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Quais os efeitos para o Brasil com o ‘Dia da Libertação’ tarifária dos EUA?

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Data: 02/04/2025 03:28:30

Fonte: estadao.com.br

O governo e empresários brasileiros aguardam os anúncios prometidos por Donald Trump para esta quarta-feira, 2 de abril, chamada pelo presidente americano de o “Dia da Libertação”, com tarifas “recíprocas” país por país. Antes da definição das medidas, a expectativa é sobre como elas podem afetar produtos brasileiros exportados aos EUA.

O item de maior impacto nas exportações brasileiras para o parceiro comercial envolve óleo bruto de petróleo, que representa 14,3% da pauta. Os EUA ainda respondem por 12,9% do total exportado pelo Brasil dessa produção.

Um setor que pode sofrer mais com o aumento de tarifas, no entanto, são os produtos semiacabados de ferro ou aço. Apesar de representar 8,8% da pauta completa para os EUA, 76,2% das exportações desses itens pelo Brasil vão para o território americano. No dia 12 de março, tarifa de 25% sobre a exportação de aço e alumínio brasileiros para o mercado americano entrou em vigor, segundo confirmou a Casa Branca.

Trump cultivou, entre os países e os segmentos, suspense sobre o tarifaço prometido para este 2 de abril Foto: Mark Schiefelbein/AP

A lista de produtos mais importantes exportados para os EUA é dominada por commodities (matérias-primas) e outros itens com preços cotados internacionalmente em bolsas de valores. As duas exceções entre os 10 mais vendidos pelo Brasil são aeronaves, na terceira posição, e equipamentos de engenharia e para construção, em oitavo.

Há uma pressão antiga dos EUA pela redução do imposto de importação aplicado pelo Brasil sobre o etanol americano, que é de 18%, para entrar no País, enquanto o governo americano aplica tarifa de 2,5% na importação do produto brasileiro, feito à base de cana-de-açúcar.

Trump considera o porcentual muito elevado, impedindo a entrada do produto americano, produzido à base de milho, no mercado nacional. O relatório anual do escritório de representação comercial dos Estados Unidos — United States Trade Representative (USTR), em inglês — sobre barreiras comerciais divulgado na segunda-feira, 31, reforçou a relevância que o etanol tem e terá nas negociações comerciais com o Brasil.

Apesar de considerar ser difícil fazer qualquer previsão sobre os anúncios de Trump, o presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, acredita que os impactos tendem a cair nos produtos manufaturados.

“As commodities brutas não devem sofrer sobretaxação, por que elas têm preços definidos pelo mercado importador e pelas bolsas, e não pelo Trump. Se taxar esses produtos, ele estará elevando os custos para os EUA”, afirma. “O meu princípio, por enquanto, é esse. Mas tudo ainda está muito indefinido e imprevisível, porque os números divulgados até agora para tarifas são muito loucos. São formados por impulso, não têm base técnica.”

Os manufaturados que se encontram também entre os 20 produtos mais exportados incluem máquinas de energia elétrica, motores a pistão, manufaturas de madeira e geradores elétricos giratórios.

Dois desses segmentos seriam fortemente impactados. Os EUA responderam por 59,9% de todas as exportações brasileiras, em 2024, das máquinas de energia elétrica. Em manufaturas de madeira, a dependência é ainda maior, 81% das vendas externas brasileiras foram para o mercado americano. “Se o Brasil ficar sujeito à reciprocidade no aumento de tarifas, saíremos do mercado de manufaturados, porque não temos preço competitivo”, diz Augusto.

Em 2024, os EUA foram o destino de 12% de todas as exportações brasileiras e origem de 15,5% das importações nacionais (US$ 40,7 bilhões). A corrente de comércio alcançou 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano passado.

Em um recorte temporal iniciado em 2014, dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) indicam que as importações brasileiras de produtos vindos dos Estados Unidos foram 11,85% superiores às exportações.

No relatório do USTR, de segunda-feira, 31, os EUA afirmam que o Brasil e uma série de outros países impõem numerosas barreiras e tarifas contra produtos americanos.

O relatório de 397 páginas afirma que o Brasil impõe tarifas relativamente altas sobre as importações em uma ampla gama de setores, incluindo automóveis, peças automotivas, tecnologia da informação e eletrônicos, produtos químicos, plásticos, maquinário industrial, aço, têxteis e vestuário.

“Embora o Brasil tenha tomado medidas para tornar seu mercado de compras mais transparente, as restrições e preferências domésticas permanecem”, declara o documento. Segundo o USTR, o país também exige que os contratos de aquisição, especialmente nos setores de saúde e defesa, contenham requisitos de compensação para fornecedores estrangeiros.

‘A certeza é de que o Brasil vai ser atingido’

Com previsão de ser anunciado na tarde desta quarta-feira, 2, o pacote de imposição de tarifas recíprocas às exportações de produtos diversos do Brasil para o mercado americano, a indústria nacional fabricante de máquinas e equipamentos está preocupada com impacto que poderá ter sobre o setor, disse ao Estadão José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

“Estamos numa tensa expectativa”, disse Velloso, lembrando que máquinas brasileiras estão entre os dez setores mais críticos do relatório do USTR. Segundo ele, não há como prever, neste momento, a dimensão das medidas que serão anunciadas por Trump. “A certeza é de que o Brasil vai ser atingido.”

O mercado americano, diz o presidente da Abimaq, é o mais importante cliente na exportação de máquinas: representa 26% dos US$ 14 bilhões despachados por ano. No ano passado, as vendas aos EUA corresponderam a US$ 3,7 bilhões, ante entrada de US$ 4,8 bilhões de máquinas americanas. Portanto, o Brasil tem um déficit de US$ 1,1 bilhão.

“O que fabricamos e exportamos para o mercado americano são produtos (máquinas) de alta tecnologia e de alto valor agregado. Os EUA são o nosso principal destino”, afirma o executivo da Abimaq, entidade que representa milhares de empresas no País.

Trump reclama que as tarifas aplicadas pelo Brasil para produtos americanos são superiores às dos EUA aos itens brasileiros. No caso de máquinas, admite Velloso, na média, de fato, são: 11,2%. As americanas variam de zero a 4%. Mas ele lembra que, para produtos sem similar nacional, o governo brasileiro adota tarifa zero, o que beneficia o exportador dos EUA. “É uma vantagem para eles, e são muitos casos.”

‘O que fabricamos e exportamos para o mercado americano são produtos (máquinas) de alta tecnologia e de alto valor agregado’, diz Velloso, presidente da Abimaq Foto: Antônio Araújo/Câmara dos Deputados

A indústria brasileira de máquinas e equipamentos já enfrenta, globalmente, um déficit relevante no comércio bilateral e, com essas medidas, tende a recrudescer, afirma o executivo. As importações no setor é mais que o dobro do que se exporta: atingem US$ 29,9 bilhões. “Importamos máquinas da China no valor de US$ 9,4 bilhões (31% do total) e exportamos apenas US$ 126 milhões. Quase nada”, comenta Velloso.

Segundo ele, com o atual nível de custos que a indústria de máquinas do País enfrenta, o setor está perdendo rapidamente participação de mercado no Brasil para os importados. “Os chineses cresceram 33,9% em 2024. Imagina a dificuldade que teremos de exportar com tarifas elevadas nos EUA”, diz.

Velloso diz que, entre os custos de maior peso na fabricação, está o preço do aço. “Em abril de 2024, o Brasil elevou para 25% as tarifas de importações dos principais tipos de aços utilizados na indústria de máquinas, os aços planos. Com isso, os preços desses tipos de aço subiram exageradamente. De maio a dezembro, os laminados a frio e a quente subiram entre 12% e 26%, tirando a competitividade da indústria”, afirma.

Ao mesmo tempo, diz o executivo diz, no ano passado as importações de máquinas da China tiveram alta de quase 34%. “Número espantoso, pois as importações da China crescem faz mais de 20 anos”. A elevação de preços dos aços planos, segundo afirma Velloso, tirou competitividade do setor.

“Devemos ter aumento de tarifa para exportar máquinas para os EUA, nosso maior destino de exportação, e, ao mesmo tempo, estamos comprando aço com preços 50% a 60% acima do que pagam nossos concorrentes lá de fora. Para a indústria nacional de máquinas seria o fim (elevação de tarifas)”, diz Velloso.

Para o CEO da Abimaq, indústria de máquinas é um das que mais investem em inovações e tecnologias e é difusora de tecnologias para outros setores. “É um setor estratégico em qualquer país desenvolvido, mas, infelizmente aqui, vem perdendo espaço continuamente devido à reprimarização da economia e à falta de prioridade quando se compara com commodities industriais.”

EUA têm superávit de US$ 8 bi em químicos

Na indústria química e petroquímica, informa a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), os exportadores americanos nada de braçada frente aos brasileiros. André Cordeiro, presidente da entidade, disse ao Estadão que o Brasil importa US$ 12 bilhões dos EUA. Envia para lá US$ 4 bilhões — um terço do valor.

“A relação entre os dois mercados é amplamente superavitária para os EUA”, afirma o executivo. Ele informa que o País importa por ano US$ 12 bilhões de produtos químicos americanos, de um total de US$ 13 bilhões que o Brasil traz da América do Norte.

Para Cordeiro, um movimento justo de comércio entre os dois países seriam negociações para equilibrar em US$ 12 bilhões entre exportação e importação, de cada lado. O executivo acredita que, pela complexidade da implementação das medidas — produto a produto —, isso deverá permitir uma rodada de negociações nos próximos meses.

Com exportações totais de US$ 15 bilhões para todo o mundo por ano, o setor químico brasileiro não abala os EUA, diz Cordeiro. “Carregamos um déficit de US$ 50 bilhões nas trocas anuais de comércio de produtos químicos/petroquímicos. Importamos US$ 65 bilhões.”

A indústria química, no País, vem operando com ociosidade de 36% na sua capacidade instalada, o que tem causado preocupações que foram levadas ao governo federal no ano passado e que o tarifaço do presidente americano pode agravar.