Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Privatização Eneva, fundada por Eike Batista, e a exploração de gás na Amazônia, um laboratório de tragédias anunciadas

Acessar notícia original

Data: 22/10/2025 11:41:06

Fonte: Por trás da redução de emissões em relação às termelétricas à diesel, a
instalação de de usinas de geração de energia termoelétrica na Amazônia
trás consigo uma enorme destruição de ecossistemas e das condições de vida
dos povos que habitam a região.


A Eneva, gigante do setor de energia, consolidou-se como pioneira na adoção do modelo Reservoir-to-Wire (R2W) no Brasil. A estratégia consiste na instalação de usinas termelétricas diretamente nos campos de produção de gás e elimina a necessidade de gasodutos de longa distância e promete ganhos operacionais com redução de custos.

Privatização é devastação

A operação foi iniciada em 2017 com a privatização de um campo – inativo – da Petrobrás e segue se ampliando em 2025, sob o governo Lula. O discurso oficial é de eficiência energética e redução de emissões, através da integração de Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN). A substituição das usinas a diesel pela energia gerada nos campos da Eneva foi apresentada como solução ambiental, com promessa de reduzir em 35% as emissões de CO₂. Por trás da redução de emissões em relação às termelétricas à diesel, a instalação de de usinas de geração de energia termoelétrica na Amazônia trás consigo uma enorme destruição de ecossistemas e das condições de vida dos povos que habitam a região.

Para além do Campo do Azulão, a Eneva expandiu agressivamente a compra de reservas fosseis na Amazonia. A empresa adquiriu blocos exploratórios adjacentes, como o AM-T-62, AM-T-84 e AM-T-85, e arrematou o Campo de Juruá na Bacia do Solimões. Como resultado dessa expansão, a empresa mais do que dobrou suas reservas de gás certificadas (2P) na Bacia do Amazonas em um curto período, passando de 7,1 bilhões de metros cúbicos para 14,8 bilhões de metros cúbicos em 2022. Adicionalmente, certificou pela primeira vez reservas de óleo na ordem de 4,7 milhões de barris. Esta contínua aquisição de ativos, financiada por grandes instituições financeiras como Itaú, Bradesco e BTG Pactual , coloca a Eneva como a responsável por 72% da área de exploração fóssil em terra na região amazônica.

A falácia do capitalismo verde: a destruição da floresta e os ataques aos povos indígenas

Os povos indígenas Mura, Munduruku e Sateré-Mawé, situados ao redor do Complexo Azulão, denunciam a destruição abrupta das suas condições de vida. Os moradores afirmam que souberam do projeto apenas quando as obras já estavam em andamento, notando clarões noturnos e explosões vindas da mata. O impacto imediato já foi enorme: peixes desapareceram dos igarapés e animais de caça, como pacas e cotias, fugiram aterrorizados pelo barulho incessante das máquinas e pelo tráfego pesado nas estradas abertas pela empresa.

Esse desequilíbrio na fauna, junto com o inevitável desmatamento provocado por uma operação de extração de gás e geração de energia dessa magnitude trazem, tem levado predadores, como as onças, a se aproximarem das aldeias em busca de comida. Há também denúncias de contaminação da água, colocando em risco a saúde de todos que dependem dos poços artesianos para o consumo diário. As denúncias levaram inclusive a justiça a suspender as operações da Eneva em maio deste ano.

A ilusão do crescimento do PIB: pobreza e repressão

A promessa de desenvolvimento, com aumento do emprego e do PIB, também mostra a sua face predatória nas regiões tocadas pela Eneva. Junto com os baixos salários, a riqueza do subsolo transforma as regiões de exploração e coloca os povos indígenas e quilombolas da região como base de exploração para o crime organizado, não raras vezes associado aos agentes do Estado, da lei e da ordem. O próprio Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) instaurou um inquérito civil para investigar a responsabilidade social da Eneva no acentuado aumento da criminalidade nos municípios de Silves e Itapiranga.

Quem se atreve a enfrentar a expansão predatória da Eneva sofre intimidações e ameaças de morte. Como denunciaram os Mura, que ousaram se levantar contra a exploração de gás que ameaça a floresta. Esse ano ainda, depois de voltar a operação, os trabalhadores da Eneva entraram em greve, exigindo melhores salários e denunciando as condições de trabalho. Para os que esperam que a exploração de gás e petróleo as condições de trabalho na Eneva, onde os trabalhadores denunciaram os mais selvagens abusos, como restrição de acesso a internet, restrição de acesso do sindicato, condições insalubres nos alojamentos e denúncias de que eles se parecem com “prisões”.

Apesar da sua importância, dos lucros e do rastro de destruição deixados pela operação da Eneva, essa seria uma pequena mostra de laboratório do que a exploração na foz do Rio Amazonas trará para a região. As riquezas vão para nas mãos dos acionistas na Bovespa, em Nova York e nos bolsos dos banqueiros, enquanto, a miséria, e exploração extrema, a repressão, e a destruição da floresta e dos biomas delicados da costa é o legado que fica para todos os povos da região e para as futuras gerações. É preciso se levantar, tomar as ruas, exigir das centrais que se mobilizem e convoquem atos e paralisações antes que seja tarde demais para a floresta e os povos que vivem dela.