| Reduzir desemprego jovem requer engajamento
Data: 02/04/2025 03:06:01
Fonte: estadao.com.br
O Brasil enfrenta desafios significativos na educação e inserção dos jovens no mercado de trabalho. Dados do Censo da Educação Superior 2023, divulgados em outubro passado, mostram que um em cada cinco jovens de 18 a 24 anos não havia concluído o ensino médio nem frequentava a escola. Além disso, segundo uma análise do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre), a taxa de informalidade entre pessoas dessa faixa etária é altíssima: 41,7%, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C) no 1.º trimestre de 2024. Ou seja, quatro em cada dez jovens que estavam trabalhando no período o faziam de maneira precarizada, sem carteira assinada.
Diante desse contexto, a Educação Profissional Tecnológica (EPT), ainda pouco difundida no País, mostra-se, mais uma vez, uma modalidade capaz de apoiar a preparação dos estudantes para as exigências do mercado. Primeiro, por oferecer uma formação prática alinhada às necessidades das empresas, tornando-os aptos a ocuparem vagas que exigem mais complexidade e conhecimento técnico, que, por sua vez, oferecem melhores salários e possibilidades de avanço na carreira. Segundo porque, por ter um foco mais “mão na massa”, a educação profissional tende a gerar mais interesse dos jovens, além de prepará-los para a próxima fase de suas vidas, seja no mercado de trabalho, seja no ensino superior, para aqueles que assim desejarem.
A oferta de EPT, infelizmente, ainda é baixa no Brasil. Apesar do aumento de 12,1% no número de matrículas de 2022 a 2023, chegando a 2,4 milhões de estudantes, segundo o Censo Escolar, a modalidade ainda responde por apenas 10% do total de matrículas do ensino médio. Uma maneira de potencializar essa oferta é a partir da participação de mais empresas nesse processo. Isso porque um dos grandes gargalos é o governo conseguir ofertar cursos conectados com o mercado, que precisa tanto atrair professores especializados numa diversidade de temas como também ofertar laboratórios para as práticas equipados com itens de última geração.
Existem dezenas de iniciativas mundo afora que buscam equacionar esse desafio. Uma delas é alemã, com seu sistema dual. Nele, há uma combinação entre teoria e prática e ocorre tanto nas escolas profissionalizantes quanto nas empresas. Os aprendizes estudam na escola profissionalizante as bases técnicas, assim como matérias gerais, tais como alemão e matemática, e aproximadamente dois terços do tempo de formação é dedicado à prática na empresa. Ali, os aprendizes recebem todo o apoio dos formadores.
Para garantir bons resultados no modelo, empresas, escolas profissionalizantes e governo trabalham em conjunto, com atenção à qualidade da formação e à inserção dos jovens no mercado. Além disso, o governo alemão estabelece normas rígidas de formação e aplica provas que atestam e garantem a qualidade da formação.
Com isso, as empresas se beneficiam ao capacitar profissionais de acordo com suas necessidades, enquanto os jovens recebem uma formação sólida e remunerada pela empresa, que os prepara para uma carreira de sucesso, além de os conectar rapidamente ao mercado de trabalho.
O sistema pode servir de inspiração ao Brasil para desenvolver novas estratégias capazes de superar o desafio da inclusão produtiva dos jovens no mercado de trabalho. Mudar essa realidade exige um engajamento multissetorial, com participação de governo, empresariado e sociedade civil organizada de modo a garantir mais oportunidades à juventude brasileira.
Entre as metas do Plano Nacional de Educação de 2014 estava a de número 11, focada em triplicar as matrículas da educação profissional tecnológica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta e ao menos 50% da expansão no segmento público. No fim dos dez anos, o Brasil contabilizou avanços significativos na ampliação de vagas na rede pública, mas isso ainda não se refletiu na ampliação da empregabilidade de jovens.
Este ano, o Ministério da Educação (MEC), a sociedade civil, os Estados e União voltam a discutir as metas da Educação para os próximos dez anos e seria muito importante que o setor produtivo também fizesse parte desse processo, pois tem muito a contribuir.
Uma política de ensino técnico profissionalizante integrada com as empresas tem muito mais chances de cumprir o seu papel, que é, efetivamente, incluir a população no mercado de trabalho. O Brasil é um dos poucos países que ainda encaram sua juventude como problema, e não como potencial de crescimento e desenvolvimento.
Precisamos desta sinergia entre políticas públicas e setor privado para vencer o desafio do desemprego e da informalidade juvenil. Oferecer capacitação de qualidade para as novas gerações é apoiar o acesso desses jovens a melhores oportunidades, que ofereçam, de fato, uma trilha de crescimento profissional promissora a todos eles.
Promover a inserção produtiva do jovem brasileiro é um investimento necessário não apenas para suas trajetórias de vida isoladas, mas também para o avanço do País.