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Quem conta as histórias do mundo? A disputa cultural entre Hollywood e os cinemas nacionais

Fonte: midianinja.org | Data: 13/03/2026 22:21:14

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Foto: Divulgação/ Cinema São Luiz/ Portal Cultura PE

Por Chris Zelglia

Embora frequentemente encarado como lazer, o cinema se consolidou, desde o início do século XX, como um dos mais expressivos vetores de influência cultural em escala mundial.

Os filmes transcendem a mera narração de histórias. Eles dão forma a sonhos, estabelecem representações da sociedade e viabilizam a disseminação global de determinadas narrativas. Dentro deste universo simbólico, poucas áreas tiveram um impacto tão considerável quanto à produção cinematográfica oriunda dos Estados Unidos. Hollywood não apenas lidera a criação de filmes, ela impera no mercado global de imagens.

A ascensão de Hollywood ao posto de principal centro do cinema mundial não foi fortuita. No alvorecer do século XX, enquanto muitos países ainda se dedicavam a estruturar suas indústrias culturais, os Estados Unidos já investiam fortemente em grandes estúdios, sistemas de distribuição e extensas redes de exibição internacionais. Essa estrutura se fortaleceu ao longo das décadas. Filmes produzidos por estúdios americanos começaram a ocupar as telas dos cinemas em quase todos os continentes. Tal processo resultou no que estudiosos denominam hegemonia cultural, um conceito associado ao pensamento do filósofo italiano Antonio Gramsci. A hegemonia se manifesta quando os valores e as narrativas de uma sociedade se espalham pelo mundo como se fossem universais.

No contexto do cinema, isso implica que histórias originadas em um contexto cultural específico influenciam o imaginário global.

Atualmente, o mercado cinematográfico mundial movimenta bilhões de dólares anualmente. Grandes estúdios desfrutam de uma capacidade de investimento, marketing e distribuição muito superior à da maioria das cinematografias nacionais. Superproduções têm o poder de ocupar centenas ou milhares de salas simultaneamente em diversos países. Essa abrangência massiva gera uma vantagem competitiva imensa em relação às produções independentes ou locais.

Mesmo filmes premiados, de países fora do eixo de Hollywood, frequentemente enfrentam obstáculos para alcançar um público amplo. Isso não se trata apenas de uma questão estética, mas de uma disputa industrial e econômica. Nesse cenário, o cinema produzido em diferentes nações assume um papel crucial: o de salvaguardar a diversidade de histórias e perspectivas culturais.

Filmes nacionais possibilitam que as sociedades narrem suas próprias vivências, suas contradições, seus conflitos, suas maneiras de viver e de interpretar o mundo. Quando a produção audiovisual de um país enfraquece, não se perde apenas um setor cultural, mas a capacidade de produzir imagens sobre si mesmo. Por essa razão, estudiosos da área da cultura têm recorrido cada vez mais ao conceito de soberania narrativa: a aptidão de uma sociedade para produzir e difundir suas próprias histórias no cenário global.

A expansão das plataformas digitais transformou profundamente o mercado audiovisual nas últimas duas décadas. Empresas como Netflix, Amazon e Disney passaram a atuar simultaneamente como produtoras, distribuidoras e exibidoras de conteúdo. Esse novo modelo ampliou o acesso à produções internacionais, mas também concentrou ainda mais poder em grandes conglomerados de mídia.

Ao mesmo tempo, o streaming abriu portas para que produções de diferentes países circulassem globalmente com mais facilidade. Séries e filmes locais começaram a alcançar públicos internacionais antes considerados de difícil acesso. Assim, o panorama se apresenta mais intrincado: embora surjam novas chances, a concentração econômica ainda representa um obstáculo.

A viabilidade de uma produção cinematográfica nacional não reside exclusivamente nos produtores ou nas iniciativas governamentais. Ela também está intrinsecamente ligada ao modo como o público se comporta. Quando o público assiste, divulga e aprecia as obras nacionais, contribui para o fortalecimento de todo um sistema criativo: empresas produtoras, técnicos especializados, autores, cineastas e distribuidores.

No contexto brasileiro, incentivar o cinema nacional significa também impulsionar um setor que cria postos de trabalho especializados, dinamiza a economia criativa e divulga narrativas sobre o país. Mais do que uma simples opção de lazer, prestigiar o cinema brasileiro pode ser interpretado como um ato de participação cultural ativa.

Em última análise, o confronto entre Hollywood e as cinematografias nacionais transcende a mera rivalidade comercial. Ele abrange a maneira como as sociedades se retratam e como são retratadas em escala global. Em um mundo cada vez mais interligado por imagens, a questão persiste: quem deterá o poder de narrar as histórias que todos nós acompanharemos?

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.