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De ‘Ainda Estou Aqui’ a ‘Que Horas Ela Volta?’: quando o cinema é mais que entretenimento

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Data: 25/02/2025 22:11:48

Fonte: midianinja.org


Por Tadeu Nunes Ferreira

Independentemente da temporada de premiações ou dos resultados, ‘Ainda Estou Aqui’, do aclamado diretor Walter Salles, já se firmou como um marco na história do cinema brasileiro. Mais do que um sucesso de bilheteria, o filme conseguiu algo raro: unir elogios de diferentes espectros políticos (apesar de alguns grupos ainda manterem uma resistência ignorante à obra) e reacender debates sobre a história recente do país.

Ao levar milhões de brasileiros de volta às salas de cinema, Salles não apenas emocionou, mas também provocou reflexões profundas. O impacto da obra inspirou discursos de líderes políticos e impulsionou debates sobre a ditadura militar em instâncias de poder que, até então, pareciam tratar o tema apenas como resposta aos ataques da extrema direita.

O longa brasileiro chegou a ser citado em decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, lançando uma nova luz sobre a Lei da Anistia de 1979 – mais alinhada aos acordos internacionais assumidos pelo país na área de direitos humanos. O Instituto Vladimir Herzog (amicus curiae na ação), afirma em matéria que “a decisão destaca que a ocultação de cadáveres é um crime de natureza permanente, cujos efeitos continuam a violar o direito à verdade, à memória e ao luto das famílias das vítimas”.

Assim como esta, outras produções ao redor do mundo também geraram mudanças sociais, ampliando discussões que antes se restringiam à elite intelectual. Em alguns casos, esses debates resultaram em transformações concretas e reforçaram o papel do cinema como uma poderosa ferramenta de impacto social, muito além do entretenimento.

Um caso de destaque ocorreu em plena Guerra Fria, nos Estados Unidos, com o lançamento do filme para a TV ‘The Day After’ (‘O Dia Seguinte’), em 1983. O filme apresenta uma realidade distópica na qual o país é devastado por um ataque nuclear e, de forma realista para os padrões da época, mostra o dilema de famílias do interior estadunidense enfrentando as agruras de uma hecatombe atômica. 

Foto: Divulgação

De acordo com publicação da CNN dos Estados Unidos, o presidente Ronald Reagan demonstrou profunda tristeza ao assistir à produção com exclusividade um mês antes de sua estreia. Isso influenciou o andamento das negociações envolvendo o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, cujo objetivo era o controle de armas nucleares. O tratado chegou a desativar mais de 2.000 mísseis até 1991, mas os Estados Unidos se retiraram unilateralmente do acordo em 2019.

Outros filmes também tiveram impactos sociais significativos, fortalecendo a discussão sobre direitos civis em todo o mundo, como ‘Milk: A Voz da Igualdade’. Uma biografia de Harvey Milk, político assumidamente gay de São Francisco, o filme foi estrelado por Sean Penn e se tornou um manifesto político em um período no qual os Estados Unidos buscavam retomar a luta pelos direitos civis da população LGBTQIAPN+, duramente combatidos durante o governo de George W. Bush.

Sean Penn em “Milk – A Voz da Igualdade”. Foto: Divulgação

De forma inusitada, uma animação também ilustra o exemplo de obras que inspiraram mudanças na sociedade. ‘Bambi’ (1942) influenciou profundamente a visão de alguns grupos estadunidenses sobre a cultura da caça de animais silvestres, o cuidado com a natureza e a preservação dos biomas. Na história, o protagonista, cujo pai é o cervo mais importante da região, precisa aprender a se defender dos caçadores, cuidar de seus amigos e encontrar um local seguro para todos.

Foto: Divulgação

No Brasil, o cinema também gerou mudanças e inspirou debates relevantes. Em 2015, por exemplo, o filme ‘Que Horas Ela Volta?’, protagonizado por Regina Casé, retratou os conflitos sociais e culturais decorrentes da melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. O longa expõe a visão preconceituosa, contraditória e até abusiva da classe média sobre o trabalho doméstico. No mesmo ano, a PEC das Domésticas, aprovada em 2013, foi regulamentada, concedendo a equiparação dos direitos das empregadas domésticas aos dos demais trabalhadores.

Regina Casé em cena do longa metragem de Anna Muylaert. Foto: Divulgação

Já ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’, de Hector Babenco, gerou forte reação à época de seu lançamento. As cenas que retratavam as condições de vida de crianças em situação de rua expostas ao abuso, à violência e à marginalização chocaram a sociedade brasileira. Entretanto, o filme contribuiu para fortalecer o debate sobre a necessidade de políticas públicas voltadas à proteção dos direitos de crianças e adolescentes em um país ainda sob regime ditatorial.

Foto: Divulgação

No Brasil ou em qualquer lugar do mundo, o cinema é uma expressão de arte capaz de influenciar o debate público e produzir mudanças significativas na percepção coletiva. A influência cinematográfica pode extrapolar os limites do entretenimento e, em mãos corretas, tornar-se uma ferramenta estratégica para o esclarecimento de fatos históricos. Ao assumir esse papel, obras como ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘Milk: A Voz da Igualdade’ podem manter a sociedade alerta contra as vozes nefastas e insistentes da opressão.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.