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Como a neurociência e a educação quebraram todos os tabus sobre Matemática – e isso muda a sua vida

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Data: 02/04/2025 03:03:09

Fonte: estadao.com.br

A educação e a neurociência juntas implodiram a crença de que só algumas pessoas “têm jeito” para a Matemática. E de que a disciplina, tão temida por muitos, não é sobre memorização de fórmulas e, sim, sobre descoberta, pensamento lógico, criar hipóteses e encontrar o resultado da sua própria maneira. Só depois disso, quem sabe, decorar a tabuada.

Experiências no mundo todo têm olhado para essa educação matemática criativa, que sai do abstrato, se transforma na sala de aula e ganha sentido para alunos e professores. Mostram que ela está também na análise de dados e na avaliação crítica de informações, habilidades essenciais no mundo atual.

No Brasil, um movimento para novas políticas públicas na área ganhou força este ano, tentando melhorar os resultados desastrosos na disciplina. Só 5% dos alunos se formam no ensino médio sabendo o que seria considerado adequado para idade. Saem da escola sem saber fazer regra de três, não entendem proporções, não conseguem ler gráficos.

TQ COTIA 25.06.2024 METRÓPOLE ENSINO EDUCAÇÃO Aula de matemática no Colégio Sidarta, em Cotia. Pesquisas mostram que a matemática precisa ser aprendida sem memorização para ser melhorar o desempenho das crianças. Colégio tem proposta inovadora em relações aos ensinos mais tradicionais. Foto Tiago Queiroz/Estadão Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Pesquisas também já mostram as consequências do ensino pouco eficiente da disciplina na produtividade do País. Isso porque trabalhadores em ocupações que usam muito a Matemática têm maior nível de escolaridade e menor taxa de informalidade do que a média geral, o que leva a maiores salários, indica estudo da Fundação Itaú. E ainda, com mais inovação e tecnologia, a participação desses empregos no PIB poderia ser muito maior, se comparada ao que já ocorre em outros países.

Não investir em Matemática também aprofunda desigualdades; mulheres e estudantes pretas e pardas se saem pior em avaliações da disciplina e estão menos representadas entre os trabalhadores da área.

Mentalidades matemáticas

Apesar de muitas das reflexões sobre uma Matemática mais criativa virem desde os anos 1980, pouca coisa entrou de verdade nas escolas, principalmente na rede pública, onde estão 80% dos estudantes do País.

A ideia, no entanto, se fortaleceu nos últimos anos com as pesquisas que juntaram neurociência e educação, popularizadas pela professora da Universidade de Stanford, Jo Boaler, diretora do laboratório Youcubed. Boaler defende uma “revolução no ensino da matemática” e já conseguiu mudar currículos nos Estados Unidos.

Crianças montam figuras geométricas com cordões em aula de Matemática  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Ela mostra que o cérebro tem a plasticidade para aprender o que quiser e insiste que não há aqueles mais ou menos propensos para a Matemática. O problema é como a disciplina foi sempre apresentada nas escolas, com exigência de memorização, de presteza e sem a real compreensão do sentido dos cálculos, padrões, fórmulas ou formas geométricas.

A especialista empresta o conceito de mindset (ou mentalidade) de crescimento, da psicóloga e best-seller americana Carol Dweck. Suas pesquisas sustentam também que todas habilidades podem ser construídas no cérebro, a partir do esforço e da persistência.

Veio daí uma abordagem chamada de “mentalidades matemáticas”, numa tradução de “mathematical mindset”. No Brasil, o Instituto Sidarta passou a testá-la em alguns projetos nos últimos anos, já com resultados positivos na aprendizagem de crianças de escolas públicas e privadas.

“Muito mais do que resolver, acertar a resposta correta, eu olho para o problema”, diz a presidente do Sidarta, Ya Jen Chang. “Uma coisa é o professor falar: ‘me dá a resposta, pensa rápido, quanto é 20 mais 20?’ E outra é dizer: ‘tenho o número 40: de quantas formas posso chegar nele?’ Alguns vão usar multiplicação, outros divisão, soma.”

Uma atividade recomendada são as chamadas conversas numéricas, em que o professor coloca uma conta na lousa e pede a cada aluno resolvê-la de cabeça, com calma, e depois dizer sua estratégia. As discussões são voltadas para deixar claro que todas as formas são bem-vindas e corretas.

As aulas de matemática não são só para encontrar a resposta certa. Erros são valiosos

mensagem em cartaz na sala de aula em colégio paulista

Também são propostas para as crianças muitas atividades de decomposição dos números antes de ensinar a conta armada, que era o ponto de partida no passado. A intenção é que compreendam os processos, entendam centenas, dezenas e unidades. A ideia é sempre a de ajudar os alunos a levantar hipóteses para estimular o pensamento lógico e a descoberta, antes de receber a fórmula ou a tabuada, por exemplo.

Alunos do Colégio Sidarta, em Cotia, discutem problemas e soluções em aula  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

“Isso tudo vai mudando atitudes e acaba com a ideia de que alguém tem o dom para Matemática”, completa Ya Jen. No Colégio Sidarta, em Cotia, na Grande São Paulo, o Estadão acompanhou uma aula do 4º ano em que as crianças foram divididas em grupos e tinham de formar figuras geométricas com cordões, anotar suas observações, colaborar, discutir.

Foram juntas descobrindo o que era um pentágono ou um ângulo de 90º, construindo sozinhas as formas, com as mãos, ao observar o assoalho da sala ou o formato das mesas.

“Matemática é minha matéria favorita por causa dos desafios”, disse Gabriela Cunã, de 9 anos, em uma fala que reverberava entre os colegas.

“As aulas de Matemática não são só para encontrar a resposta certa. Erros são valiosos”, dizia um cartaz pendurado na sala. Jo Boaler também ajudou a disseminar evidências científicas de que o cérebro se desenvolve mais quando erra, por causa do esforço para acertar na próxima vez.

Crenças e ansiedade

A maior avaliação mundial de estudantes quis entender justamente como as atitudes importam na aprendizagem da disciplina e mediu a chamada “ansiedade matemática”. Os resultados do Pisa, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que os países com desempenho pior na área tinham índices maiores de alunos que se diziam nervosos, tensos ou desamparados diante de problemas matemáticos, como o Brasil.

“A ansiedade matemática está ligada com crenças que a criança desenvolve no processo de aprendizagem, como ‘não sei resolver problemas, não vale a pena, se eu não der a resposta certa de uma vez, não vou saber nunca mais’”, diz a diretora do Instituto Reúna e doutora em ensino da Matemática, Katia Smole. “Aí ela espera alguém responder na sala. Gera frustração, sentimento de fracasso.”

Com a Língua Portuguesa, afirma, acontece menos porque ela é falada no dia a dia, há um aprendizado não formal. “A Matemática você só aprende na escola.”

A questão cultural e das atitudes afetam ainda mais as meninas, pela ideia muitas vezes disseminada de que os homens são mais racionais e por isso se sairiam melhor na disciplina – o que não tem qualquer evidência na neurociência.

Contribuem para isso até as brincadeiras propostas para os dois gêneros na infância, tanto na escola quanto em casa. Meninas são mais estimuladas a brincar com boneca, enquanto para meninos são apresentados jogos de raciocínio e blocos de construção.

A questão cultural e das atitudes na Matemática afetam ainda mais as meninas que os meninos Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Quando pode decorar a tabuada?

Muita dessa ansiedade está também no próprio professor ou professora, que passaram pelo mesmo processo pessoalmente, pelas mesmas crenças, completa Katia. Em especial naqueles conhecidos como polivalentes, que dão aulas de todas as disciplinas para crianças da educação infantil ao 5º ano, e não tiveram formação voltada para a Matemática. Mas mesmo os licenciados na área muitas vezes dominam o conteúdo e não foram ensinados sobre como ensinar.

“A verdade é que dar uma aula focada na compreensão matemática é muito mais difícil do que passar uma lista de exercícios e mandar o aluno repetir”, diz o professor brasileiro em Stanford Fernando Carnauba, doutor em educação matemática.

Ele explica que alguns alunos podem até conseguir processar essa compreensão matemática sozinhos por meio da repetição, mas a maioria, não. “Por isso, a descoberta é importante. O estudante tem muito mais chance de lembrar quando fez o processo por ele mesmo, do que quando deram a fórmula para ele.”

Outro grande problemas é que a Matemática tem aprendizagem progressiva. Quem não aprendeu multiplicação não consegue aprender porcentagem. Sem a divisão, não se evolui para a equação.

Segundo Katia Smole, depois que os conceitos são entendidos, a fluência na Matemática pode ser importante. Nesse estágio, não há problema em decorar a tabuada, por exemplo, para “liberar o cérebro para coisas mais complexas, mas não com memorização sem sentido”.

A verdade é que dar uma aula focada na compreensão matemática é muito mais difícil do que passar uma lista de exercícios e mandar os alunos repetirem

Fernando Carnauba, professor em Stanford

Só 5% dos estudantes se formam no ensino médio sabendo o que seria considerado adequado para idade em Matemática no País Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Mesmo nas escolas particulares, resultado é ruim

Nos últimos anos, o Ministério da Educação (MEC) e organizações da sociedade civil passaram a focar seus esforços na alfabetização, com incentivos, prêmios, formações de professores, mas pouco na Matemática – que também é essencial desde a educação infantil.

A aprendizagem, que já era ruim, despencou depois da pandemia. E agora surge um olhar novo dos gestores.

Como revelou o Estadão, o MEC pretende lançar em breve um grande programa de educação matemática, que inclui formação de professores, metas para governadores e prefeitos de aprendizagem das crianças e incentivo para metodologias voltadas para um ensino mais criativo.

Há iniciativas também este ano para fortalecer o ensino da disciplina em Estados como Espírito Santo e cidades como São Paulo e Rio de Janeiro – a prefeitura carioca lançou seu programa neste mês e promete se tornar a “capital da matemática”.

Os últimos dados disponíveis mostram que 37% dos alunos do 5º ano no País sabem o adequado para a idade, que inclui dominar as quatro operações matemáticas. Quanto mais velhos, piores os resultados. Em Língua Portuguesa, esse índice também não é bom, mas chegava a 51% no Sistema Nacional de Avaliação Básica (Saeb), prova do MEC, de 2021.

O Brasil também aparece entre as últimas colocações em avaliações internacionais, como o Pisa. Mesmo a nota de alunos de escolas particulares brasileiras no Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS) não chega na média dos países participantes.

Mesmo em carreiras que não demandem algo específico, a gente precisa entender porcentagem, probabilidade, até para fazer uma leitura crítica de notícias, para analisar dados que circulam no nosso dia a dia

Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social

“A Matemática é importante para qualquer pessoa, mesmo em carreiras que não demandem algo específico, precisa entender porcentagem, probabilidade, até para fazer leitura crítica de notícias, analisar dados que circulam no nosso dia a dia”, afirma a superintendente do Itaú Social, Patricia Mota Guedes. A organização tem apoiado programas de Matemática nas redes públicas e criou um edital no fim de 2024 para premiar boas iniciativas.

Um dos professores contemplados criou um projeto em que os alunos constroem robôs e trabalham conceitos como perímetro e distância num pequeno povoado rural do Maranhão.

“Percebi os alunos perdendo o interesse e fazendo tudo mecanicamente quando chegam ao 6º ano”, conta Antonio de Souza Silva, que dá aulas em Luziana, a 300 quilômetros de São Luís. “Eu queria desmistificar a Matemática, mostrar que ela está em tudo do nosso dia a dia. Quando você faz isso, cria esse elo. E deixa de ser esse bicho de sete cabeças.”