Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Não sou louca’: como mulheres enfrentam até 20 anos de dor pélvica devido a preconceito

Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 07/03/2026 04:07:44

🔗 Ler matéria original

Em agosto de 2025, a pesquisadora canadense Larissa Strath, 35, acordou chorando de uma cirurgia nos Estados Unidos. Ainda sob efeito da anestesia, ela recebeu dos médicos a confirmação de que a dor que sentiu por 19 anos era sintoma da endometriose, uma das principais causas da dor pélvica feminina. A confirmação definitiva costuma ocorrer durante cirurgia.

“Eu não lembro, porque estava anestesiada, mas meu noivo falou: ‘Você ficou repetindo que não era louca. Foi tão triste que comecei a chorar’”, conta Larissa.

Pouco tempo depois, a milhares de quilômetros de distância, a analista de mídia Michelle Sales, 41, chorou em um consultório médico em São Paulo. Ela ouviu do ginecologista que teria de passar por uma cirurgia devido à suspeita de endometriose.

Michelle já tinha removido o útero após o diagnóstico de adenomiose, mas continuava sentindo a dor que a atormentava havia 24 anos. Seu antigo médico lhe disse que se tratava de dor psicológica e receitou antidepressivos.

“Quando o médico falou ‘você tem endometriose’, imediatamente respondi ‘então não estou louca’”, conta Michelle. Ela passou por uma cirurgia de sete horas de duração, na qual removeu o apêndice e um tumor na parede do útero e precisou reconstituir o ureter (tubo que transporta urina dos rins para a bexiga).

Tanto a endometriose quanto a adenomiose são doenças que causam dor pélvica e têm difícil diagnóstico. Doença inflamatória pélvica, miomas e síndrome do intestino irritável são outras condições que causam dor intensa.

A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres no planeta, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). No Brasil, a estimativa é que 7 milhões de pessoas tenham a doença.

Mulheres e pesquisadores entrevistados pela Folha relatam que tabus relacionados à dor pélvica feminina, viés de gênero de profissionais de saúde e falta de estudos sobre o tema levam pacientes a enfrentarem uma vida de sofrimento e descrédito, ouvindo que é normal sentir dor.

“Você fica se sentindo uma extraterrestre”, diz Michelle, que perdeu dois empregos devido às dores incapacitantes que sentia. “Pensa: ‘não é possível todo mundo viver uma vida normal e eu aqui só no ciclo da dor’.”

Ela conta que a dor que sentiu dos 17 aos 41 anos prejudicou sua vida social e profissional, sua autoestima e até a relação com os filhos. “Eu era sempre a pessoa com dor.”

O ciclo da dor desacreditada

Larissa conta que menstruou pela primeira vez quando tinha por volta de 12 anos. “Estava deitada no chão pensando ‘meu deus, tanta dor’. E me lembrei de ter aprendido que sentimos cólicas durante o período menstrual, então pensei: ‘acho que é isso mesmo’.”

Ela então perguntou à mãe —que mais tarde também recebeu o diagnóstico de endometriose— e ouviu que a dor era normal. Elas chegaram a conversar com as avós, que relataram a mesma cólica, mas a resposta era apenas: “Aguenta firme. É o que é”.

“Essa parte da história fala sobre o lado intergeracional da desvalorização da dor até pelas pacientes. Se é tão normal em uma família, então todo mundo pensa ‘é só a vida’”, diz a pesquisadora da IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor, na sigla em inglês) e professora assistente do curso de medicina da Universidade da Flórida.

O ginecologista Ricardo Quintairos, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), afirma que esse é o primeiro entrave do diagnóstico da dor pélvica. “Até parece que é um fato para consolidar a condição de mulher. E isso não é verdade, a mulher não precisa sentir dor”, diz Quintairos.

Larissa conta que, em determinado momento, quando a dor ficou mais forte, chegou a desmaiar no meio de uma aula. Começou a perguntar para os médicos da família se isso era normal, e diferentes profissionais respondiam que “menstruação é ruim”.

Anos depois, a mãe dela, Carolyn, descobriu miomas e removeu o útero. Só dez anos mais tarde um novo médico revisou os exames e deu o diagnóstico de endometriose para a mãe.

Todas

Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

Com 23 anos a essa altura, e sabendo que tinha os mesmos sintomas, Larissa começou uma peregrinação por consultórios médicos para contar a história da mãe e a sua própria em busca de um diagnóstico de endometriose. Ainda assim, ouvia que se tratava de uma dor normal da menstruação.

“Eles não sabem [identificar a doença]”, diz Larissa, que hoje pesquisa dor pélvica na IASP. Ela avalia que essas falham ocorrem porque durante anos a formação em medicina e a própria sociedade ignoraram completamente a dor das mulheres.

Quintairos afirma que este é o segundo entrave —não adianta a mulher reconhecer que sua dor não é normal se ela não é ouvida no consultório médico. De acordo com o ginecologista, o terceiro e o quarto gargalos são a falta de pesquisas e, no Brasil, a deficiência dos serviços de saúde pública.

A professora de idiomas Lílian Matos, 33, conta que começou a sentir em 2016 uma dor pélvica estranha. E ouviu de diferentes médicos do SUS (Sistema Único de Saúde) em Extrema (MG) que a dor era um efeito colateral do DIU que havia colocado anos antes.

Lílian pesquisou o tema e entendeu que provavelmente sua dor seria ignorada, e então insistiu. Foi diagnosticada com um mioma de 300 gramas que já tinha 600 gramas quando foi operado em 2025.

Para Larissa, superar a demora no diagnóstico das dores pélvicas passa por “entender por que os médicos têm esse viés em relação às mulheres”. Além disso, afirma que é necessário falar mais sobre isso, dar visibilidade ao tema.

“Estou aqui nos EUA, sou bem educada, trabalho em ciência da dor, sou branca, deveria ter todas essas coisas a meu favor, e ainda assim esperei um diagnóstico por 19 anos”, diz. “E as mulheres que têm interseccionalidade? Nos EUA, mulheres negras têm taxas muito mais altas de endometriose e de desvalorização da dor, se comparadas às brancas.” Especialistas afirmam que o mesmo acontece no Brasil.

Quando acordou da cirurgia, em agosto do ano passado, Larissa diz que ficou aliviada com o diagnóstico, mas também revoltada por não ter sido ouvida durante anos. “Isso me motivou ainda mais a continuar pesquisando, porque eu pensava: ‘Bem, ninguém vai fazer isso, mas eu vou fazer’.”