Safra de trigo em São Paulo deve ter queda de área em 2026 diante de preços pressionados no mercado global Produtores avaliam custos elevados, atraso na colheita da soja e maior concorrência de outras culturas de inverno
Fonte: portaldoagronegocio.com.br | Data: 09/03/2026 17:54:05
O cultivo de trigo no estado de São Paulo deve registrar redução de área na safra de 2026, refletindo um cenário de preços internacionais pressionados e custos elevados de produção. O tema foi debatido durante a primeira reunião do ano da Câmara Setorial do Trigo paulista, realizada no dia 5 de março, que reuniu representantes do setor produtivo, cooperativas e especialistas do mercado.
O encontro ocorreu de forma híbrida na sede da Cooperativa Agroindustrial de Capão Bonito (CACB) e teve como objetivo discutir o planejamento das lavouras de inverno e avaliar as perspectivas do mercado para os produtores do estado.
Mercado global pressiona preços e reduz estímulo ao plantio
A expectativa de retração na área plantada está diretamente ligada ao cenário internacional do trigo, marcado por oferta elevada e preços mais baixos. Para o novo presidente da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, Ruy Zanardi, o momento exige cautela por parte dos produtores.
Segundo ele, apesar das dificuldades, o trigo continua sendo uma alternativa relevante para o inverno. A cultura apresenta boa liquidez no mercado paulista devido à demanda da indústria de moagem e também contribui agronomicamente para melhorar o desempenho de culturas como a soja no sistema de rotação.
Ainda assim, o ambiente de preços internacionais mais baixos tende a reduzir o entusiasmo para ampliar as áreas cultivadas no estado.
Cooperativas apontam retração de área e desafios financeiros
Relatos apresentados por cooperativas durante a reunião indicam que o custo de produção, aliado aos riscos climáticos e ao calendário agrícola, tem influenciado diretamente as decisões dos produtores.
Na Capal Cooperativa Agroindustrial, por exemplo, a estimativa é de queda de cerca de 20% na área cultivada com trigo em comparação ao ciclo anterior. De acordo com o coordenador técnico Airton Rodrigues, muitos produtores demonstram preocupação com a viabilidade econômica da cultura.
Já na Cooperativa Castrolanda, a área destinada ao trigo também deve diminuir, passando de 5.700 hectares para cerca de 4.590 hectares. O consultor agrícola Jeandro Oliveira explicou que o atraso na colheita da soja comprometeu o planejamento das culturas de inverno, além de impactar a situação financeira de muitos produtores.
Por outro lado, a Cooperativa Holambra prevê maior estabilidade e estima manter aproximadamente 25 mil hectares de trigo, mesma área registrada em 2025. Entretanto, a cevada surge como uma alternativa crescente, podendo ampliar a área de 2 mil para 5 mil hectares neste ano.
Na Cooperativa Agrícola de Capão Bonito, a expectativa é de manutenção da área plantada em cerca de 4 mil hectares, mesmo após o atraso de aproximadamente 30 dias no ciclo da soja. Segundo o engenheiro agrônomo Nelio Uemura, muitos produtores optaram por investir no milho safrinha tardio em vez de migrar para o trigo.
Custos de produção e cenário geopolítico preocupam setor
Outro ponto destacado durante o encontro foi o impacto de fatores internacionais sobre os custos de produção. A empresa Ourosafra alertou que tensões geopolíticas têm pressionado insumos importantes, como fertilizantes nitrogenados e combustíveis.
Esse cenário tende a elevar os custos operacionais do produtor, reduzindo a margem de rentabilidade da cultura e aumentando a cautela nas decisões de plantio.
Trigo argentino amplia competitividade no mercado global
A análise de mercado apresentada pelo analista Jonathan Pinheiro, da StoneX, destacou que o mercado mundial vive um momento de oferta elevada.
Segundo ele, a Argentina tem registrado produções robustas e estoques confortáveis, o que mantém o trigo argentino altamente competitivo no comércio internacional.
O país sul-americano tem ampliado sua presença em mercados tradicionais da Ásia, como Indonésia, Vietnã e Bangladesh, além de conquistar novos destinos, como a China.
Com oferta abundante, o especialista avalia que é difícil esperar uma alta significativa nos preços do trigo no Brasil no curto prazo, fator que acaba reduzindo o incentivo para expansão da área plantada.
Problemas logísticos globais também influenciam mercado
O conflito no Oriente Médio também foi citado como fator de atenção, especialmente pelos impactos logísticos no comércio internacional.
A redução no fluxo de navios pelo Mar Vermelho — superior a 50% — tem levado embarcações a utilizarem rotas mais longas pelo Cabo da Boa Esperança. Essa mudança aumentou em cerca de 200% o uso desse trajeto, elevando custos de transporte e tempo de entrega para exportadores da Europa e da região do Mar Negro.
Esse novo cenário logístico acaba favorecendo o trigo argentino, que possui rotas mais competitivas para abastecer o mercado brasileiro.
Mudança na presidência da Câmara Setorial do Trigo
A reunião também marcou o encerramento do terceiro mandato de Nelson Montagna na presidência da Câmara Setorial do Trigo paulista.
Durante sua gestão, a produção estadual registrou crescimento significativo, passando de 90 mil toneladas para cerca de 500 mil toneladas em 12 anos, com destaque para a safra recorde de 2022.
O vice-presidente da Câmara Setorial, José Reinaldo Oliveira, classificou o cenário atual como um momento de grande incerteza para os produtores.
Segundo ele, quando há uma safra cheia com boa produtividade e qualidade, os preços tendem a se estabilizar ou cair, o que reduz a rentabilidade do produtor.
Pesquisa e inovação seguem como apoio ao produtor
Durante o encontro, pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) apresentaram avanços em pesquisas voltadas ao trigo, reforçando que o suporte tecnológico ao produtor continua evoluindo no estado.
A programação também incluiu apresentações do Projeto Be8 – transformando grãos em energia e alimento, além de palestras de empresas do setor de sementes e biotecnologia.
Outro destaque foi a mudança na coordenação das Câmaras Setoriais da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, com a saída de José Carlos Junior e a chegada de Fabiana Ferreira da Costa Gouvea, que assumiu a função reforçando o compromisso de diálogo com o setor triticultor.
Perspectivas para o trigo paulista
Apesar das incertezas de mercado, especialistas avaliam que o trigo continuará sendo uma cultura importante no sistema produtivo paulista, especialmente pelo papel agronômico na rotação de culturas e pela demanda da indústria moageira.
Entretanto, o tamanho da área plantada em 2026 deverá depender principalmente da evolução dos preços internacionais, dos custos de produção e das condições climáticas durante a janela de plantio.