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Conheça os filmes que inspiraram ‘O Agente Secreto’, que vai ao Oscar neste domingo

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Data: 13/03/2026 11:32:26

Fonte: “”Orelha” (de Karel Kachyna, 1970, República Tcheca) Após uma festa do
Partido Comunista, um funcionário do governo e sua esposa descobrem que a
casa está grampeada.

No começo deste ano, quando apresentou “O Agente Secreto” no Film at Lincoln Center, em Nova York, o diretor Kleber Mendonça Filho listou e comentou as obras importantes que inspiraram seu filme.

“O Agente Secreto”, que concorre a quatro Oscars neste domingo (15), é repleto de referências cinematográficas fundamentais na formação do cineasta, e tentar localizá-las é um dos prazeres que o filme oferece.

A mais explícita é “Tubarão” (1975), o clássico de Steven Spielberg, com múltiplas camadas de significação do início ao fim do longa brasileiro: o fascínio amedrontador provocado pelo cinema, o perigo real nas praias recifenses, o clima sufocante do país em 1977, em plena ditadura militar, a indiferença do presente que devora o passado.

Algumas das melhores cenas do filme se passam em um cinema do Recife, no qual se exibe outro clássico do terror, “A Profecia” (1976). Logo na abertura, em cenas que formam um mosaico da cultura e da vida brasileira nos anos 1970, aparece uma imagem de “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), estrondoso sucesso policial de Hector Babenco.

E perto do fim, nas eletrizantes cenas na repartição pública, há um momento “puro Brian De Palma”: Wagner Moura, em primeiro plano, e o matador que o caça, ao fundo, aparecem nítidos ao mesmo tempo.

Mas o caldeirão de imagens que alimentam a imaginação de Kleber é bem mais rico e vai muito além disso, é claro.

No encontro em Nova York, alguns dos filmes mencionados têm poucas semelhanças com “O Agente Secreto”, mas fascinaram o brasileiro pela forma como a fantasia e o horror brotam subitamente em um ambiente realista, o que se percebe em seu cinema desde “O Som ao Redor” (2012).

Em uma chave temática mais próxima a “O Agente Secreto”, há dois longas europeus sobre a paranoia decorrente de sociedades autoritárias e do poder irrestrito, e três brasileiros que também refletem os diferentes impactos da ditadura militar.

Curiosamente, Kleber não colocou “Tubarão” entre os nove principais citados, mas sua lista não ficou a salvo dos monstros marinhos.

Veja a seguir os nove filmes que o diretor destacou como principais influências e seus comentários para cada um deles.

“Cabra Marcado para Morrer”
(de Eduardo Coutinho, 1984, Brasil)
Documentário sobre o líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em 1962, iniciado dois anos depois, mas interrompido pelo golpe militar. O projeto só foi concluído 20 anos depois, no fim da ditadura.

“É meu filme brasileiro favorito. É sobre o impacto da violência política em uma família do Nordeste do Brasil. O pai da família foi assassinado por ser um líder político da reforma agrária no meu estado. Coutinho estava tentando fazer um filme com atores não profissionais em 1964. No meio das filmagens, aconteceu o golpe. Os militares tomaram o poder, prenderam a equipe e confiscaram o filme. Ele voltou no início dos anos 80 para ver o que tinha acontecido com a família, e o filme resultante é absolutamente fascinante. É um filme belíssimo.”

“Anatomia de Um Assassino”
(de Eric Red, 1991, EUA)
Um homem recebe um transplante de braço após um acidente, e seu comportamento começa a mudar de forma estranha.

“Foi um dos melhores filmes que vi naquela época, porque achei muito honesto. Me surpreendeu em muitos aspectos. No fim das contas, é um filme B. Muita coisa não faz muito sentido, e não é um ‘grande’ filme, mas você pode se divertir muito assistindo porque faz o que muitos filmes de hoje não fazem: é exagerado. Adoro filmes B exagerados, com muito sangue e música.”

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau”
(de Steven Spielberg, 1977, EUA)
Quando OVNIs aparecem em Muncie, Indiana, um homem comum, pai de família, é tomado por visões inexplicáveis, enquanto cientistas tentam decifrar o que os visitantes podem estar dizendo.

“Estreou no Brasil no início de 1978, eu tinha 9 anos quando o vi. Vendo-o agora, quase 50 anos depois, eu realmente adoro a forma como foi filmado, fotografia Panavision. O mais incrível é que ele parece muito naturalista e muito realista. Você conhece essa família da classe trabalhadora, vê a casa deles, a sala de estar, o carro e as crianças. Mas também é uma fantasia de ficção científica sobre alienígenas vindo à Terra. Essa mistura é realmente algo especial. É quase como se você pudesse estabelecer o realismo e, a partir daí, construir o que quiser como cineasta.”

“Orelha”
(de Karel Kachyna, 1970, República Tcheca)
Após uma festa do Partido Comunista, um funcionário do governo e sua esposa descobrem que a casa está grampeada. Conforme a noite e a desconfiança avançam, a infelicidade do casal é exposta.Thriller político de paranoia que foi banido na então Tchecoslováquia, sob domínio soviético, durante quase duas décadas, ganhando um lançamento oficial apenas em 1989.

“O filme oferece um olhar fascinante sobre uma sociedade autoritária. Parece ter a lógica de Kafka e, claro, vem da mesma cultura. Tudo é muito misterioso. É possível sentir o peso do regime autoritário. Nada é realmente esclarecido. Há uma sensação de pavor e um mistério que nunca é realmente explicado. Acho que é um filme sobre o qual pensei muito quando estava desenvolvendo ‘O Agente Secreto’, e devo tê-lo visto algumas vezes. Adoro o mistério e o quão evasivo ele é. Também é muito parecido com ”O Processo’ , o livro de Kafka, que Orson Welles adaptou tão bem [em filme de 1962]”

“Iracema”
(de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1974, Brasil)
Em estilo semidocumental, segue a trajetória de um caminhoneiro e uma prostituta que viajam pela recém-construída rodovia Transamazônica, compondo um retrato de um país em transformação e da devastação ecológica durante a ditadura.

“É um filme muito impactante sobre a amazônia. Na verdade, é a primeira vez que se vê a floresta amazônica em chamas em um filme, o que se tornou bastante conhecido. Estreou na Semana da Crítica em Cannes, em 1975, e foi proibido pelo governo militar no final dos anos 1970. É um filme muito poderoso sobre um caminhoneiro que vem do sul do Brasil. É um filme atemporal, bastante impactante… Acredito que parte do estilo bruto [influenciou ‘O Agente Secreto’], porque uma das minhas preocupações era nunca fazer um filme ambientado nos anos 1970 que fosse limpo, arrumado e com uma aparência contemporânea demais. Ele tinha que ter um aspecto rústico.”

“Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”
(de Elio Petri, 1970, Itália)
Chefe da polícia recém-promovido assassina sua amante e, em seguida, espalha provas contra si mesmo, testando se seu posto lhe confere o poder de estar acima da lei. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro.

“É um filme da mesma época que “Orelha”. Acho que ele é um pouco mais cínico, ou talvez um pouco mais italiano, na forma como aborda questões de poder e como o poder pode ser manipulado. Acho que é um filme fascinante, é exatamente o tipo de coisa em que eu estava pensando quando desenvolvi ‘O Agente Secreto’. Isso não significa que eu estava tentando copiar algo. Tem muito a ver com o clima que eu estava vivenciando enquanto trabalhava neste filme e, espero, consegui fazer algo pessoal. Mas esses filmes discutem o poder e como a autoridade pode ser enganosa e como ela manipula o poder. Você está sempre um ou dois passos atrás do filme à medida que a história se desenrola.”

“Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”
(Hector Babenco, 1977, Brasil)
Cinebiografia do notório assaltante de bancos cuja trajetória se choca com a violência clandestina do esquadrão da morte da polícia durante a ditadura militar.

“É cruel, é sujo, é cheio de energia, tem um ritmo ótimo. É o tipo de filme que não vemos muito hoje em dia. Bastante ousado, eu diria, bastante violento e brutal. Foi um sucesso de bilheteria em 1977, 78. Para nós, que estávamos fazendo ‘O Agente Secreto’, foi uma grande referência visual, porque nosso filme se passa em 1977. Então, tivemos o prazer de revê-lo e tomar notas sobre como eram as calças, as paredes, os carros, as cenas de rua, a fotografia e os penteados. Visto quase 50 anos depois, parece mesmo um documentário filmado nos anos 70. Além de ser um ótimo thriller e um thriller bem brasileiro, é um filme que nos deu muitas ideias visuais sobre a reconstrução de um determinado período.”

“Orca – A Baleia Assassina”
(Michael Anderson, 1977, EUA)
Uma baleia assassina macho procura vingança contra um caçador que capturou sua companheira prenha.

“O sucesso de ‘Tubarão’ abriu as portas do inferno ou do paraíso, dependendo do ponto de vista. A indústria cinematográfica lançou uma série de filmes de ‘vingança da natureza’, com animais e criaturas assustadoras. Tivemos ‘Piranha’, o filme de Joe Dante, que provavelmente é o melhor de todos. Um deles era uma produção de Dino De Laurentiis com um visual caríssimo, chamada ‘Orca’ . É um filme realmente estranho. Acho que conta a história muito bem. É um filme que, bem, aos 10 anos, me impressionou bastante e até me perturbou. É uma curiosidade. Acho que é uma oportunidade interessante de assistir a algo tão anos 70 em seu aspecto de ‘vingança da natureza’.”

“À Queima-Roupa”
(John Boorman, 1967, EUA)
Dado como morto após um assalto que deu errado, o protagonista atravessa Los Angeles para encontrar o dinheiro perdido e os homens que o traíram.

“Foi filmado em Panavision, em 1967, se não me engano. Acho toda a questão da fotografia daquela época incrivelmente fascinante. As composições são o clássico widescreen anamórfico. Não só o tom e o estilo, mas também a forma como foi filmado. Considero esse filme uma grande inspiração. É muito difícil descrever referências porque não se trata de copiar em papel vegetal, mas sim da sensação que se tem ao assistir ao filme. É um dos thrillers maravilhosos do final dos anos 60.”