Crônica — Lula, Bolsonaro, pesquisas e eleição 2026 na mesa do bar – Opiniões
Data: 07/06/2025 08:36:10
Fonte: opinioes.folha1.com.br

— E as novas pesquisas? O que achou? — indagou Roberto, já sentado à mesa do boteco, assim que Aníbal chegou.
— Tanto a AtlasIntel, divulgada na sexta da semana passada, quanto a Quaest, divulgada em duas partes, com avaliação de governo na quarta e a parte eleitoral na quinta, são muito ruins a Lula — respondeu Aníbal, assim que se sentou, antes de pedir o copo americano ao garçom e enchê-lo com a Spaten já pela metade na mesa, com seu vidro verde suado na camisinha térmica.
—Sim, foi muito ruim. Teve sua maior desaprovação popular nas séries históricas de 11 pesquisas da AtlasIntel, desde janeiro de 2024, e de 12 pesquisas Quaest, desde junho de 2023. A desaprovação do brasileiro ao Lula 3 chegou a 53,6% na AtlasIntel. E a 57% na Quaest.
— Isso na parte da aprovação de governo. E o reflexo eleitoral a par e passo. Na AtlasIntel, embora tenha liderado ao 1º turno nas consultas estimuladas, com a apresentação dos nomes dos candidatos ao eleitor, ficou atrás de Tarcísio e de Michelle nas simulações de 2º turno.
— Isso entre os possíveis adversários elegíveis da direita. Porque, se Bolsonaro pudesse ser candidato, hoje estaria à frente de Lula nos 1º e 2º turnos, segundo a AtlasIntel
— Exato. E a ameaça de derrota pareceu ainda maior na Quaest. No que ela mostrou e escondeu.
— Mostrou e escondeu?
— No que mostrou, Lula teria empate exato com Bolsonaro na projeção de 2º turno. E, embora numericamente à frente, não iria além do empate técnico, na margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, no 2º turno contra Tarcísio, Michelle, Ratinho Jr. e até Eduardo Leite, que recentemente trocou um decadente PSDB pelo PSD de Kassab e Eduardo Paes.
— Ok. Mas o que escondeu?
— Já viu pesquisa presidencial sem consulta estimulada ao 1º turno? Lógico que a Quaest também fez. Mas como assumiu na Globo, com muita competência do cientista político Felipe Nunes, CEO do instituto, o lugar que já foi da Datafolha e do falecido Ibope, que teve sobrevida natimorta em 2022 como Ipec, a Quaest não divulgou agora sua estimulada ao 1º turno de 2026 porque o resultado, muito provavelmente, foi ainda pior para Lula.
— Você acha mesmo?
— Acho mais. Que os institutos estão medindo a erosão que o deslumbramento inoportuno de Janja também está causando na popularidade de Lula. E que ela não deve ser menor que o escândalo do INSS ou a trapalhada de Haddad, logo o mais lúcido desse governo, com o IOF. Mas os números sobre Janja as pesquisas não divulgam.
— O escândalo do INSS, para mim, é o pior. Um governo que vinha conseguindo deixar para trás a lembrança do Mensalão e do Petrolão, que existiram, a despeito da seletividade política e da parcialidade escancarada de Moro que anularam a maior parte do segundo processo, agora se reconecta à corrupção com o roubo do dinheiro dos aposentados.
— Os desvios bilionários do INSS começaram em 2016, no governo Temer. E seguiram com Bolsonaro e Lula. Só que a culpa, aos olhos do povo, sempre cai sobre o governo de turno. Mas você está certo, isso estourar agora, tem sobre a conexão popular entre Lula e corrupção o mesmo efeito do copo de cerveja que você toma em jejum, após acordar de ressaca: o álcool novo reativa o do sangue no cérebro. Que se reconecta no ato ao porre da noite anterior.
— A advogada Tônia Galleti, ex-integrante do Conselho Nacional de Previdência Social, afirmou com todas as letras que alertou pessoalmente o hoje ex-ministro da Previdência, Carlos Lupi, sobre o problema dos descontos indevidos dos aposentados logo assim que o dono do PDT tomou posse da pasta. Isso foi em janeiro de 2023. E Lupi nada fez.
— Ver o PDT de Leonel Brizola nas mãos de alguém como Lupi é constatar o monstro de Frankenstein, montado com partes de corpos mortos do Centrão, que o trabalhismo getulista se tornou. E digo mais: ao não fazer nada e deixar o escândalo estourar só em 23 de abril de 2025, com a Operação Sem Desconto da Polícia Federal, o Lula 3 perdeu a mesma oportunidade que Bolsonaro desperdiçou com a pandemia da Covid em 2020.
— Como assim?
— Se Bolsonaro não tivesse sido aliado do vírus, ao pregar abertamente contra uso de máscaras, a favor da imunidade de rebanho e da cloroquina, com o apoio criminoso do Conselho Federal de Medicina…
— Além de se revelar o ser humano mais abjeto ao imitar pessoas morrendo sufocadas de Covid.
— Pois é. Se no lugar disso tudo, Bolsonaro tivesse sido um líder minimamente responsável na pandemia em 2020, não precisaria de golpe de Estado Tabajara para se manter no poder em 2023. Seria pelo voto, talvez até em turno único. Como Lula, se tivesse denunciado e combatido com rigor a corrupção no INSS logo assim que assumiu o governo em 2023. Se agisse ali com firmeza, pavimentaria a estrada de tijolos amarelos de Oz à reeleição em 2026.
— Sim, mas Lula não fez e o resultado está aí, nas pesquisas. Além da perda de 1 milhão de seguidores em suas redes sociais nos últimos seis meses.
— A perda de apoio a Lula no Instagram e Facebook foi levantada pela consultoria Ativaweb. Que, como as pesquisas AtlasIntel e Quaest, apontou dois dos motivos: INSS e IOF. Mas também colocou o óbvio: as falas indevidas de Janja.
— Isso foi medido com critério estatístico?
— Em 14 de maio, dia seguinte a Janja desrespeitar o protocolo diplomático para criticar o Tik Tok com o presidente da China, Xi Jinping, 60% das menções ao fato foram negativas nas redes sociais brasileiras. A Ativaweb mostrou o que as pesquisas devem até levantar, mas omitem.
— A verdade nunca é machista ou misógina. Em números sem gênero, é só a verdade. Mas e aí, acha o quadro atual reversível até outubro de 2026?
— Impossível, não é. Só que, hoje, a pouco mais de 1 ano e 3 meses da urna, parece pipa embicada na queda. Mas as pesquisas, sobretudo a Quaest, mais detalhada nesse corte, mostram que a melhor chance de reeleição de Lula seria enfrentar um Bolsonaro no 2º turno. Seria uma batalha de rejeições enormes de lado a lado, como foi em 2022.
— Que foi definida por apenas 1,8 ponto dos votos válidos, a menor diferença final numa eleição presidencial desde que o 2º turno foi adotado no Brasil, a partir de 1989.
— Todas pesquisas apontam que o antipetismo é muito maior que o bolsonarismo. Um entre cada quatro eleitores que votou em Lula no 2º turno de 2022, hoje não o faria. Como dois entre cada três brasileiros não quer que ele se candidate à reeleição. Para além dos antolhos dos dogmas de fé da esquerda, essa é a largura medida da frustração com o Lula 3.
— Como mais de um entre cada três brasileiros não quer Bolsonaro candidato.
— Pois é. Antes tarde do que nunca, o eleitor tomou juízo — ressalvou Aníbal em riso de alívio.
— Mas mesmo se preso por tentativa de golpe de Estado, tendo em Moraes um juiz tão parcial quanto Moro, Bolsonaro ainda será um cabo eleitoral de peso em 2026.
— Bolsonaro, se insistir na bravata de ser candidato só para colocar outro Bolsonaro como cabeça de chapa na reta final de 2026, repetirá Lula em 2018. Quando, mesmo preso, colocou Haddad no 2º turno e tirou Ciro, que todas as pesquisas apontavam ser o único capaz de bater o capitão. A verdade é que Lula e Bolsonaro são sombra de mangueira: nada cresce ao redor.
— Deu no que deu. E está dando! — concluiu Roberto, na desesperança de quem foi encher o copo de cerveja, constatou que só saía espuma da garrafa vazia, encoberta pela camisinha, e não avistou o garçom para pedir outra.
Publicado hoje na Folha da Manhã.