa da viagem que exige atenção especial de quem organiza o trânsito aéreo. Enquanto a aeronave ganha altura, outros voos podem estar saindo, aproximando-se para pousar ou voltando a subir após uma tentativa de pouso interrompida. Cabe aos controladores de tráfego aéreo coordenar esses movimentos e manter a separação segura entre os aviões”, diz a FAB, em nota.

Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, está localizado em uma região densamente urbanizada.
Foto: Taba Benedicto/Estadão
Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Congonhas ocupa a segunda posição no País em movimentação de passageiros, atrás apenas do Aeroporto de Guarulhos. No ano passado, mais de 24 milhões de passageiros passaram pelo terminal.
Para o brigadeiro-do-ar da reserva Ary Bertolino, consultor da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), com a AVS, o aeroporto ganha um recurso que melhora as decolagens e contribui para reduzir atrasos. “Quem viaja de avião conhece a situação. A aeronave está pronta, mas precisa esperar a liberação para decolar. Em um aeroporto movimentado como Congonhas, organizar a saída de cada voo exige cuidado para manter uma distância segura dos outros aviões. Essa ferramenta implantada pelo Decea dá aos controladores mais opções para orientar as aeronaves logo depois da decolagem.”
Trabalho semelhante já havia sido realizado no Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek, em Brasília, em abril de 2025, e no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, em setembro deste ano.
No caso de Congonhas, o aeroporto está localizado em uma região densamente urbanizada e inserido em um dos espaços aéreos de maior complexidade operacional do Brasil. Localizado na zona sul de São Paulo, o aeroporto está cercado por edifícios altos, linhas de energia e helipontos privados. Conforme o Decea, são características que exigem elevado grau de planejamento e coordenação das operações aéreas.
Em um cenário dessa natureza, ainda segundo o órgão, a AVS surge como um importante recurso para ampliar as possibilidades de atuação dos controladores de tráfego aéreo. Ela permite que os controladores emitam instruções de vetoração (procedimento em que o controlador orienta a operação da aeronave em tempo real) em altitudes inferiores às normalmente estabelecidas na Carta de Altitude Mínima de Vigilância ATS, desde que observados os limites e critérios de segurança definidos nas respectivas cartas.
“Na prática, isso significa maior capacidade de atuação do controle de tráfego aéreo em situações que exigem respostas rápidas, permitindo ajustar trajetórias de aeronaves ainda nas fases iniciais de subida, contribuindo para a prevenção de conflitos e para a manutenção da eficiência do fluxo de tráfego aéreo”, diz o Decea.

Congonhas é o segundo aeroporto mais movimentado do Brasil; no ano passado, mais de 24 milhões de passageiros passaram pelo terminal.
Foto: Taba Benedicto/Estadão
O que muda para quem está no avião
De acordo com Bertolino, com mais opções para ajustar o caminho dos aviões durante a subida, os controladores podem organizar melhor as saídas e lidar com situações que interrompem o fluxo normal dos voos. Isso pode ajudar a reduzir esperas para decolar e evitar que um imprevisto provoque atrasos em sequência.
“Um exemplo é a arremetida, quando o piloto interrompe o pouso e volta a subir. Nessa situação, o controlador precisa reorganizar o tráfego ao redor. A nova ferramenta permite orientar mudanças de direção mais cedo, dentro de áreas estudadas e seguras, facilitando esse trabalho.”
Para o passageiro, segundo o especialista, os benefícios esperados são menos tempo de espera para decolar, viagens mais rápidas e maior chance de chegar no horário previsto. Uma operação mais organizada também pode ajudar quem precisa fazer conexão e reduzir o efeito de um atraso sobre os voos seguintes.
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Obstáculos no entorno
A implementação da AVS em Congonhas foi precedida por um processo de planejamento e preparação, considerando as particularidades do aeroporto, os obstáculos existentes em seu entorno e as características das trajetórias de decolagem e aproximação perdida.
O Centro Regional conduziu estudos para a aplicação operacional da AVS em Congonhas, avaliando os cenários de utilização da ferramenta e promovendo sua integração às operações da torre de controle e controle de aproximação de São Paulo.
Todo o efetivo de controladores de tráfego aéreo passou por treinamento específico, contemplando os critérios de aplicação da AVS, os procedimentos operacionais e as particularidades das diferentes pistas de Congonhas. Além dos treinamentos, foram realizadas avaliações dos cenários operacionais para a aplicação da ferramenta.
Conforme o Decea, a adoção da prática em outros aeroportos será progressiva e adaptada às características de cada terminal, a partir de estudos técnicos e operacionais.
Para o consultor da Abag, é esperado que a iniciativa também contribua para diminuir os tempos de voo, o consumo de combustível e as emissões de dióxido de carbono (CO₂). “Na prática, trajetórias mais eficientes podem representar menos tempo no avião para os passageiros, economia de combustível para as companhias aéreas e menor impacto ambiental”, diz.