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Dos que ergueram a República e a sede d’A Voz do Operário – A Voz do Operário

Fonte: vozoperario.pt | Data: 09/03/2026 20:29:27

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Chamava-se Porfírio Augusto. E foi um dos principais responsáveis pela construção da monumental sede d’A Voz do Operário, inaugurada no final de 1922.

Preso político sob o regime da monarquia “liberal”, foi também um precursor da revolução republicana, de Outubro de 1910.

Trabalhador na indústria de tabaco, ainda participou na resistência sindical face à ditadura militar, pouco antes de falecer, em 1929.

Transmontano

Porfírio Augusto nasceu a 22 de Abril de 1859, numa aldeia de Trás-os-Montes: Ervedosa, no concelho de Vinhais.

Numa perspetiva de história regional, é de notar que ele foi um dos transmontanos que salientaram no antigo movimento sindical português. Ao lado de figuras como Bento Gonçalves (que foi secretário-geral do sindicato do Arsenal da Marinha) e António Teixeira Danton (inicialmente dirigente ferroviário e depois do sindicato da função pública).

Fortunas do tabaco

Além de ter sido presidente d’A Voz do Operário, Porfírio Augusto liderou também o sindicato do chamado “pessoal extraordinário” da indústria tabaqueira em Lisboa. O nome oficial era «Associação de Classe do Pessoal dos Tabacos, admitido depois de 15 de Maio de 1890».

Foi um sindicato legalizado já sob o regime da 1ª República, em 1911. E que acabaria dissolvido pela ditadura de Salazar, no final de 1933.

Tradicionalmente, a indústria do tabaco era um exclusivo do estado, mas frequentemente arrendado a empresas privadas. No seu estudo sobre “Negócios e Política: os tabacos (1800-1890)”, Maria Filomena Mónica concluiu que esta indústria constituía “um dos mais seguros meios de acumular fortuna em Portugal” [Análise Social, 1992, p.462]. Mas os trabalhadores que produziam essa fortuna não beneficiavam dela. Chegaram mesmo a ser dos mais miseráveis e sobre-explorados…

Depois de ter sido nacionalizado, em 1888, a troco de chorudas indemnizações, o monopólio do tabaco foi novamente entregue a privados, em 1890. E dessa vez com um contrato de concessão especialmente longo. Duraria até 1906, sendo então renovado por 20 anos.

A negociata com o final desse contrato terá sido, aliás, uma das causas do golpe que instaurou a ditadura militar, em 1926…

Sindicalista

A entrega do setor a privados, em 1890, foi acompanhada por uma discriminação dos trabalhadores contratados a partir dessa data. E foi esta situação que Porfírio Augusto enfrentou. Ele que também era casado com uma operária tabaqueira.

Mas a sua ação como sindicalista não se fechou numa lógica corporativa, limitada apenas ao seu setor profissional.

Em janeiro de 1911 ocorreu a primeira grande greve de ferroviários em Portugal.

Nas vésperas do acontecimento, Porfírio Augusto discursou num comício de apoio à luta desses trabalhadores. Na altura pela redução do horário de trabalho para 8 horas diárias.

Teve lugar na cooperativa Caixa Económica Operária. E Porfírio Augusto falou do novo regime republicano. Disse que devia “terminar com as injustiças do capital contra o trabalho”. Criticou “os poderes públicos” que “atendem os capitalistas […], fazendo-lhes concessões vantajosas e negam às classes trabalhadoras melhorias”.

Afirmou que “o povo operário foi o verdadeiro implantador da República, e que será ainda ele amanhã, no caso de perigo, quem pegará nas armas para a defender”. Mas alvitrou ser “necessário que o governo tome em consideração as justas reclamações das classes trabalhadoras”… [DN, 09/01/1911, p.3].

Republicano

Na diversidade ideológica do antigo movimento sindical, Porfírio Augusto exemplifica a importância do republicanismo.

Em 1906, foi um dos fundadores do Centro Escolar Republicano Fernão Botto Machado, então sediado numa zona de população operária: a rua do Vale de Santo António. E foi depois o seu primeiro presidente da direção.

Uma nota biográfica, da época, descreveu-o como um “republicano histórico”, que figura “desde há trinta anos no números dos […] correligionários mais dedicados”, a quem o Partido Republicano Português deve “serviços muito assinalados”.

E contou que tendo ele ido residir para a freguesia de Santa Engrácia (hoje englobada na freguesia de S. Vicente), “onde o partido estava desorganizado”, Porfírio Augusto, ali soube “conciliar vontades e reunir homens de valor […], mercê da sua inteligência, servida por uma vontade sadia”. E ali “se levantou o partido à altura de poder oferecer luta às hostes monárquicas, que naquela freguesia dispõem de caciques cuja influência se julgava invulnerável” [Vanguarda, 08/05/1907, p.1].

Preso político

A mesma nota biográfica enalteceu a sua ação no Grémio Lusitano (afeto à maçonaria), n’A Voz do Operário, em sindicatos e associações mutualistas. Afirmando que “em todos os redutos associativos se encontra Porfírio Augusto propugnando pela liberdade, pela fraternidade e pelas melhores reivindicações das classes trabalhadoras” [ibidem].

Ainda sob a monarquia “liberal”, Porfírio Augusto foi preso político, sob a acusação de pertencer a um movimento revolucionário, clandestino e armado – a Carbonária.

Esse movimento teria, efetivamente, um papel central na revolução que implantou a República, em 5 de Outubro de 1910…