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Boato sobre urânio em navio iraniano não tem provas e contraria regras brasileiras

Fonte: estadao.com.br | Data: 13/03/2026 17:18:34

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Qual o futuro do Irã em meio à guerra contra Estados Unidos e Israel?

Conflito se tornou uma questão existencial para Teerã, o que tende a fazer o regime se agarrar ainda mais ao poder. Crédito: Imagens de apoio: AFP

O que estão compartilhando: vídeo afirma que um navio iraniano que aportou no Rio de Janeiro teria levado urânio do Brasil ao Irã. O autor do conteúdo afirma que uma aeronave dos Estados Unidos teria acompanhado a embarcação estrangeira no litoral brasileiro para identificar o material. O presidente Donald Trump estaria usando o caso para chantagear o Brasil em troca de “terras raras”.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. O vídeo se refere à presença de dois navios iranianos no Brasil no final de fevereiro de 2023. Jornais noticiaram que um avião farejador nuclear dos EUA esteve no País em 16 de janeiro daquele ano, ou seja, um mês antes das embarcações iranianas. O Verifica mostrou que não há evidências de que tenha ocorrido exportação brasileira de urânio ao Irã – a alegação foi negada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). No Brasil, não há permissão de venda de urânio para uso bélico.

Brasil não exporta urânio ao Irã; publicação resgata presença de navios iranianos no Rio

 

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Em decisão publicada no Diário Oficial da União, a Marinha do Brasil deu aval para os navios Iris Makran e Iris Dena, do Irã, atracarem no porto da capital fluminense. Eles permaneceram entre 26 de fevereiro a 4 de março de 2023.

O Estadão noticiou que houve uma cerimônia para comemorar os 120 anos de relações diplomáticas entre os dois países a bordo de um dos navios. Foi uma confraternização reservada, restrita a diplomatas das duas nações. Não há registro de fornecimento de material usado para a criação de bombas durante esse evento.

Iranian military ship Iris Dena is pictured berthed in Rio de Janeiro’s port, Brazil, February 28, 2023. REUTERS/Ricardo Moraes

Avião dos EUA esteve um mês antes próximo à costa brasileira

O vídeo viral afirma que um avião dos Estados Unidos teria acompanhado a presença dos navios iranianos no Brasil, a fim de identificar conteúdos radioativos.

Em busca no Google, o Verifica encontrou reportagens publicadas pelo UOL e Veja noticiando que, em 16 janeiro de 2023, uma aeronave americana, apelidada de “farejador nuclear”, foi observada na costa da América do Sul, próximo ao Brasil.

O avião é usado para detectar emissão de partículas radioativas na atmosfera em caso de explosões ou acidentes nucleares e ficou cerca de 18 horas no ar.

O caso ocorreu um mês antes da chegada dos navios iranianos no porto brasileiro. Não foram encontradas informações de outras aeronaves dos EUA no Brasil com esse objetivo.

Também não há registro na imprensa profissional de que Trump tenha chantageado o governo brasileiro por causa de um suposto fornecimento de material radioativo ao Irã.

Órgãos brasileiros negaram exportação de urânio ao Irã

Ao Verifica, a CNEN disse, em junho de 2025, que o Brasil não exporta e nunca exportou urânio ao Irã. A comissão responsável pelo controle nuclear do País esclareceu que o material não foi fornecido em nenhum formato e que o controle “é muito rigoroso”.

À época, as INB, que detêm a exploração de urânio, negaram que o Irã fosse um dos seus clientes. A Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal também afirmou que não houve venda de urânio ao país da Ásia.

A Constituição do Brasil determina que as atividades nucleares são admitidas apenas para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso. No território nacional, o material é usado sobretudo na produção de energia.

A legislação também restringe a exportação, por qualquer forma, de urânio, “salvo de governo para governo, ouvidos os órgãos competentes”. A lei nº 4.118/196 criminaliza a exportação clandestina de materiais nucleares.

O País ainda é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) desde 1998, que determina que o desenvolvimento e pesquisa nuclear é exclusiva para fins pacíficos.