Autonomia para novas narrativas
Fonte: jc.uol.com.br | Data: 07/03/2026 20:34:02
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A escrita já foi comparada a um refúgio, mas também pode ser gesto de afirmação da identidade, da diferença, a fim de contar o que se viveu ou projetar o sonho de uma vida por vir. Nos últimos anos, o Brasil viu surgir muitas escritoras, como parte de uma reconfiguração cultural e de mercado, onde as mulheres conseguem se atribuir vez e voz.
“O avanço das mulheres na escrita não é só quantitativo, com mais mulheres publicando”, diz a editora e escritora Dani Costa Russo. “Mas político e simbólico: mulheres deixando de ser objeto de narrativa para se tornarem autoras da própria história”.
Como a própria Dani, que coordena o selo Auroras, da Litteralux, exclusivamente voltado à publicação de obras de mulheres. Na entrevista a seguir, ela cita os principais avanços e problemas para escritoras no mercado editorial. E reafirma a dificuldade diante da responsabilidade com a família, na reprodução de um modelo machista. “Somos sobrecarregadas com trabalho doméstico, cuidado com filhos e/ou familiares, e isso impacta diretamente a produção literária. Preciso dizer que a violência do homem é um dos principais impeditivos para a intelectualidade e a arte da mulher”, ressalta.
Quais os principais avanços, nos últimos anos, para a mulher que deseja escrever e publicar?
Dani Costa Russo – Nos últimos dez anos houve avanços muito importantes, apesar de distantes do que almejamos. Primeiro, um aumento real da presença de mulheres escrevendo, publicando e sendo lidas. Hoje vemos mais autoras nas listas de prêmios, nos catálogos das grandes editoras e também nas pequenas editoras independentes. O feminismo foi o propulsor, com certeza; nos fortalecemos em redes entre mulheres escritoras nos coletivos, clubes de leitura, oficinas de escrita, selos editoriais dedicados a autoras. Nesses espaços, encontramos troca, incentivo e formação literária.
A internet ajuda?
Dani Costa Russo – Sim, as novas tecnologias ampliaram as possibilidades de publicação. Muitas mulheres começaram publicando em blogs, redes sociais ou como independentes, se beneficiando da melhoria das gráficas, bom dizer, e depois chegando ao mercado editorial. Eu sou uma delas. Se hoje estou no circuito dos livros, foi partindo do total anonimato como escritora que aprendeu a editar para ver o próprio livro de estreia acontecer. As redes sociais vieram como grande viabilizador de divulgação, dando vitrine a quem, antes, só poderia contar com canais altamente restritos, portanto, impossíveis: a academia e a imprensa.
Qual o maior avanço?
Dani Costa Russo – Talvez o avanço mais profundo seja simbólico: cada vez mais mulheres entendem que suas experiências são matéria legítima de literatura. A bibliodiversidade deixou de ser sonho, passou a ser o que nós finalmente evocamos e materializamos.
E os principais obstáculos que se mantêm?
Dani Costa Russo – Os obstáculos continuam os mesmos. Nós mulheres é que agitamos e mudamos o cenário, nos inserindo no mercado editorial. No entanto, permanecemos enfrentando a desigualdade de acesso ao tempo e às condições materiais para escrever. Somos sobrecarregadas com trabalho doméstico, cuidado com filhos e/ou familiares, e isso impacta diretamente a produção literária. Preciso dizer que a violência do homem é um dos principais impeditivos para a intelectualidade e a arte da mulher. Outro obstáculo é o filtro do reconhecimento. Mesmo quando escrevem e publicam, as mulheres ainda enfrentam mais dificuldade para serem levadas a sério pela crítica ou para ocupar espaços centrais no campo literário. Também existe um preconceito persistente contra temas associados ao universo feminino, como se nossas experiências e visões de mundo fossem menos universais.
Como afastar os obstáculos do caminho?
Dani Costa Russo – A maneira de enfrentar isso passa por coletividade, em redes de apoio entre escritoras, políticas editoriais mais conscientes e também pela insistência em publicar, circular e ocupar espaços.
O mercado editorial brasileiro está mais receptivo às mulheres?
Dani Costa Russo – Eu diria que o mercado editorial está mais atento à produção de mulheres, mas ainda estamos bem longe de superar a desigualdade de gênero nas publicações. Existe hoje uma maior consciência sobre a importância de publicar autoras, inclusive por pressão das próprias leitoras e de movimentos feministas dentro do campo literário. Muitas editoras passaram a rever seus catálogos e a ampliar a presença feminina. Por outro lado, ainda há velhos problemas nos boicotando. Por exemplo, nos espaços de consagração, como nas premiações, na crítica literária, e também na forma como certos livros são divulgados pelas editoras, privilegiando os de homens com mais investimentos.
O que precisa mudar no mercado editorial?
Dani Costa Russo – O que precisa mudar é uma visão mais profunda sobre diversidade de vozes. Não se trata apenas de publicar mais mulheres, mas de publicar mulheres diferentes entre si, com experiências sociais, raciais e territoriais diversas.
Como editora de um selo para escritoras, você tem visão privilegiada do que se escreve. O que você vê sendo escrito e publicado?
Dani Costa Russo – O que vejo é uma literatura muito atravessada pela experiência concreta da vida. Muitos textos trabalham memória, corpo, violência, maternidade, trabalho e deslocamento social. Há também uma presença muito forte da escrita de si, mas não no sentido narcisista. Pelo contrário, muitas autoras usam a própria experiência como forma de falar de estruturas maiores — família, cidade, classe social, desigualdade.
Outro aspecto interessante é a diversidade de formas. Não é só romance ou poesia. Aparecem textos híbridos, entre ensaio, memória, crônica.
E como esse material reflete a realidade brasileira?
Dani Costa Russo – De certa forma, essa produção revela um país que nem sempre esteve presente na literatura oficial, o do cotidiano das mulheres, suas estratégias de sobrevivência, seus desejos e suas contradições. De tudo, vou dizer o que mais me deixa no chão quando leio originais: a violência de gênero, a violência que atinge a mulher tem vindo na literatura como um registro histórico. Somos marcadas por muita violência e ela está sendo contada nos livros. As gerações dessa nossa época estão deixando escritos que explicam como estão nos atacando e como batalhamos para viver.

Mulheres na APL
Encontro marcante na Academia Pernambucana de Letras, no sábado, 7, reuniu escritoras, editoras, livreiras e coordenadoras de clubes de leitura, para celebrar o Dia da Mulher e debater a presença das mulheres no mercado editorial. Estiveram presentes, entre outras: Cida Pedrosa, Clarice Freire, Conceição Rodrigues, Karine Asth, Larissa Garrido, Patrícia Vasconcellos, Bel Aquino, Mirian Carrilho, Kelly Acioli, Bruna Brasileiro e Carla Macedo. Ao final, houve sorteio de livros e sessão de autógrafos. A organização foi da acadêmica Flávia Suassuna, com a presença da presidente da APL, Margarida Cantarelli.
Revolução Pernambucana
A Academia Pernambucana de Letras recebe, nesta segunda, 9, conferência de George Cabral sobre a Revolução de 1817 em Pernambuco. O acadêmico da APL irá abordar o contexto histórico do movimento, as interpretações ao longo do tempo e a importância de ideias que continuam presentes na cultura estadual. A partir das 3 da tarde, com entrada gratuita, na sede da entidade, no Recife.
Cantos da Terra
De autoria de Alexandre de Sousa e Daniel Kondo, o livro ilustrado “Cantos da Terra” está em exposição na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, até o próximo dia 13. A mostra reúne livros infantis de diferentes países que abordam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. Segundo Alexandre de Sousa, a mensagem transmitida através da poesia é um diferencial do livro: “Em vez de conceitos abstratos, falamos da água que se bebe, da árvore que se planta e do lugar onde se vive”. A publicação é da Studio Plural.
Prêmio Sesc em turnê
Vencedores do Prêmio Sesc de Literatura de 2025, Marcus Groza, Leonardo Piana e Abáz começam a percorrer o Brasil, na turnê de divulgação das obras, que segue até novembro e deve passar por 20 cidades. O primeiro encontro será na terça, 10, no Polo Sociocultural Sesc Paraty, no Rio de Janeiro, com a presença de Leonardo Piana, vencedor na categoria Poesia. Para Leonardo Minervini, gerente de Cultura do Departamento Nacional do Sesc, o circuito “proporciona aos autores a possibilidade de estar ao lado dos leitores, ouvir suas opiniões e compartilhar o processo de construção de suas obras”.
Brasil em Londres
A Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) levam oito editoras para a Feira do Livro de Londres, desta terça, 10, a quinta, 12. Integram a comitiva do projeto Brazilian Publishers a Mágico de Oz, BIBLIEX – Biblioteca do Exército, Clube de Autores, Faro Editorial, UNICAMP Press, PopStories, Ciranda Cultural e Renata Tavares. “Estar em Londres é fundamental para entender as tendências do mercado e apresentar a qualidade técnica e criativa das nossas editoras”, diz Rayanna Pereira, coordenadora do Brazilian Publishers.
Mundos de papel
Em parceria com a Lote 42, o Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, abriu no sábado, 7, a feira de publicações independentes com oficinas literárias e gráficas “Mundos de papel”. Voltado para crianças de 8 a 12 anos, o evento tem o objetivo de explorar o universo do livro para além da leitura. O evento acontece nos sábados e domingos, até 29 de março.
O menino que desenhava as sombras
A Record traz para o Brasil o primeiro livro da italiana Oriana Ramunno, em romance que retrata a capacidade de resistência perante o nazismo. A história é inspirada no tio-avô da autora, sobrevivente de um campo de concentração. Em “O menino que desenhava as sombras”, com tradução de Aline Leal, o leitor pode encontrar “uma reflexão sobre as consequências do silêncio em meio à barbárie”, segundo a divulgação.
Sobre o amor
A polarização não se diferencia de um beco sem saída, se o ódio em cada um dos polos conduzir as pessoas que se acham tão diferentes ao mesmo tipo de intolerância e violência. Para quem acredita que não há saída para a mudança coletiva, o lançamento da Thomas Nelson Brasil é um convite à reflexão. “Sobre o amor” reúne sermões de Martin Luther King Jr., com prefácio de Jacira Monteiro.

É massa!
A Cepe lançou, no último sábado, o livro de Frederico Spencer, com ilustrações feitas a partir de modelagem assinadas pelo estúdio de animação Produções Ordinária. O evento foi no Museu do Estado de Pernambuco. O modo como as crianças encaram o mundo foi a inspiração do autor de “É massa!”, para quem “literatura não é só entretenimento, mas também uma ação social”, e por isso “repousa nas mãos das crianças, através do hábito da leitura, a chave para as grandes mudanças que o nosso velho mundo precisa”.