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Entrar no mercado, crescer e permanecer: a luta constante das mulheres no audiovisual – TELA VIVA News

Fonte: telaviva.com.br | Data: 09/03/2026 21:25:08

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(Foto: Gemini IA)

O Dia das Mulheres, celebrado em 8 de março, é muito mais do que uma data comemorativa; é um momento de reflexão histórica e luta contínua por igualdade, segurança e respeito. No audiovisual, as mulheres ainda enfrentam grandes desafios – na frente das câmeras, seguem sendo retratadas a partir de estereótipos e, muitas vezes, sem ocupar o protagonismo de suas próprias histórias; atrás delas, ainda são minoria em cargos de liderança criativa, sofrem com a disparidade salarial, não são devidamente creditadas por seus trabalhos e precisam provar seu valor, além de lutar contra episódios de assédio constantes, entre tantos outros problemas.

Renata Di Carmo (Foto: Adri Lima)

Ao longo dos anos, o cenário melhorou – e isso é algo para celebrarmos. Hoje, há mais mulheres em cargos de liderança, diretoras sendo reconhecidas e premiadas em grandes festivais e histórias autorais ganhando espaço nestes eventos e na distribuição também. “Isso mostra que há mais visibilidade para vozes que antes eram marginalizadas mas, ao mesmo tempo, há resistência, a situação não está equilibrada. O crescimento é real, porém desigual”, reflete Renata Di Carmo, roteirista, diretora, atriz, produtora e cineasta, em entrevista exclusiva para TELA VIVA. Ela pontua que, em muitos casos, ainda vemos mulheres concentradas em certos gêneros ou formatos e não exatamente uma presença constante e equiparada em grandes e diferenciadas produções de mercado; diferenças significativas de orçamento entre projetos liderados por mulheres e por homens; barreiras persistentes para que mulheres tenham acesso aos mesmos ciclos de financiamento, distribuição e circulação internacional; invisibilidade em áreas como direção de fotografia, som, efeitos visuais e montagem; além dos inúmeros relatos de desrespeito às hierarquias femininas e tentativas de descredibilização das profissionais.

“Ou seja, o cenário melhorou, sim, e isso é resultado da nossa luta, de políticas públicas, de redes de apoio, coletivos e pessoas que abriram caminhos pagando um alto preço. Porém, ainda há bastante o que fazer. O objetivo não é apenas aumentar números, mas transformar estruturas: como decisões de financiamento são tomadas, como olhares críticos e mercados valorizam e sustentam trajetórias femininas diversas e como as narrativas produzidas no audiovisual refletem diversidade real e não apenas simbólica. Já conseguimos questionar a ausência das mulheres com mais força, já temos referências importantes e, aos poucos, construímos uma cena mais plural. Falta consolidar esses avanços de forma que não sejam exceções, mas parte natural do ecossistema audiovisual não apenas no Brasil, mas no mundo”, ressalta.

Anahí Borges, roteirista, produtora e diretora (de “É tempo de amoras”, em cartaz nos cinemas), concorda que ainda há muito para avançar, especialmente fora da liderança criativa. “Diretora de fotografia, maquinaria, elétrica e direção de produção, entre outras, são posições pouco ocupadas por mulheres. E mesmo na direção, ainda que tenhamos muito mais diretoras hoje em dia, com filmes premiados, seus filmes não disputam de igual para igual com filmes realizados por homens. O Oscar, por exemplo, tem apenas uma mulher como representante em dez indicações. É muito pouco”, destaca.

Thaís Olivier (Foto: Divulgação)

Thaís Olivier, escritora, roteirista e presidente da ABRA (Associação Brasileira de Autores Roteiristas), entende que é necessário questionar para quem esse cenário efetivamente melhorou e o porquê. “Nos Estados Unidos, o número de filmes dirigidos por mulheres vem caindo ano após ano, e isso pode ser um reflexo do recuo em políticas de inclusão. O que nos leva à frase da Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. No Brasil, o último relatório da Agência Nacional do Cinema que analisa a diversidade de gênero e raça nos filmes brasileiros é referente ao ano de 2016. Mas estudos como os do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa mostram que, em 2022, nenhuma mulher dirigiu um filme de grande bilheteria”, pontua. Para ela, apesar do trabalho de curadoria dos festivais em preservar a diversidade de gênero, ainda estamos longe de um cenário equilibrado no que diz respeito à produção de filmes, ao acesso a grandes orçamentos e à participação no market share. E a situação piora quando avaliamos sob outros recortes, como raça e idade, por exemplo.

O etarismo no setor

Anita Barbosa (Foto: Divulgação)

Para as mulheres mais velhas, o cenário tende a ser mais desafiador. No último mapeamento da ABRA, conforme citou Thaís, quase 89% das mulheres acima de 65 anos tiveram faturamento de até R$ 20 mil com roteiro, ou nenhum faturamento, nos últimos 12 meses. “O etarismo existe, e ele incide de maneira diferente sobre homens e mulheres. Homens maduros são frequentemente associados à experiência e autoridade. Mulheres maduras, muitas vezes, precisam reafirmar constantemente sua relevância”, resume Anita Barbosa, cineasta com mais de 20 anos de carreira e uma trajetória construída nos bastidores do audiovisual brasileiro. Começou como assistente de direção nos dois primeiros filmes de “Se eu fosse você” e agora assume a direção de “Se eu fosse você 3”, consolidando um caminho que une experiência e continuidade dentro da própria franquia.

“O audiovisual, de forma geral, combina vieses estruturais, então quando machismo e etarismo se cruzam, o impacto é maior. O cinema historicamente valorizou narrativas centradas em homens e, quando coloca mulheres em foco, muitas vezes privilegia juventude e determinados padrões estéticos”, observa Renata. “E o etarismo não atinge só quem está diante das câmeras. Em áreas como direção, roteiro, produção e cargos executivos, mulheres mais velhas também enfrentam resistência, especialmente quando não têm acesso às mesmas redes de contato e financiamento ao longo da carreira. A indústria tende a renovar rostos femininos constantemente, enquanto homens mantêm centralidade criativa e prestígio ao longo de muitas décadas. A entrada de novas profissionais no mercado é de suma importância, mas a permanência é fundamental, até para que através do exercício continuo nos tornemos melhores. A indústria ainda associa inovação e potência criativa à juventude, o que é um equívoco. Maturidade amplia repertório e potência criativa, a experiência fortalece o olhar artístico e o acúmulo de vivências agrega ao trabalho. Quanto mais diversidade etária tivermos contando histórias, ocupando espaços de decisão, mais plural o audiovisual se torna”, afirma.

A falta de reconhecimento e créditos

Anahí Borges (Foto: Lucas Lakuda)

Para além de enfrentarem problemas para conseguir trabalhar, as mulheres também precisam lutar para serem devidamente creditadas nos projetos em que atuaram. Segundo dados da ONU Mulheres, 39% das mulheres se sentem insatisfeitas com os créditos que recebem nos filmes. Anahí conta que já teve a experiência de ter seu nome com um crédito de menor importância em relação à atividade que de fato havia realizado no filme. “Fiquei muito chateada, porque me senti explorada e não reconhecida. O reconhecimento por meio dos créditos é uma questão sensível para as mulheres porque ainda estamos lutando por espaços”, explica. No seu novo filme, “É tempo de amoras”, a cineasta encabeçou uma equipe majoritariamente feminina, com a maioria dos cargos de chefia de departamentos sendo ocupada por mulheres. “Porém, ainda é muito comum vermos homens em cargos de liderança e angariando os créditos mais importantes”, salienta.

Já Anita relembra que, ao longo de sua carreira, viveu momentos distintos em relação aos créditos. “Comecei como assistente de direção e, como muitas mulheres, precisei construir uma trajetória longa até ocupar um espaço de assinatura criativa. O reconhecimento nem sempre vem na mesma velocidade da entrega – isso é algo que muitas mulheres vivenciam”, avalia. “Os créditos parecem um detalhe, mas eles são muito importantes porque contam a história da sua carreira – são eles que mostram o que você fez, que tipo de projeto assinou, qual foi o seu lugar ali. Então quando esse reconhecimento não vem de forma justa, isso acaba impactando não só simbolicamente, mas também nas oportunidades futuras”.

A experiência com créditos costuma ser desigual, de acordo com Renata, que acredita que a maioria das mulheres já passou por situações em que seu trabalho foi subestimado, creditado de forma secundária ou invisibilizado, e isso em diferentes funções, mas especialmente em áreas historicamente dominadas por homens. “Esta é uma questão sensível, pois reconhecimento profissional é um capital simbólico importante, e que se torna material, claro. No audiovisual, crédito não é apenas vaidade, diz respeito ao currículo, acesso a novas oportunidades, reputação, progressão na carreira e recursos”, enfatiza. Essa desigualdade estrutural faz com que mulheres, mesmo ao ocuparem as mesmas funções, frequentemente enfrentem menos visibilidade, menor destaque e menos indicações a prêmios, ou mesmo quando isso ocorre, sejam prontamente atacadas. “Mulheres, em diversos setores, ainda precisam provar repetidamente sua competência, e o crédito formal é uma das maneiras mais concretas de validação profissional”, conclui.

Trazendo dados da ABRA, Thaís relata que mulheres cis, trans e travestis têm 23% mais chance de ter seus créditos omitidos ou usados de forma errada do que um homem cis. “Crédito está diretamente atrelado à remuneração, então também significa poder e reconhecimento. E, claro, numa sociedade como a nossa, as mulheres acabam sentindo essa insatisfação na pele com muito mais frequência do que eles. Tirar de nós o direito à autoria das nossas próprias obras é uma violência”, declara.

E esse reconhecimento é ainda mais desafiador fora dos cargos de direção criativa. “Quando falamos de direção ou roteiro, existe uma visibilidade maior, uma autoria mais facilmente identificável, mas em áreas como produção executiva, direção de arte, montagem, fotografia, figurino, som ou pós-produção, apenas para citar alguns exemplos, o trabalho é muitas vezes percebido como ‘de apoio’, mesmo sendo absolutamente decisivo para o resultado final e impacte de forma determinante a obra. Esse trabalho fica diluído, mas eu só posso formular a partir de uma perspectiva interseccional das opressões. Portanto, a invisibilização persegue mulheres mesmo em cargos de direção criativa, dentro de um histórico de constante apropriação e desigualdade, que se naturalizou, mas não pode se normatizar continuamente. Nas diversas áreas em que atuamos, garantir reconhecimento justo é fundamental, não apenas para valorizar o trabalho individual, mas para transformar a cultura da indústria como um todo”, avalia Renata.

Endossando essa visão, Anita reflete que direção ainda é um cargo de maior visibilidade pública – embora também seja desafiador e, a pressão, enorme. “Mas penso muito nas roteiristas, montadoras, produtoras, diretoras de arte e técnicas – áreas onde o protagonismo criativo é fundamental, mas a assinatura nem sempre é valorizada da mesma forma. O audiovisual é profundamente colaborativo, mas o reconhecimento ainda costuma se concentrar em poucas funções. Fora dos cargos mais expostos, a luta por reconhecimento é ainda mais silenciosa”.

O papel das políticas públicas

Modificar essas estruturas não parte apenas de um esforço individual ou, como um todo, vindo exclusivamente das próprias mulheres. É essencial que as políticas públicas se atentem a essas demandas e atuem nesse sentido. Anita enfatiza que a política pública tem um papel importante no audiovisual porque ela ajuda a definir que tipo de indústria queremos construir. “Editais que incentivem a presença de mulheres em cargos de liderança, critérios de diversidade nas equipes e um acompanhamento mais claro desses dados já fazem bastante diferença”, sugere. “Também acho muito importante investir em formação e em redes de apoio, principalmente para mulheres que estão fora dos grandes centros, onde o acesso costuma ser mais difícil. No fim, a política pública pode atuar em duas frentes: criando oportunidades para quem está começando e ajudando a garantir continuidade para quem já está construindo uma carreira no setor”, acrescenta. “Políticas públicas são indispensáveis para corrigir distorções criadas pela nossa sociedade. Medidas de inclusão, como cotas, editais específicos para mulheres e programas de formação continuada, são fundamentais para ampliar a presença feminina no mercado audiovisual“, completa Thaís.

Anahí concorda que a criação e a manutenção das políticas públicas de incentivo para mulheres, com editais voltados à realização feminina, são pontos que têm avançado, mas ainda devem ser ampliados. “E, acima de tudo, uma política de fiscalização e punição às empresas e setores que ainda praticam salários muito abaixo para as mulheres. Existe lei, sim, mas não adianta ter lei se não for cumprida”.

Renata, por sua vez, alerta como é importante pensar nesses mecanismos que garantem não apenas a aprovação, mas orçamentos compatíveis com a ambição dos projetos. “E isso não é privilégio, e sim correção de desigualdade histórica”, diz. “Acho fundamental refletir e atuar para a permanência e continuidade de carreira. Muitas mulheres conseguem realizar o primeiro filme, mas enfrentam dificuldade para viabilizar o segundo e o terceiro. É importante estimular a criação de programas de desenvolvimento continuado, incentivar redes de circulação reais e mentorias, fomentar a diversidade em fundos públicos e comissões de seleção”, reforça.

A roteirista ainda menciona que a questão da proteção trabalhista não é algo que já esteja fora do campo de discussão, já que canais seguros, sustentados por mecanismos jurídicos imparciais e com escuta às partes, ainda são um campo em construção. “Me parece um ponto importante também pensar em políticas de cuidado, reconhecendo que certas práticas, demandas e o próprio modus operandi da indústria impactam de forma desproporcional as mulheres”. E finaliza: “A política pública tem o papel de equilibrar o jogo. O mercado, sozinho, tende a reproduzir as desigualdades. Quando o Estado investe comprometido com critérios de equidade, ele amplia o repertório e democratiza as narrativas, e todo mundo ganha”.

Entrar, crescer e permanecer

Mas, afinal, quais são as principais demandas das mulheres do audiovisual? “Essa é uma grande pergunta. Acredito que seja importante pensar em equidade real, não apenas de salários, mas também de financiamento e orçamento. Há uma disparidade no acesso a recursos, editais e investimentos privados. Mulheres dirigem, roteirizam e produzem, mas muitas vezes com orçamentos menores e menos tempo de desenvolvimento. É claro que os maiores orçamentos são geralmente destinados a quem acumula muita experiência no exercício da sua função, mas aí entramos em outra questão, que é permitir e apoiar para que mulheres se preparem e construam esse lastro”, observa Renata.

Para ela, um segundo ponto é a ocupação de espaços de decisão real. Para além de estar no set, mesmo que em cargos de chefias, importa estar nas comissões de seleção, curadorias e cargos institucionais. “Também acredito que exista uma demanda por profissionalização das relações de trabalho, com canais seguros de denúncia e protocolos mais claros. Isso não é uma pauta superada”. A roteirista ainda elenca questões como reconhecimento da maternidade e políticas de cuidado e enfrentamento ao etarismo e ao racismo estrutural. “O audiovisual tem jornadas extensas, deslocamentos constantes e pouca previsibilidade. Sem políticas de apoio, como flexibilização, estrutura de cuidado e editais sensíveis a essa realidade, por exemplo, muitas profissionais excelentes acabam sendo penalizadas”, aponta. “Um último ponto, embora não ache que tenha percorrido todas as questões, mulheres mais velhas e mulheres racializadas seguem enfrentando invisibilização, menor acesso ao protagonismo, menos continuidade de carreira e menos cuidado em relação aos seus históricos, memória e saúde no e a partir do ambiente de trabalho”.

Já Anahí cita que o maior desafio das mulheres, pensando dentro do ambiente do set de filmagem, é a necessidade de se posicionar sempre. “Somos muito cobradas. Qualquer falha é vista com lupa. Outra questão comum de acontecer, por exemplo, é quando são projetos que envolvem outras cidades. Ainda é comum a gente ser questionada se tudo bem a gente ir. Sendo casada, tendo filhos, enfim.. Isso não é questionado para homens casados e pais: você pode passar tempo fora? A cobrança é sempre voltada à mulher. Além disso, outro desafio constante que enfrentamos são os assédios que sofremos, físico e moral”.

Anita, por sua vez, traz o desejo de que a presença das mulheres deixe de ser uma exceção e passe a ser algo natural na indústria. “Já avançamos bastante, mas ainda existe uma diferença grande quando a gente olha quem está dirigindo projetos maiores, quem recebe mais orçamento, quem tem continuidade de carreira”, defende. “Também tem uma questão de confiança. Muitas vezes as mulheres precisam provar várias vezes que são capazes, enquanto para os homens essa confiança costuma vir mais rápido. No meu dia a dia, sinto que ainda existe essa expectativa de que você precisa estar sempre entregando muito, sempre reafirmando sua competência. Acho que o maior desafio hoje é criar uma estrutura onde as mulheres possam não só entrar, mas permanecer, crescer e ter trajetórias consistentes dentro do audiovisual, resume.