Caso Master não tem lado, mas é ruim para a esquerda
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 09/03/2026 20:47:07
Daniel Vorcaro não ligava muito para ideologia na hora de comprar apoio. Seus aliados no Congresso eram mais do centrão e da direita, mas não faltam parcerias à esquerda. O escritório de Ricardo Lewandowski, já ministro do governo Lula, tinha contrato de R$ 5 milhões com o Banco Master. O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega também prestou consultoria e apresentou Vorcaro a Lula. O CredCesta, cartão de benefícios consignados operado pelo Banco Master, foi originalmente comprado de uma estatal sob o governo petista da Bahia.
Os dois grandes nomes do jogo político, no entanto, parecem alheios ao caso. Lula teve uma reunião com Vorcaro, assim como tem com tantos outros empresários; e aparentemente nada saiu dela. Bolsonaro, por sua vez, fez post em 2024 surfando na onda de indignação contra o Banco Master: defendeu os servidores da Caixa que perderam seus cargos depois de barrarem operação com o banco, o que lhe rendeu o xingamento de “beócio” por parte de Vorcaro.
A esquerda poderia, aliás, tomar a investigação como sua. A infiltração no Banco Central se deu na gestão Roberto Campos Neto, e foram trocados na gestão Galípolo, que também liquidou o banco. Ademais, é a Polícia Federal no governo Lula que tem levado adiante a investigação.
E, no entanto, nas redes e na imprensa, o que mais se vê são vozes de esquerda vociferando contra a investigação e para deslegitimar a imprensa: Revista Fórum, Brasil 247 e até nomes como o diretor Kleber Mendonça Filho. A acusação de “lava-jatista” volta a ser lançada contra qualquer um que queira investigar possíveis corruptos.
O que muda esse quadro são as suspeitas contra o Supremo. Moraes se tornou herói absoluto da esquerda brasileira ao protagonizar o inquérito e julgamento da trama golpista. Foi o algoz de Bolsonaro. E o Supremo é visto, com alguma razão, como sócio do governo Lula. Tudo o que enfraquece o Supremo fortalece o bolsonarismo. Assim, o caso Master é bom para Flávio. E só deixará de sê-lo se o núcleo bolsonarista entrar na mira.
As fake news se espalham nas bolhas da esquerda. Primeiro foi dito que nem sequer existia contrato entre Viviane Barci de Moraes e o Banco Master. Na segunda-feira, ela detalhou o contrato. Ou seja, existia. Agora circula forte o boato de que o Alexandre nas mensagens de Vorcaro não seria o ministro do Supremo.
Democracia não casa bem com heróis. Não há contradição nenhuma em um juiz ter uma atuação exemplar num caso (não estou dizendo que teve) e ser culpado de corrupção em outro contexto (não estou dizendo que é). É justamente pelo fato de que toda autoridade pode se corromper que temos divisão de Poderes, um limitando o outro. E não é à toa que, conforme o Supremo se protege, cresce —por parte do povo e do Senado— o desejo pelo impeachment de ministro, o que também fortalece a oposição.
A postura do Supremo, de blindar os seus e de publicar notas explicativas que só enrolam e desencaminham, piora as suspeitas. Os tempos não são propícios para quem aposta contra a transparência. “Lava-jatismo” só é insulto em contextos minoritários. Ser contra o combate à corrupção — recado dos senadores petistas, que até agora não assinaram a CPI de Moraes e Toffoli— para proteger um aliado alimenta ainda mais a desconfiança popular. A conta é paga nas urnas.
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