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Caso Banco Master: como o rombo de mais de R$ 50 bilhões movimenta o Congresso Nacional

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 10/03/2026 15:14:57

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Joédson Alves / Agência Brasil

O que começou em novembro de 2025 como a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, dentro de uma investigação acerca de fraudes bilionárias — com um rombo de mais de R$ 50 bilhões — ao sistema financeiro, chegou ao Congresso Nacional e ganhou visibilidade com a instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito e menções a conversas envolvendo o dono do banco, Daniel Vorcaro, preso no último dia 4 de março, com deputados, senadores, ministros do governo e integrantes do Supremo Tribunal Federal.

No episódio mais recente, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou um requerimento de abertura de uma CPI para investigar as relações pessoais e financeiras do Banco Master com os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. De acordo com o senador, o requerimento já conta com 35 assinaturas, ou seja, oito a mais do que o mínimo necessário. Mas o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), sinalizou que não deve dar andamento ao processo. 

O Master, no entanto, tem sido alvo de investigações dentro do Senado em outras esferas, veja, abaixo, cada uma delas e o que está sendo apurado.

Iniciativas próprias

Comissão de Assuntos Econômicos

Geraldo Magela / Agência Senado / Divulgação
O senador Renan Calheiros (MDB-AL).

No Senado Federal, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), presidida pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), criou, no mês passado, a Subcomissão de Fiscalização Financeira destinada a investigar as irregularidades que culminaram na liquidação do Banco Master. Diferente de uma CPI ampla, essa subcomissão foca no braço técnico e regulatório:

  • O alvo: investigar como o banco conseguiu “maquiar” balanços e por que os mecanismos de alerta do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não travaram a operação antes do rombo chegar a R$ 51 bilhões.
  • Os senadores pretendem convocar diretores do Banco Central e da CVM para esclarecer como títulos baseados em créditos inexistentes foram comercializados no mercado. Há também um cruzamento de dados com a CPI do INSS, que apura se recursos de aposentados foram utilizados em operações de crédito consignado ligadas ao grupo liquidado.

Vorcaro, antes de ser preso, já havia desmarcado a presença na CAE e também faltou às convocações da CPI do Crime Organizado e da CPI do INSS. 

Desde fevereiro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso do Banco Master no Supremo, tem decidido pelo comparecimento facultativo de Vorcaro. 

CPI do Crime Organizado

Waldemir Barreto / Agência Senado/Divulgação
Alessandro Vieira é o relator da CPI do Crime Organizado.

A CPI do Crime Organizado aprovou convite aos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para prestar depoimento na comissão. Daniel Vorcaro foi convocado.

Os ministros do STF têm sido alvo de questionamentos por vínculos com a instituição financeira. O escritório da mulher de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, firmou contrato de R$ 129 milhões com o Master.

Convocação de Vorcaro: o empresário deve responder sobre um possível esquema que envolveria lavagem de dinheiro para o crime organizado e obstrução de justiça.

Vorcaro, Master e a CPI do INSS

A CPI do INSS, instalada no Congresso de forma mista, ou seja, formada por deputados e senadores, para investigar fraudes e abusos em empréstimos consignados, tornou-se o principal palco de exposição do Banco Master em Brasília. O banco é suspeito de liderar um esquema de “assédio digital” e irregularidades na concessão de crédito para idosos.

Roque Sá / Agência Senado
Senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPI do INSS.

A convocação de Vorcaro para depor na CPI foi aprovada como prioridade máxima.

  • O objetivo: os parlamentares querem que Vorcaro explique como o Master obteve acesso a dados sigilosos de beneficiários do INSS antes mesmo de a aposentadoria ser concedida.
  • A estratégia da defesa: antes da prisão em março de 2026, a defesa de Vorcaro tentou obter um habeas corpus no STF para que ele pudesse ficar em silêncio. Com a prisão preventiva decretada pela Operação Compliance Zero, o depoimento agora depende de autorização judicial de André Mendonça.

O papel do Banco Central e Gabriel Galípolo

Sergio LIMA / AFP
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.

No início deste ano, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, defendeu o rito técnico da liquidação, afirmando que a decisão de novembro de 2025 foi tomada assim que houve a confirmação de fraude estrutural, negando qualquer interferência ou pressão política para adiar a intervenção.

A investigação da Operação Compliance Zero revelou que o Master tinha “informantes” dentro do BC. Dois servidores de carreira foram afastados por suspeita de vazar dados sigilosos para Daniel Vorcaro.

Mas o que os servidores do Banco Central faziam para Vorcaro? Começa pelo fato de que tinham um grupo de WhatsApp com o dono do Master, onde mandavam orientações e documentos. A decisão do ministro André Mendonça, novo relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), chega a dizer que atuava como “empregado/consultor de Vorcaro para assuntos de interesse exclusivamente privado” ao se referir a Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Bacen. Além de ser interlocutor interno de Vorcaro para influenciar decisões, Paulo Sérgio orientava como se comportar na reunião com o presidente do Banco Central, revisava minutas de documentos e comunicações que o Master enviaria, sugerindo alterações: “atividade incompatível com as atribuições de fiscalização exercidas pelo próprio servidor público.” E mais: chegou a alertar Vorcaro sobre movimentações financeiras que entraram no radar da fiscalização.

Daniel Vorcaro não era um banqueiro comum em Brasília. Sua rede de influência costurava diálogos. Ele orbitava entre bolsonaristas, lideranças do Centrão e petistas.

Daniel Vorcaro também era figura frequente em eventos com ministros de Estado. A Polícia Federal investiga se essa proximidade serviu para travar processos administrativos que poderiam ter antecipado a quebra do banco.