A mando do Comando Vermelho, mulher marca motel e atrai jovem para morte em Fortaleza
Fonte: diariodonordeste.verdesmares.com.br | Data: 07/03/2026 08:09:59
Três homens suspeitos de serem integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) são réus na Justiça do Ceará pela morte de um jovem de 20 anos, que era integrante da facção rival Guardiões do Estado (GDE), atualmente ligada ao Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo as investigações, João Rennan Lima dos Santos, conhecido como “Puro Amor”, foi vítima de uma emboscada ao ser atraído para o local de execução, após uma mulher marcar um falso encontro íntimo em um motel no dia 14 de agosto de 2025, no bairro Vila Manoel Sátiro, em Fortaleza.
De acordo com documentos aos quais o Diário do Nordeste obteve acesso, o homicídio teria sido uma vingança contra a morte de uma mulher chamada Grazielly, ligada ao CV. “Puro Amor” era apontado como um dos executores do crime, como descreve a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), enviada à Justiça no último mês de dezembro. O processo está na fase da instrução criminal, onde são ouvidas acusação e defesa, e ainda será decidido se os acusados vão a júri popular.
A mulher acusada de ter atraído Rennan para ser morto é Ludmila Sampaio Santos. Ela foi presa no dia 6 de janeiro deste ano, e teve um pedido de prisão domiciliar negado no último dia 27 de fevereiro, a movimentação mais recente do processo. Há indícios, de acordo com a investigação, que Ludmila é integrante do CV por conta de postagens nas redes sociais e deslocamentos a áreas dominadas pela organização, como a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro
Um dos motivos que levou a Polícia Civil a solicitar a prisão preventiva da mulher foi o fato de ela ter sido classificada como “judas” pela facção GDE, por atrair Rennan à morte. A facção ainda fez uma “homenagem” aos atos criminosos cometidos por Rennan em vida, e mostrou o vídeo de sua execução.
De acordo com a defesa de Ludmila, representada pelo advogado Paulo Quezado, a defesa aguarda a produção de provas e o fim da instrução criminal
Ludmila é ré no processo com os dois homens apontados como executores do crime: Francisco Roberty Souza Galeno e Antônio Cristian Monteiro de Oliveira.
‘Soldados’ do CV executaram crime
Roberty é classificado pela acusação como “soldado” do CV, por envolvimento em múltiplos homicídios conectados à disputa territorial do CV com a GDE nas adjacências da Vila Manoel Satiro. Segundo os documentos obtidos pela reportagem, ele foi preso em novembro de 2025, antes da denúncia criminal ser ofertada pelo MPCE, devido a um mandado de prisão por outro homicídio.
A defesa de Francisco Roberty não foi localizada pela reportagem. O espaço segue aberto.
Antônio Cristian, também integra o CV e, conforme as investigações, é reconhecido pela inteligência policial e por testemunhas como participante de disputas armadas na região onde ocorreu a morte de “Puro Amor”. A reportagem apurou que ele foi identificado durante as investigações, mas não foi localizado, apesar de a Justiça ter ordenado a prisão preventiva dele.
Em nota de esclarecimento, a defesa de Cristian afirmou que a acusação se baseia em “interpretações que não encontram suporte em provas materiais robustas e inquestionáveis” A advogada Catharine de Marilac, alegou que as informações citadas pelo MPCE na denúncia são “insuficientes e inconclusivas”, e disse que será demonstrado durante a instrução que ele não possui ligação com o crime.
“A defesa confia que o Poder Judiciário analisará o caso com a imparcialidade e o rigor técnico necessários. Estamos trabalhando ativamente para demonstrar a verdade dos fatos e garantir que nenhuma injustiça seja cometida contra o Sr. Antônio Cristian”, diz nota.
As participações dos suspeitos de serem os executores foram apontadas pelos investigadores por imagens do dia do crime e por uma testemunha sigilosa, a qual afirmou que a dupla vinha fazendo ameaças contra a vítima.
O trio responde na 6ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza pelos crimes de homicídio qualificado, motivado por vingança no contexto de disputa de facções rivais e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima; e organização criminosa, pois as investigações apontaram que os réus são integrantes do CV.
Conforme o MPCE, “o crime de homicídio foi realizado dentro do contexto de atuação de organização criminal, que utiliza os assassinatos como meio de reafirmar o poder de mando nas comunidades em que atua. No caso, o homicídio se deu como retaliação de integrantes de uma facção rival”.
Jovem foi atraído para o local do crime
Segundo a investigação da Polícia Civil, Ludmila fez uso de uma técnica conhecida no meio criminoso como “cheiro do queijo”, empregada quando uma pessoa atrai outra para um local onde ela será executada. Ela marcou data, local e horário, e pediu que Rennan não se atrasasse.
Conversas entre a vítima e a mulher no Instagram, obtidas pelo Diário do Nordeste, revelam que ela o convidou para sair e, de acordo com o inquérito policial, depois eles iriam para um motel.

Legenda:
João Rennan, vulgo ‘Puro Amor’, foi vítima de uma emboscada de rivais de facção.
Foto:
Reprodução/Inquérito Policial.
Câmeras de segurança mostraram que “Puro Amor” cumpriu o combinado com Ludmila. Minutos após chegar ao local marcado, os executores apareceram e efetuaram diversos disparos de arma de fogo contra a vítima.
Segundo a investigação, a participação de Ludmila é reforçada, pois ela se afastou da vítima e fugiu na direção contrária, “sem demonstrar reação de pavor ou surpresa”.
O fato de o crime ter ocorrido no bairro Vila Manoel Sátiro, palco de disputas territoriais entre o CV e o TCP, teria inflamado o homicídio, segundo a denúncia do MPCE.
‘Restou devidamente evidenciado que todos os denunciados atuaram em concurso de pessoas, de forma conjunta, com unidade de desígnios e divisão de tarefas, concorrendo direta, consciente e voluntariamente para o resultado morte, seja deliberando acerca da eliminação da vítima, seja efetuando os disparos de arma de fogo, seja ainda prestando auxílio indispensável à consumação do delito, conforme demonstram os elementos probatórios constantes dos autos”, pontuou o MP do Ceará, em documento obtido pela reportagem.
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