Entidades pregam cautela sobre resposta brasileira a tarifaço de Trump
Data: 3/4/2025 20:02:39
Fonte: jornaldocomercio.com
Apreensão e alívio resumem as primeiras impressões do mercado após os Estados Unidos anunciarem, nesta quarta-feira (2) a imposição de tarifas para importação de produtos de mais de 180 países. Ainda procurando digerir e avaliar os impactos da medida, representantes de diferentes segmentos defendem cautela por parte do governo brasileiro antes de adotar qualquer eventual retaliação.
Contemplado com a taxa mínima, de 10% sobre todos os produtos, o Brasil tem nos EUA um dos principais parceiros comerciais, embora o superávit seja americano. O Rio Grande do Sul tem tabaco, máquinas agrícolas, móveis, produtos de madeira, celulose, armas de fogo e calçados entre seus produtos mais exportados para a América.
A indústria calçadista brasileira, que tem nos Estados Unidos seu principal destino internacional, enxerga o “tarifaço” de Donald Trump como uma “janela de oportunidades”, mas também teme uma inundação de calçados daquele continente em mercados importantes para o Brasil e até mesmo no mercado doméstico nacional. O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, avalia que os EUA taxaram a China em mais 34%, o Vietnã em mais 46% e a Indonésia em mais 32% sobre os atuais 17,3%, aplicados também sobre o produto brasileiro.
“São tarifas muito mais elevadas do que as aplicadas para o Brasil, o que pode tornar o nosso calçado mais competitivo nos Estados Unidos. Por outro lado, além de a medida diminuir o consumo naquele país, também deve fazer com que os asiáticos busquem alternativas para desovar sua produção. E, entre essas alternativas, certamente teremos o próprio mercado brasileiro e países para onde exportamos nossos calçados”.
Já o presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), Valmor Thesing, diz que os impactos do pacote de tarifas recíprocas divulgado pelo governo americano estão sendo avaliados pela entidade para tentar entender como será a aplicação no caso do produto brasileiro.
“Os EUA importaram US$ 255 milhões em 2024 e figuram em terceiro lugar no ranking de 113 países que adquiriram o tabaco brasileiro no período”.
Olhando em uma perspectiva mais ampla, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) projeta que o cenário posto à mesa por Trump é muito maior que melhorar os resultados americanos nas balanças bilaterais comerciais pelo mundo. O objetivo seria ganhar terreno na comparação dos negócios internacionais com a China.
“A produção da indústria química americana é de US$ 680 bilhões, enquanto a chinesa é de US$ 2,7 trilhões. Essa disparidade não acontece apenas nesse segmento, mas no geral. A China tomou cresceu e ganhou mercados pelo mundo, de forma muito mais competitiva. E é nisso que os Estados Unidos querem interferir”, diz o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro.
Para ele, os EUA estão mais de olho em quanto os chineses faturam nos demais mercados do que em quanto cada mercado negocia com os Estados Unidos. O Brasil, por exemplo, importa US$ 20 bilhões em produtos químicos da Ásia, e US$ 12,7 bilhões dos EUA.
“Trump quer equilibrar as relações. Está dando um recado para cada um dos países com quem se relaciona, avisando que as tarifas podem ser ainda maiores se não houver mudanças no comércio com os asiáticos”.
Para o economista-chefe do Sistema Fiergs, Giovani Baggio, os sucessivos anúncios e recuos do presidente Donald Trump, desde o início de sua gestão, em 20 de janeiro, geram muita instabilidade no comércio global. E o tarifaço, aliado a outros movimentos adotados pela Casa Branca, aponta a ruptura da sistemática de regras comerciais estabelecidas desde a assinatura do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, em 1947, para promover o comércio global reduzindo tarifas e outras barreiras comerciais.
“É hora da diplomacia, de buscar conversar com a Câmara de Comércio americana e tentar contornar a situação. Ir para a disputa não é o melhor caminho. Ficou barato para o Brasil”, avalia.
Segundo ele, a taxação aplicada ao Brasil causa certo alívio, na comparação com outros, como o Japão (24%) e a União Europeia (20%), por exemplo.
“Por essa ótica, 10% é um índice positivo. Ainda mais tendo o presidente Trump citado o Brasil como um país que taxa muito, o que é verdade. O déficit comercial com os EUA ajudou muito para o cálculo das tarifas. O foco deles são países superavitários na relação comercial com os Estados Unidos”.
O economista projeta o surgimento de novas oportunidades a partir de agora, com países menos taxados procurando ocupar o lugar de outros nas exportações para a América, e também para o mundo. Mas cada segmento será atingido de forma diferente.
“Uma empresa com margem de lucro apertada pode ficar inviabilizada com uma tarifa de 10%. Teria de redirecionar seus produtos. Mas isso não é um processo rápido. O Brasil deveria agir com o tradicional pragmatismo, enquanto acontece essa grande reorganização do comércio global. Observar como outros países se posicionam para, então, definir seu novo espaço no tabuleiro mundial”, analisa Baggio.
A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) avalia que a sobretaxa imposta pelos EUA aos produtos de diversos países, incluindo os maiores competidores do setor, representa uma oportunidade estratégica para o Brasil, mas também impõe riscos para a indústria nacional. A Abinee acredita, porém, que o Brasil não deve entrar nessa guerra tarifária, mas se armar para enfrentar uma concorrência ainda maior no mercado interno, uma vez que países como China, Coreia do Sul e Vietnã deverão redirecionar suas exportações.
A Abinee enfatiza que a situação atual coloca o Brasil em um momento único para utilizar medidas de salvaguarda, a fim de proteger a indústria local, estimular a competitividade e, ao mesmo tempo, consolidar-se como um destino atrativo para investimentos produtivos. E defende que o Brasil adote uma postura proativa, explorando essas novas condições comerciais, para garantir não apenas a proteção de sua indústria, mas também o fortalecimento das suas relações comerciais no setor elétrico e eletrônico.
“Se não baixarmos o custo Brasil, nós vamos nadar e morrer na praia“, diz o presidente Humberto Barbato.
Para a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as medidas impostas pelo governo americano não impedirão o comércio de produtos brasileiros para aquele país. Conforme o presidente Ricardo Santin, no ano passado o Brasil vendeu 30 mil toneladas de carne suína para os EUA, com taxa zero. Lá também é o principal destino da tilápia exportada, para onde foram 11 mil toneladas, com um faturamento de US$ 50 milhões, também com tarifa zerada.
“Por outro lado, a China é um grande fornecedor de tilápia para os EUA, e foi taxada em 34%, o que encarece ainda mais a operação. Então, pode ocorrer esse desvio nas importações americanas da China para o Brasil, que ganharia em competitividade”, avalia.
O dirigente observa que é preciso acompanhar a reação dos demais países tarifados pelo governo de Donald Trump, com um possível rearranjo nos direcionamentos de produtos pelo mundo, inclusive com retaliações a produtos agrícolas americanos.
“Para o RS, que exporta, por exemplo, produtos derivados de ovos, especialmente ovos líquidos congelados e ovos em pó para os EUA, haverá o impacto dessa tarifa de 10%. Mas não quer dizer que deixará de haver comércio para lá. Afinal, os EUA estão importando por falta de oferta local de produtos. Vai ficar mais caro para o consumidor americano”.
O presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul (Sicadergs), Ladislau Böes, diz que o setor está, ainda, analisando os efeitos da medida anunciada pelos EUA, mas considera que todo o aumento de carga tributária é muito ruim, pois “quem paga a conta é o consumidor final” – no caso o americano.
“Atualmente, são cobrados 26,4% de tarifa para entrada de carne brasileira nos EUA, quando ultrapassadas 65 mil toneladas distribuída entre 10 países. Porém, normalmente, nos primeiros 30 dias do ano já se ultrapassa esta cota. Agora, pelo entendimento, terá mais 10% de tarifa, chegando a 36,4%”.
O Brasil exportou para aquele mercado 229,8 mil toneladas de carnes em 2024, equivalente a 8% do total, de 2,8 milhões de toneladas embarcadas para todo o mundo. Para o dirigente do Sicadergs, o volume é pouco representativo, assim como ocorre com os cortes gaúchos. Ainda assim, abrir mão do mercado americano é uma decisão que depende muito das negociações comerciais.
Diretor comercial da GAP Agropecuária, João Paulo Schneider da Silva, acredita que o tarifaço de Trump terá pouco reflexo sobre o setor, já que o grande destino das carnes brasileiras é a Ásia.
“Apenas 30% da produção de carnes vai para exportação. Nosso principal foco é o mercado doméstico. E a carne gaúcha gourmet é absorvida principalmente por grandes restaurantes do centro do País. O que devemos é buscar mais eficiência, para barganhar melhores preços aqui. Queremos abastecer também o RS, mas falta costela bovina gaúcha para tanta demanda local. O RS produz para abastecer São Paulo, mas boa parte da carne consumida aqui vem de Rondônia”.