Censo IBGE 2022: mulheres pretas recebem em média 56% menos do que homens brancos em Conquista
Data: 04/11/2025 18:05:21
Fonte: Maria Maria Tags: Censo 2022 Diferença Salarial racismo estrutural Vitória
da Conquista
As mulheres têm ibge.gov.br/tabela/10289#resultado”>renda média mensal 20% menor do que os homens em Vitória da Conquista, segundo o levantamento Trabalho e Rendimento, do Censo IBGE 2022, divulgado em outubro. Quando o recorte ultrapassa o gênero e inclui a raça, a desigualdade é ainda maior, com mais de 50% de diferença entre os recebimentos de cada grupo.
A pesquisa mostra que as pessoas do gênero masculino ibge.gov.br/tabela/10289#resultado”>recebiam R$2.456,93 e as mulheres ganhavam R$1.964,43. Para mulheres autodeclaradas pretas, ibge.gov.br/tabela/10289#resultado”>o salário era em média R$1.432,20, enquanto para homens brancos era R$ 3.245,06, o que revela uma diferença de aproximadamente 56%. Os dados foram coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 1º de agosto de 2022 a 28 de maio de 2023.
A professora do curso de Pedagogia e líder do VIVAs, grupo de pesquisa e estudos feministas da Uesb, Ana Luiza Salgado, explica que a desigualdade é aprofundada pelo racismo. “Dados evidenciam que a renda de pessoas brancas, até com o mesmo nível de escolaridade, é superior à de pessoas negras. Isso ocorre devido ao racismo estrutural que oferece menos oportunidades de ascensão profissional e melhores salários”, disse.
Os dados do Censo 2022 corroboram a realidade exposta pela professora. ibge.gov.br/tabela/10281#resultado”>O abismo é ainda maior entre pessoas com ensino superior completo. A média de recebimento entre os homens brancos era de R$6.765,51 e a das mulheres pretas 58,13% a menos, o que corresponde a R$2.832,65. Entre mulheres brancas e pretas do mesmo nível de escolaridade, também há uma diferença. As primeiras recebem 30,7% a mais.
A administradora Maria Angélica Ramos, de 52 anos, faz parte dessa estatística. Moradora de Vitória da Conquista, ela é uma mulher preta, com ensino superior completo, que trabalha no ramo administrativo há quase 30 anos. Ela conta que já trabalhou em duas empresas em que recebia menos que seus colegas homens, mesmo ocupando cargos iguais. “A desigualdade é mais escancarada do que as pessoas pensam. Eu já passei por empresas que usavam a “hora extra” como justificativa para pagar mais aos homens, mas, no final das contas, não fazia sentido.”
Entre pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, ibge.gov.br/tabela/10281#resultado”>a diferença salarial entre homem branco e mulher preta é de 42,09%. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), Vitória da Conquista tinha, em 2024, 80.702 trabalhadores com carteira assinada, correspondendo a 29,13% da população economicamente ativa, com crescimento de 7,75% em relação a 2023.
Para a professora Ana Luiza, diante desse cenário, é essencial ampliar as discussões e estudos sobre a desigualdade de gênero. “O debate sobre gênero e raça deve constar nos currículos de formação de professores, na produção de pesquisas que exponham as discrepâncias salariais. As escolas podem realizar projetos de conscientização com alunos e familiares. Já os meios de comunicação conseguem amplificar o debate para a sociedade e realizar campanhas que combatam o machismo e o racismo estrutural.”
Cenário nacional
A realidade de Vitória da Conquista é um reflexo da desigualdade de gênero no Brasil. O 3º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho mostra que a mulher recebe 20,9% menos que o homem no país, mesmo após a sanção da Lei nº 14.611/2023, que dispõe sobre a igualdade salarial e obriga a divulgação de relatórios sobre os critérios remuneratórios.
A legislação, sancionada durante o governo Lula, em 3 de julho de 2023, torna obrigatória a igualdade salarial para homens e mulheres que desempenham funções equivalentes. Além disso, prevê mecanismos como a transparência salarial, fiscalização e canais para denúncias de discriminação.
A norma determina que empresas com 100 ou mais empregados publiquem relatórios semestrais contendo dados que permitam comparar salários por sexo, raça, etnia e idade. Em caso de desigualdade, a organização deve implementar planos de ação para reduzi-la, com metas e prazos. A multa para descumprimento pode chegar a 3% da folha de pagamento, limitada a 100 salários mínimos, além de outras sanções.
A lei também estabelece a criação de programas de capacitação para mulheres, a inclusão de temáticas de equidade em treinamentos corporativos e a fiscalização intensificada. Os empregadores que discriminarem podem ser penalizados judicial e moralmente, com pagamento de diferenças salariais e indenizações.
Confira as tabelas originais retiradas do Censo IBGE 2022
Foto: Freepik
*Sarah Andrade e Lázaro Oliveira são bolsistas do Programa de Extensão Jornalismo como forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.