A equipe da Reserva Particular do Patrimônio Natural Nascentes do Rio Pequeno identificou e denunciou a existência de acampamentos clandestinos utilizados por caçadores em uma área de preservação na Serra do Mar, no Paraná. A região, situada entre o Parque Estadual do Marumbi e a unidade de conservação privada, vem sendo alvo de criminosos interessados nos animais silvestres que habitam a mata atlântica local.


Em um vídeo registrado pela equipe, é possível ver a chegada a um dos acampamentos, onde um pequeno casebre improvisado revela a estrutura utilizada para a prática ilegal. Alexandro Kenor da Silva, advogado e vice-presidente da associação mantenedora da RPPN, conta que a equipe reuniu em relatório diversos indícios da atividade criminosa  na região e encaminhou ao Instituto Água e Terra (IAT), órgão gestor local, e à outras entidades de  proteção da biodiversidade como: ICMBio, Batalhão da Polícia Militar Ambiental, Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (GAEMA) e à Polícia Civil Ambiental. “O acampamento das imagens está fora da RPPN, embora relativamente próximo dos seus limites. Ele fica entre o Parque Estadual do Marumbi e a RPPN, em uma área classificada como Área de Especial Interesse Turístico do Marumbi (AEIT)”, explicou.


Um dos acampamentos localizados. Foto: Alexandro Kenor da Silva


Descoberta ocorreu durante uma ação de pesquisa


A descoberta ocorreu durante uma incursão de monitoramento de fauna realizada em 29/11. “Para celebrar o dia da onça pintada, eu e o biólogo  Kauê Cachuba de Abreu, especialista em grandes felinos, realizamos uma incursão de pesquisa na serra do mar, nas cercanias do Parque Estadual do Marumbi. O plano era distribuir câmeras trap pela região, para fins de monitoramento da fauna. Infelizmente nos deparamos com uma grande rede de trilhas muito bem consolidadas e optamos por investigar”, relatou Kenor.


Ceva encontrada próximo ao Parque Estadual do Marumbi. Foto: Alexandro Kenor da Silva


Ceva com bananas e pinhão deixados no local recentemente. Foto: Alexandro Kenor da Silva


Ele contou que encontraram inúmeros indícios de caça. “Vários indícios, tais como armadilhas, cevas (grãos para atrair animais, muito milho em espiga), estojos deflagrados de armas de fogo calibre 28 e 36, pêlos de animais. No entorno do acampamento existem clareiras secundárias com cevas”, descreveu.


O biólogo Kauê Cachuba de Abreu identificou que o tipo de ceva encontrada atrai principalmente herbívoros como paca, cotia, veado, cateto, queixada e anta, exatamente as espécies que a RPPN monitora e que fazem parte da cadeia alimentar de pumas e onças-pintadas. A redução desses animais impacta diretamente o equilíbrio ambiental e compromete a presença de grandes predadores na região.


Entrar em Unidade de Conservação portando armas e instrumentos de caça, a caça ilegal de animal silvestre, extração de palmito ou outros produtos de origem vegetal, garimpo ilegal e extração de recursos minerais é crime de acordo com a Lei nº 9.605/98, com pena de detenção de seis meses a um ano, e multa.


Racho estruturado encontrado também na região. Foto: Alexandro Kenor da Silva


Proteção fragilizada e entraves burocráticos


Apesar do trabalho ativo de conservação, a RPPN enfrenta grandes dificuldades para proteger sua área. Segundo Kenor, um dos maiores obstáculos é a falta de apoio dos órgãos ambientais estaduais. “O nosso processo de implantação da RPPN está parado no IAT, sem data prevista para vistoria de campo dos técnicos, embora estejamos implorando há meses por tal visita. Sem o reconhecimento formal pelo Estado, não conseguimos disputar editais e obter verbas para aparelhamento da RPPN e desenvolvimento das pesquisas e ações de restauração e conservação.”, afirma.


A RPPN Nascentes do Rio Pequeno tem como missão conservar áreas não antropizadas (sem modificações significativas feitas pela ação humana), restaurar ambientes degradados, promover educação ambiental, servir como centro de pesquisa em ciências biológicas, monitorar fauna e tutelar o patrimônio natural e cultural da Serra do Mar. Mas de acordo com os responsáveis pela RPPN, a falta de apoio e estrutura estatal, atreladas a burocratização excessiva para o reconhecimento formal da RPPN, no entanto, amplia a vulnerabilidade diante da ação de caçadores e outras práticas nocivas ao meio ambiente.


Papel da sociedade e dos montanhistas


Kenor reforça que a população pode contribuir com pequenas ações. “A população pode apoiar as práticas preservacionistas e instituições dedicadas a preservação ambiental, como é o caso da RPPN Nascentes do Rio Pequeno. Um mero like nas redes sociais já ajuda muito a UCs alcançar relevância social e, por consequência, contribui na busca por fomento para as pesquisas científicas e ações regenerativas. Com isso podemos pressionar os órgãos ambientais para desempenharem sua função de forma rápida, eficaz de desburocratizada. Além disso, denúncias de caça predatória e outras práticas lesivas ao meio ambiente podem ser realizadas pelo fone 181 (disk denúncia) ou pelo site www.denuncia181.pr.gov.br”, enfatizou.


Gaiola usada como armadilha. Foto: Alexandro Kenor da Silva


Mais um acampamento de caça. Foto: Alexandro Kenor da Silva


Ele também concorda que montanhistas e praticantes de atividades ao ar livre, exercem um papel ainda mais decisivo. “Falo com conhecimento de causa. Sou montanhista independente desde os 15 anos de idade. Graças à experiência adquirida no trekking e navegação, chegamos a lugares onde o Estado não chega. Assim, conseguimos identificar vários tipos de delitos em áreas remotas das cadeias de montanhas do Paraná, como acampamentos desse tipo”, destacou.


Para o advogado, é necessário que os órgãos estatais enxerguem esses visitantes como aliados na proteção da natureza. “Acredito que os órgãos ambientais precisam parar de tratar os montanhistas como inimigos e passar a tratá-los como parceiros no combate à praticas nocivas ao meio ambiente, como a caça predatória e outros crimes ambientais. Qualquer órgão ambiental que não reconheça o potencial restaurativo e preventivo do montanhismo e das atividades ao ar livre é anacrônico. De que adianta um parque sem um plano de manejo que contemple trilhas de longo curso, se os caçadores se aproveitam dessa ‘intangibilidade’ para promover a carnificina?”, questionou.