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Medicina de qualidade no Interior

Fonte: osul.com.br | Data: 14/03/2026 00:44:08

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Por

Eduardo Trindade

| 14 de março de 2026

Qualificar a saúde no Interior não é luxo: é justiça territorial, eficiência econômica e respeito ao cidadão. (Foto: Imagem gerada por IA)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A qualificação da saúde no Interior do Rio Grande do Sul é um dos grandes desafios do nosso tempo – e não por falta de vocação ou de profissionais comprometidos. O problema é estrutural. Não é possível, nem racional, ter especialistas de todas as áreas em todos os municípios. Mas todo paciente, independentemente de onde viva, deve ter acesso oportuno a um especialista sempre que isso for necessário. Esse é o verdadeiro sentido da equidade no Sistema Único de Saúde.

A Capital e os grandes centros têm, sim, um compromisso com o Interior na oferta de serviços de alta complexidade. Contudo, esse compromisso só se concretiza quando o sistema funciona de forma integrada, em rede. Alta complexidade não pode significar peregrinação. Não pode ser “ambulancioterapia” – ou, pior, “micro-ônibus-terapia” – em que o paciente passa horas na estrada para consultas rápidas, exames fragmentados ou retornos mal coordenados, muitas vezes sem continuidade do cuidado.

Hoje, o Interior enfrenta longas distâncias, escassez de especialistas, alta rotatividade de equipes e gargalos na média complexidade. Quando essa etapa falha, o paciente acaba empurrado precocemente para a alta complexidade ou chega tarde demais, mais grave e mais caro de tratar. O resultado são filas, desperdício de recursos e sofrimento evitável.

Qualificar a saúde no Interior exige planejamento regional, integração entre municípios e Estado e uma rede organizada por níveis de atenção. A atenção básica precisa ser resolutiva; a média complexidade, previsível e acessível; e a alta complexidade, acionada no momento certo, com fluxos claros de referência e contrarreferência. Protocolos bem definidos e regulação eficiente valem mais do que a simples abertura de serviços isolados.

A cirurgia bariátrica é um exemplo concreto. A obesidade grave cresce no Interior, acompanhada de diabetes, hipertensão, apneia do sono e incapacidade laboral. A bariátrica não é procedimento estético, mas tratamento com impacto comprovado na redução de mortalidade. Porém, ela depende de uma jornada assistencial completa: avaliação multiprofissional, exames, cirurgia em serviço habilitado e seguimento de longo prazo. Sem rede, o paciente viaja repetidas vezes, perde vínculo, abandona o tratamento.

É preciso, portanto, otimizar o acesso do Interior a esses serviços, com triagem qualificada, teleconsultoria, polos regionais de apoio, transporte sanitário organizado e financiamento da continuidade do cuidado. Qualificar a saúde no Interior não é luxo: é justiça territorial, eficiência econômica e respeito ao cidadão. Não se trata de ter tudo em todos os lugares, mas de garantir acesso real, no tempo certo, quando ele é necessário.

* Eduardo Trindade – cirurgião, professor de Medicina da UFRGS, vice-presidente do Cremers (entrindade@hcpa.edu.br)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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