Projeto em Belém transforma óleo de cozinha usado em biodiesel e limpeza | Exame
Fonte: exame.com | Data: 11/03/2026 16:36:04
*Por Natália Mello, com edição de Daniel Nardin e Luciene Kaxinawa
Você já parou para pensar na quantidade de óleo que aquela batata ou peixe frito que você come por aí produz? Só no complexo do Ver-o-Peso, em Belém, são coletados entre 500 e 600 litros de óleo de cozinha a cada 15 dias em 54 barracas.
O dado impressiona, mas preocupa ainda mais quando se olha para o outro lado da conta.
Segundo a prefeitura de Belém, apenas metade dos trabalhadores que atuam com refeições no espaço faz o descarte correto do resíduo.
Na prática, isso significa que, mensalmente, algo entre 1.000 e 1.200 litros de óleo usados podem ter como destino o ralo e o sistema de saneamento, ou até mesmo a Baía do Guajará, onde está localizado o mercado.
O impacto é expressivo: um único litro de óleo de fritura pode contaminar entre 20 mil e 25 mil litros de água, a depender do nível de degradação do produto após o uso.

O problema vai muito além da sujeira visível. Quando descartado de forma inadequada, o óleo forma uma película sobre a água, dificulta a oxigenação e prejudica a vida aquática. Na rede de esgoto, além de exigir todo tratamento, o excesso pode entupir os encanamentos.
Em um território profundamente conectado aos rios, transformar esse resíduo em recurso pode deixar de ser uma prática ambiental, para se consolidar como uma urgência urbana.
Há quase três décadas trabalhando com comida no complexo do Ver-o-Peso, Maria José Meireles, de 55 anos, mudou a forma como lida com o óleo de fritura há cerca de dois anos. Antes, o resíduo não recebia muita atenção.
Foi a partir da conversa com coletores que ela passou a enxergar valor no que antes ia para o lixo.
“Perguntei para o que era o trabalho deles de recolher, se faziam sabão. Aí, pensei: por que ao invés de jogar fora, esse óleo usado não pode me ajudar a comprar uma lata de óleo nova, para fritar meu peixe?”, conta.
Hoje, ela armazena e vende o material, transformando descarte em renda complementar.
A mudança também veio com a consciência dos impactos ambientais. Maria José lembra que, como muita gente, já descartou óleo de forma inadequada.
“A gente jogava na sacola, no lixo… isso vai entupindo tudo, vai pro bueiro”, relata. Agora, diz, o cuidado é outro: o que é recolhido já é repassado corretamente, ajudando a evitar a contaminação.

Mesmo assim, ela reconhece que o hábito ainda não é comum entre todos os trabalhadores. O principal desafio é o espaço reduzido nas barracas e cozinhas.
“As pessoas têm que armazenar, mas o espaço é pouco. E tem muita gente que não liga”, observa, revelando um retrato de como a conscientização ainda precisa avançar.
Da cozinha ao reaproveitamento
Quando Rogério Pinheiro começou a trabalhar com recolhimento de óleo usado no Ver-o-Peso, há cerca de sete anos, a coleta rendia em torno de 20 a 30 litros a cada 15 dias, bem diferente do cenário atual.
Esse aumento considerável representa um passo importante na sensibilização de quem trabalha no local. Mas ainda há um longo caminho a percorrer não só em feiras e estabelecimentos comerciais. “As residências e os condomínios, por exemplo, resistem muito a implementar uma política de coleta”, revela o empreendedor.

“Nos outros estados as pessoas pedem para coletar. Aqui tentamos, mas ainda não conseguimos implementar nos condomínios”, relata. Um dos entraves é cultural e prático: “O ralo da pia é maior que a garrafa”, diz, ao explicar a facilidade – ainda que prejudicial – do motivo que leva as pessoas a descartarem na pia – que vai para o esgoto – ao invés de coletarem em garrafas para posterior recolhimento.
Aos 50 anos, o coletor lembra que a mudança começa dentro de casa. “Em casa vai dizer que não dá, mas se você guardar, vai ver a quantidade de óleo que produz”, afirma.
A orientação é simples: armazenar em garrafas PET é a melhor alternativa para facilitar o que é chamado no meio de “logística reversa”. Segundo ele, praticamente tudo no processo é reaproveitado.
“Minha borra de óleo vira produto para caldeira, para ter o mínimo de resíduo possível.”
No dia a dia da coleta, Rogério, que trabalha com reaproveitamento de óleo desde 2009, conhece bem essa conta. Estudante do 4º semestre de Economia, ele entrou no segmento a partir de uma empresa de coleta de gordura e nunca mais saiu.
Hoje, atua principalmente na Grande Belém, mas também em outros municípios do Estado e cruzando a fronteira paraense, atendendo redes como supermercados, lanchonetes e restaurantes. “Onde tem alguém fritando ovo, a gente tá lá”, brinca.

Segundo ele, a profissionalização do setor avançou nos últimos anos, impulsionada inclusive por exigências ambientais.
“Hoje o restaurante precisa ter um certificado que diga onde ele descarta óleo”, explica. Esse movimento ajudou a estruturar o mercado, mas também aumentou a concorrência, nem sempre em condições equilibradas.
Rogério fala em “concorrência leal e desleal” para além das cerca de quatro empresas que disputam a coleta na região, já que alguns empreendimentos operam com a coleta na ilegalidade.
Os números ajudam a dimensionar a escala do trabalho. Somente na segunda-feira do último feriado de carnaval, a operação dele chegou a recolher cerca de 1,3 mil litros de óleo em Belém. Mas, no dia a dia, a meta gira em torno de 500 litros por dia na capital, podendo chegar a 900 litros na Região Metropolitana.
Processo dá novo destino para óleo usado
Todo esse volume segue para reaproveitamento, principalmente na produção de biodiesel e insumos industriais, fechando um ciclo que antes terminava nos ralos e bueiros da cidade.
Antes de chegar à indústria de biocombustíveis, o material passa por um processo de beneficiamento realizado pela Norte Óleo, no município de Santa Izabel do Pará, distante cerca de 50 quilômetros da capital Belém e que integra a região metropolitana.

Após filtragem, decantação e análise de qualidade, o subproduto é comercializado para empresas especializadas na produção de biodiesel, garantindo rastreabilidade ao resíduo e viabilizando sua transformação em fonte de energia renovável.
O óleo de cozinha usado também pode ser utilizado na produção de sabão em pedra, detergente, massa de vidro e componentes para fertilizantes.
Além da coleta, Rogério também atua em ações de educação ambiental em municípios como Bujaru e Santa Izabel, em parceria com secretarias locais. O objetivo é sensibilizar principalmente as crianças sobre o descarte correto.
Enquanto isso, a operação segue se expandindo para cidades como Castanhal, Marabá, Redenção e até Araguaína, no Tocantins, onde, em alguns casos, a empresa terceiriza a coleta para viabilizar volumes maiores, como cargas de até duas toneladas. O empreendimento soma, hoje, mais de 300 contratos formais com estabelecimentos que fazem essa coleta regularmente.
Não é um trabalho que salta aos olhos. Longe disso. A rotina envolve lidar diariamente com um resíduo escuro, viscoso e muitas vezes mal armazenado.
“Não é um processo bonito, a gente tá pegando o produto sujo”, resume Rogério Pinheiro. Para evitar o descarte inadequado, ele próprio fornece os recipientes de coleta, uma etapa que, segundo ele, é fundamental.
“Os vasilhames eu forneço todos porque senão vai vir num balde. Mas não posso jogar fora, tenho que armazenar.”

O avanço da operação, porém, não aconteceu sozinho. Rogério conta que a estruturação do negócio exigiu investimento e parceiros dispostos a apostar no segmento.
“Com o incentivo do Sicredi foi mais fácil expandir. Não é fácil sozinho”, afirma. Hoje, antes de qualquer reaproveitamento, todo o material passa por um rigoroso processo de higienização, etapa indispensável para transformar o que antes era passivo ambiental em insumo com valor econômico.
“Ao incentivar iniciativas como o reaproveitamento de óleo para a produção de biodiesel, o Sicredi reforça seu compromisso com uma economia que gera valor de forma responsável. Trata-se de um exemplo concreto de economia circular, que transforma resíduos em oportunidade, reduz impactos ambientais e fortalece cadeias produtivas mais sustentáveis.
“Para o cooperativismo, apoiar esse tipo de iniciativa é investir no desenvolvimento local, na inovação e em um futuro que equilibra crescimento econômico, preservação ambiental e bem-estar das comunidades”, ressalta Cleomar Abreu, diretor do Sicredi.
A Norte Óleo emprega sete pessoas diretamente e mantém três equipes na Grande Belém responsáveis pelo recolhimento diário do material, além de operações no interior do estado.
A empresa planeja ampliar a coleta para fornecer mais matéria-prima à indústria de biocombustíveis e, para isso, busca crédito de capital de giro junto à cooperativa de crédito. O recurso deve viabilizar a compra de mais óleo, a expansão da rede de fornecedores – incluindo grandes geradores, e investimentos em tancagem e recipientes de armazenagem.
Segundo a Prefeitura de Belém, a implementação do projeto de recolhimento de óleo em parceria com a Norte Óleo já apresenta resultados concretos na manutenção urbana. A desobstrução de bueiros, que antes ocorria trimestralmente, passou a ser realizada apenas duas vezes por ano.
Em sete a oito anos de execução, a iniciativa foi ampliada para outras feiras e mercados da capital, além de Outeiro, onde a coleta ao longo da faixa de praia chega a cerca de 400 litros.
No Mercado Bolonha, que fica na área do complexo do Ver-o-Peso, todo o óleo gerado pelos permissionários é recolhido, com pagamento de R$ 2,00 por litro.
Nos períodos de maior movimento – como em julho, outubro com o Círio de Nazaré e dezembro, por exemplo – a coleta é intensificada e ocorre todas as sextas-feiras.
O trabalho é executado por meio da Secretária Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel), que também tem ações de educação ambiental sobre armazenamento, separação de resíduos e descarte correto de óleo.
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