Cine Ceará revisita história do grupo “Brasiliana” e do bailarino Thiago Soares
Data: 07/11/2024 13:33:12
Fonte: revistadecinema.com.br
Foto: “Brasiliana: o Musical Negro que Apresentou o Brasil ao Mundo”, de Joel Zito Araújo
Por Maria do Rosário Caetano
O longa documental “Brasiliana: o Musical Negro que Apresentou o Brasil ao Mundo”, de Joel Zito Araújo, vai abrir a trigésima-quarta edição do Cine Ceará – Festival de Cinema Ibero-Americano, na noite desse sábado, 9 de novembro.
A solenidade de abertura do festival, que acontecerá até dia 15, no Cine São Luiz, centro de Fortaleza, prestará, também, tributo aos 70 anos da Universidade Federal do Ceará. A instituição pública se fará representar pelo reitor Custódio Almeida, que receberá o Troféu Eusébio de Oliveira. Parceira histórica do festival, a UFCE faz de sua Casa Amarela, uma espécie de Decanato de Extensão Cultural, espaço privilegiado de difusão das artes e do cinema cearense e brasileiro.
O Cine Ceará prestará, também, homenagem a dois de seus atores mais representativos – Rodger Rogério e Gero Camilo. O primeiro acaba de conquistar o Troféu Kikito de melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado, por encarnar pistoleiro já entrado nos anos, no sedutor e crepuscular western “Oeste Outra Vez”, do goiano Erico Rassi. Embora tenha atuado em muitos filmes (nos de Rosemberg Cariry, em “O Grão”, de Petrus, e no “Bacurau” pernambucano), Rodger tornou-se muito conhecido em seu estado natal como músico, integrante da trupe de Ednardo, Amelinha, Belchior, Fagner, Fausto Nilo e Teti.
Quem imaginaria que o pacato e silencioso “pistoleiro” de “Oeste Outra Vez” fosse mestre em Física, formação que o levou à função de professor na USP dos anos de 1970? Mas não teve jeito. A paixão pelas Artes mudou o rumo do cearense, hoje octogenário, encaminhando-o aos ofícios de ator, cantor e compositor, membro-fundador do coletivo “Pessoal do Ceará”.
Gero Camilo é, como o conterrâneo Rodger, um multiartista – ator, cantor, compositor, diretor, dramaturgo e poeta. Iniciou sua carreira cinematográfica no longa “Cronicamente Inviável”, de Sérgio Bianchi. Fez “Abril Despedaçado”, de Walter Salles Jr, e causou sensação na pele de maluquinho muito do carismático em “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky (troféu Candango de melhor coadjuvante nos festivais de Brasília e Recife). Nos anos seguintes atuou em “Domésticas”, de Olival & Meirelles, “Cidade de Deus”, de Meirelles, “Madame Satã”, de Karim Aïnouz, “Narradores de Javé”, de Eliane Caffé (melhor coadjuvante no Cine PE), e “Carandiru”, de Babenco. Um de seus textos teatrais – “Aldeotas” – foi transformado em longa-metragem de mesmo nome (2022). Em “Mussum, o Filmis”, de Silvio Guindane – que será exibido para o público da mostra A Melhor Idade – coube a Gero interpretar o conterrâneo Renato Aragão, encarnado no “palhaço” Didi.
O Cine Ceará vai festejar, também, os 100 anos do cinema cearense. O estado, conhecido como a terra do sol e das locações luminosas, além de servir de ponto-de-partida para um dos registros documentais mais importantes do cinema brasileiro (o encontro do mascate-cineasta Benjamin Abrahão com o Bando de Virgulino Ferreira, o Lampião, nos meados da década de 1930), foi o ponto de partida da rede exibidora Luiz Severiano Ribeiro e foco de produção documental no começo do século XX.
Duarte Dias, pesquisador e programador do Cineteatro São Luiz, justifica a escolha da data (15 de outubro de 1924) como marco inaugural do Cinema Cearense. Foi naquele dia, mês e ano, que “o documentarista Adhemar Bezerra de Albuquerque exibiu o seu filme ‘Temporada Maranhense de Foot-Ball no Ceará’, no Cine Moderno, belo cinema situado em frente à Praça do Ferreira. A sala pertencia a Luiz Severiano Ribeiro”.
A investigação empreendida por Duarte comprovou ser “Temporada Maranhense de Foot-Ball no Ceará”, a primeira obra audiovisual cuja autoria traz a assinatura de um realizador cearense. Um realizador e produtor que marcou a história do audiovisual no estado nordestino. Afinal, foi ele o produtor do documentário de Benjamin Abrahão sobre Lampião e Bando. E seu filho, o grande fotógrafo Chico Albuquerque, fez o still da parte nordestina de “Jangadeiros”, episódio do inacabado “It’s All True”, de Orson Welles.

O Cine Ceará promove quatro competições – a de longas ibero-americanos, a de curtas brasileiros, a de longas e curtas cearenses. E muitas mostras informativas, além de programa de curtas (e um longa documental) no Itaú Cultural Play (esta, de alcance nacional e acesso gratuito). Aliás, são gratuitas, também, todas as atividades presenciais do Cine Ceará, que acontecerão, além do Cineteatro São Luiz, na Caixa Cultural Fortaleza e no Hotel Sonata. Serão exibidos 15 longas e 32 curtas-metragens em todas as mostras (competitivas e não-competitivas) do evento.
O longa de Joel Zito Araújo, o “Spike Lee brasileiro”, vai competir, pelo Troféu Mucuripe, com “Um Lobo entre os Cisnes”, dos brasileiros Marcos Schechtman e Helena Varvaki, e com as ficções hispano-hablantes “Milonga”, de Laura González, fruto de parceria entre Uruguai e Argentina, “A Bachata do Biônico”, de Yoel Morales (República Dominicana), e “Linda”, de Mariana Wainstein (Argentina). Completa o time de selecionados o documentário cubano-estadunidense “En la Caliente – Contos de um Guerreiro do Reggaeton”, de Fabien Pisani.
O quilométrico título do filme de Joel Zito – “Brasiliana: o Musical Negro que Apresentou o Brasil ao Mundo” (contraste total com o sintético “Baby”, de Marcelo Caetano, convidado da noite de encerramento) – nos leva a evocar “Orfeu do Carnaval”, de Marcel Camus (1959), musical inspirado em peça de Vinícius de Moraes (“Orfeu Negro”), vencedor do Festival de Cannes e detentor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas não, Joel Zito nos revela a história (e as histórias) da Companhia Brasiliana, grupo de música, teatro e dança afro-brasileiros, criado no Rio de Janeiro, em 1949 (portanto dez anos antes de “Orfeu do Carnaval” seduzir o mundo). A trupe carioca excursionou por mais de 90 países ao longo de 25 anos de atividades.
O diretor de “A Negação do Brasil” e “Filhas do Vento” lembra em seu sétimo longa-metragem “a repercussão do projeto Brasilianas em grandes palcos do mundo”, enfatizando “sua imensa e notável importância para a construção da imagem do Brasil no exterior”. Daí “o incômodo esquecimento” que tomou conta dos brasileiros, desinformados (indiferentes?) quanto à relevância dessa histórica companhia. Infelizmente, constata Joel Zito, “o Brasiliana segue completamente ignorado na historiografia cultural brasileira”.
O outro brasileiro da competição ibero-americana, “Um Lobo entre os Cisnes”, também resgata história brasileira ligada à dança – a do bailarino Thiago Soares, garoto pobre criado no subúrbio carioca, que na adolescência dedicou-se ao hip hop. Aos 15 anos, porém, ele passou a se interessar pelo ballet. Apesar da descoberta tardia do ofício, hoje pilar de sua vida, tornou-se uma estrela internacional, elevada ao posto de primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres. Agora, aos 40 anos, Thiago é diretor artístico do Ballet de Monterrey, no México.
O filme, que tem entre seus roteiristas Camila Agustini, José Carvalho e o experiente Jorge Duran, foi escrito sob supervisão de Guillermo Arriaga, antigo colaborador de Alejandro Gonzalez Iñarritu (“Amores Perros”, “21 Gramas”, “Babel”), de Lorenzo Vigas (do Leão de Ouro venezuelano “De Longe te Observo”) e de Tommy Lee Jones (“Três Enterros”).
Ao contrário de “Brasiliana”, “Um Lobo entre os Cisnes” constitui-se como obra ficcional protagonizada por Matheus Abreu. E com o astro argentino Dario Grandinetti (do almodovariano “Fale com Ela”) no elenco. Produzido pela TV Zero, de Roberto Berliner e parceiros, o filme teve locações no Rio de Janeiro e na Europa (em Paris, na Pont Neuf, Pont des Arts e na Opera Garnier).
Mostra de longas ibero-americanos
. “Brasiliana: o Musical Negro que Apresentou o Brasil ao Mundo”, de Joel Zito Araújo (doc., 82’. Brasil, première mundial) – Dia 9, sessão inaugural
. “Um Lobo entre os Cisnes”, de Marcos Schechtman e Helena Varvaki (ficção, 110’. Brasil, première mundial) – Dia 10
. “Milonga”, de Laura González (ficção, 106’, Uruguai-Argentina, première brasileira) – Dia 11
. “En la Caliente – Contos de um Guerreiro do Reggaeton”, de Fabien Pisani (doc. 85’, Cuba-EUA, première brasileira) – Dia 12
. “Linda”, de Mariana Wainstein (ficção,100’, Argentina, première brasileira) – Dia 13
. “A Bachata do Biônico”, de Yoel Morales (ficção, 80′, República Dominicana, première brasileira) – Dia 14
Competição de curtas brasileiros
. “Fenda”, de Lis Paim (ficção, 23’, Ceará)
. “Tiramisú”, de Leônidas Oliveira (ficção, 20’, Ceará)
. “Os Mortos Resistirão para Sempre”, de Carlos Adriano (híbrido, 24’, SP)
. “Você”, de Elisa Bessa (híbrido, 7’, RJ)
. “Quinze Quase Dezesseis”, de Thais Fujinaga (ficção, 20’, SP)
. “Cavaram uma Cova no meu Coração”, de Ulisses Arthur (doc., 24′, AL)
. “Eu Sou um Pastor Alemão”, de Angelo Defanti (animação, 15’, RJ)
. “Salmo 23”, de Lucas Justiniano e José Menezes (doc., 12’, SP)
. “Maputo”, de Lucas Abraão (ficção,15’, SP)
. “Bolinho de Chuva”, de Cameni Silveira (ficção,11’, PR)
. “Dona Beatriz Ñsîmba Vita”, de Catapreta (ficção, 20’, MG)
. “Todas as Memórias que Você Fez em Mim”, de Pedro Fillipe (ficção, 19’, PE)
Mostra Olhar do Ceará
Longas-metragens:
. “Antônio Bandeira – O Poeta das Cores”, de Joe Pimentel (doc., 80’)
. “Filhos do Vento”, de Euziane Bastos e Rogério Bié (doc. 69’), dia 13
. “Cante Lá que eu Conto Cá”, de Iziane Mascarenhas (doc. 84’)
. “Seca Verde”, de José Roberto Sales (doc., 70’) – fora de competição
Curtas-metragens:
. “Almadia”, de Mariana Medina (animação, 8’)
. “Juzé”, de Raquel Garcia (animação, 11’)
. “Fotossíntese”, de Rodrigo do Viveiro (animação. 6’)
. “Poesia no Vinho de seus Lábios”, de Matheus Monteiro (anim. 4’)
. “A Mulher Barco”, de Tibico Brasil (doc., 16’)
. “Neblina”, de Milene Coroado (ficção, 9’)
. “Cavalo Serpente”, de Priscila Smiths (fic-doc. 6’)
. “Urêasêca”, de Dizio Brito (ficção. 17’)
. “Sirius Não é Tão Longe”, de Nick Sanches (ficção. 14’)
. “Calcanhar”, de Lara Brito e César Gomes (ficção, 21’)
. “Slam Sobral”, de Kieza Fran (doc. 24’)
. “Raízes do Mangue”, de Charlotte Cruz (doc. 14’)
. “Visitando Luisa”, de André Moura Lopes (doc. 15’)
. “Topera”, de Rodrigo Gadelha (doc. 17’)
. “Cidade Ruína”, de ISAAAKI e Mabi Sousa (doc. 9’)
. “Crayon”, de Juno e Becca Lutz (ficção-animação,13’)=
. “Ponte Metálica”, de Felipe Bruno e Wes Maria (ficção, 17’)
. “Kila & Mauna”, de Ella Monstra (ficção. 19’)
. “Raposa”, de Margot Leitão e João Fontenele (ficção, 15’)
. “O Verbo”, de Juliana Craveiro e Lucas Souto (ficção. 20’)
Exibições Especiais
. “Lampião, Governador do Sertão”, de Wolney Oliveira. Doc., 90’, Ceará, 14 anos) – No domingo, 10 de novembro.
. “Baby”, de Marcelo Caetano (ficção,106’, Brasil-França-Holanda, 2024, 16 anos) – na noite de encerramento e entrega dos troféus Mucuripe
Mostra Cine Ceará na Itaú Cultural Play
. “Neblina”, de Milene Coroado
. “O Verbo”, de Juliana Craveiro e Lucas Souto
. “Raposa”, de Margot Leitão e João Fontenele
. “Juzé”, de Raquel Garcia
. “Almadia”, de Mariana Medina
. “Kila & Mauna”, Ella Monstra
. “Topera”, de Rodrigo Gadelha
. “Crayon”, de Juno e Becca Lutz)
. “Ponte Metálica”, de Felipe Bruno e Wes Maria
Mostra Melhor Idade
. “Mussum, o Filmis”, de Sílvio Guindane (ficção, 123’, RJ, 2023)
Acessibilidade
. “Mirador”, de Bruno Costa (ficção, 95’, PR, 2021, 16 anos).
. O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece:
. “Escola de Quebrada”, de Kaike Alves e Thiago Eva (ficção, 63’, Brasil. 2023, 12 anos)
Mostra Itinerância
No Centro Cultural BNB de Fortaleza, depois no Cariri e em dez cidades do interior:
. “Almadia”, de Mariana Medina (animação, 8′, Ceará) e “Memórias da Chuva”, de Wolney Oliveira (doc. 79’, Ceará, 2023)
Debates e oficina
. Nas manhãs, após a exibição dos longas ibero-americanos e dos curtas brasileiros, no Cineteatro São Luiz, haverá debates (no Hotel Sonata de Iracema) dos curtas e longas da competição. No mesmo local, o professor e crítico de cinema Bruno Carmelo ministrará a oficina “Cinema Queer” (de 11 a 14, presencial, 30 vagas).