Blog FP – Uruguai: muito mais que um título futebolístico
Data: 19/03/2025 06:14:16
Fonte: futebolportenho.com.br
Para muita gente pode ter parecido exagerado o tamanho da comemoração dos uruguaios com a vitória na Copa América. Outros atribuíram o fato à alegria pelo “renascimento do futebol uruguaio”. É uma verdade parcial: para os orientais, mais do que o futebol, é um país que está renascendo.
Eduardo Galeano escreveu que os espetaculares triunfos da Celeste nos anos 1920 eram a prova definitiva de que o Uruguai não era um erro, mas uma Nação. O que mostra o tamanho da importância do futebol uruguaio para a identidade do país. Os orientais passaram os primeiros 100 anos de sua história tentando evitar a anexação por parte de Brasil ou Argentina, ou ao menos a transformação em um anexo de um dos dois gigantes entre os quais o minúsculo país está incrustado. Ser capaz de vencê-los no esporte mais democrático de todos sempre foi para os uruguaios uma prova de que o país merecia existir.
As grandes vitórias sobre brasileiros e argentinos, em especial aquelas em competições mundiais, eram essenciais. Em especial o Maracanazo, um momento mágico na história do país. A vitória de um grupo de jogadores sobre um estádio lotado, contra uma equipe da casa que já se sentia vencedora, tinha a vantagem do empate e ainda saiu na frente no placar, é uma metáfora perfeita de como os uruguaios se sentem enquanto povo. Para os orientais, o “sangue charrua” é o segredo que garante a sobrevivência dos uruguaios como país. A célebre frase de Obdúlio Varela nos vestiários antes daquela final (“los de afuera son de palo”, literalmente “os de fora são de pau”, ou seja, não têm o “sangue charrua”) é uma definição da auto-imagem uruguaia, e aquela vitória funcionou como comprovação definitiva de que o sonho oriental era uma realidade.
Mas a partir dos anos 1970 as coisas começaram a dar errado. Problemas políticos e econômicos acabaram com a antes confiante “Suíça da América Latina”. E o futebol declinou junto. Quando a Celeste chegou ao mundial da África do Sul, o cenário era devastador: 20 anos sem uma vitória em Copa do Mundo, 40 anos sem protagonismo em mundiais, 15 anos sem qualquer título e 22 anos sem chegar a uma final de Libertadores. Até as vitórias no âmbito regional haviam desaparecido. A auto-imagem uruguaia estava no chão.
Nos últimos 12 meses o milagre aconteceu. A Celeste venceu no Mundial, chegou às semifinais, as seleções de base seguiram a sequencia de bons resultados e o Peñarol voltou à uma decisão de Libertadores. O título da Copa América foi o fechamento de um ciclo. Há 10 dias eu estava na Plaza Independencia, no centro de Montevidéu, vendo milhares de uruguaios festejando a vitoria sobre a Argentina nos pênaltis. Claro que não era uma festa pela classificação às semifinais. Era uma nação inteira se reencontrando com ela mesma.
Ontem foi apenas a conclusão desse processo. Em uma Copa América em que todos os competidores mandaram suas seleções principais, a Celeste manteve viva a mística do sangue charrua. Segue sendo a única seleção a conseguir alijar a seleção argentina do torneio em sua própria casa. Para nós, pode ser o “renascimento do futebol uruguaio”, frase tão repetida nos últimos tempos. Para os orientais, é um país que volta a acreditar que não é apenas um erro, mas uma Nação.