Brasil pode chegar a 100 mil drones agrícolas em 3 anos
Fonte: agroemcampo.ig.com.br | Data: 14/03/2026 17:27:47
Resumo da notícia
- O uso de drones de pulverização no Brasil cresceu rapidamente, chegando a mais de 40 mil em 2025, mas o setor enfrenta falta de legislação e fiscalização adequada, gerando riscos operacionais.
- Cerca de 75% dos drones podem estar irregulares, com muitos operadores sem cadastro na ANAC ou registro no Ministério da Agricultura, configurando atividades ilegais e perigosas para a segurança aérea.
- O Sindag prioriza a organização do mercado e a profissionalização para evitar acidentes, promovendo a incorporação da tecnologia na aviação agrícola com controle e regulamentação eficientes.
O crescimento acelerado dos drones de pulverização no Brasil preocupa o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). Em entrevista durante a Expodireto Cotrijal 2026, o diretor executivo da entidade, Gabriel Colle, afirmou que o setor vive uma expansão inédita, mas sem acompanhamento proporcional da legislação e da fiscalização. Segundo ele, a prioridade agora é organizar o mercado e evitar riscos operacionais no campo e no espaço aéreo.
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Colle atua no sindicato há 11 anos e acompanhou de perto a chegada dos drones à aviação agrícola. Segundo ele, a decisão estratégica do Sindag foi incorporar a tecnologia ao setor, em vez de combatê-la.
“A primeira decisão que tivemos que tomar foi se iríamos brigar com os drones ou trazê-los para dentro da nossa atividade. Optamos por incorporar essa tecnologia, imaginando que ela teria crescimento. O que não imaginávamos era que esse crescimento seria tão rápido”, afirma.
A evolução impressiona. Em 2021, o Brasil tinha apenas 355 drones agrícolas registrados. Ao final de 2025, esse número ultrapassou 40 mil equipamentos.
“Entraram cerca de 40 mil drones em quatro anos. Hoje o Brasil só perde para a China, que tem algo em torno de 300 mil equipamentos. Se continuarmos nesse ritmo, podemos chegar perto de 100 mil drones de pulverização nos próximos três anos”, diz.
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Mercado cresce sem controle
Apesar da expansão, o principal desafio apontado pelo Sindag é a falta de organização do mercado. Segundo estimativas da entidade, cerca de 75% dos drones de pulverização em operação no país podem estar irregulares.
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“Muita gente compra um drone e começa a operar imediatamente. Não faz cadastro na ANAC, não registra a operação no Ministério da Agricultura e não tem acompanhamento agronômico. Nesses casos, estamos diante de uma atividade ilegal”, afirma Colle.
Grande parte dos equipamentos utilizados no Brasil é importada da China. Segundo o executivo, cerca de 95% do mercado nacional é composto por drones fabricados naquele país, muitas vezes adquiridos por importação direta ou até mesmo via Paraguai.

O crescimento desordenado também traz preocupações relacionadas à segurança aérea. A operação irregular de drones pode provocar acidentes com aeronaves tripuladas.
“Se um drone estiver operando de forma ilegal e uma aeronave agrícola entrar naquela área sem saber da presença dele, pode acontecer uma colisão. Já tivemos casos de aeroportos fechados por causa de drones operando irregularmente”, alerta.
No campo, o problema também já aparece com frequência. O Sindag criou um canal para que empresas associadas relatem avistamentos de drones durante operações aéreas.
“Somente entre janeiro e fevereiro deste ano recebemos quase 100 relatos de pilotos que precisaram pousar o avião de pulverização porque havia drones operando na área”, conta.
Profissionalização é o principal desafio
Segundo Colle, o crescimento da tecnologia é positivo, mas precisa vir acompanhado de profissionalização.
“Não somos contra os drones. Pelo contrário, queremos proteger esse mercado. O que defendemos é que a atividade seja exercida de forma profissional, com operadores qualificados e dentro da legislação”, explica.
Uma das propostas do Sindag é que a venda de drones de pulverização passe a ter algum nível de rastreabilidade. A ideia é identificar quem compra os equipamentos e garantir que o operador esteja apto a utilizá-los.
“Não se trata de controle de mercado, mas de segurança. Precisamos saber quem está operando e garantir que essa pessoa tenha formação adequada”, afirma.
Outra proposta é tornar o contratante corresponsável pela operação.
“Se alguém contratar uma empresa ilegal e houver deriva ou algum problema na aplicação, esse contratante também deveria responder. Estamos falando de um possível crime ambiental.”
Falta de experiência técnica preocupa
Uma pesquisa realizada pelo Sindag em 2025 revelou que grande parte dos novos operadores de drones não tem experiência no setor agrícola.
“Cerca de 70% das pessoas que estão entrando nesse mercado não têm ligação com a agricultura. Existe uma diferença enorme entre pilotar um drone e fazer uma aplicação agrícola eficiente”, afirma.
Segundo Colle, o desafio técnico é grande. A pulverização exige controle preciso da gota e conhecimento agronômico.
“Na aviação agrícola levamos mais de 60 anos para dominar completamente a tecnologia de aplicação. Controlar uma gota que sai de uma aeronave a 300 km/h e fazê-la chegar no alvo correto exige muita técnica.”
Ele destaca que a curva de aprendizado dos drones ainda está em andamento.
“Hoje há muitos curiosos operando equipamentos sem conhecimento técnico. Isso pode gerar aplicações mal feitas e prejudicar a imagem da tecnologia.”

Mercado passa por seleção natural
O crescimento acelerado também gerou um fenômeno curioso: um grande número de drones fora de operação.
Segundo Colle, muitos operadores entraram no mercado sem planejamento e acabaram abandonando a atividade.
“Muita gente achou que seria fácil ganhar dinheiro com drone. Mas a operação exige escala, manutenção e conhecimento técnico. Temos hoje um verdadeiro cemitério de drones no Brasil.”
Outro fator é a evolução rápida da tecnologia.
“Em apenas quatro anos já tivemos duas gerações de drones. É um equipamento muito diferente da aviação agrícola tradicional. Temos aviões da década de 1970 operando perfeitamente. Já os drones precisam ser substituídos com frequência.”
Cada tecnologia tem seu espaço
Apesar do avanço dos drones, Colle acredita que as diferentes tecnologias de aplicação continuarão coexistindo no campo.
Enquanto um drone de 40 litros consegue pulverizar cerca de 35 a 40 hectares por hora, um avião agrícola pode atingir até 600 hectares no mesmo período.
“Não é uma questão de melhor ou pior. Cada ferramenta tem seu ambiente ideal de operação”, explica.
Segundo ele, muitas empresas já trabalham com modelos híbridos.
“Temos associados que operam com aeronaves, drones e pulverizadores autopropelidos. Eles escolhem a tecnologia de acordo com a área, a cultura e a necessidade do cliente.”
Nova fronteira: aviões autônomos
Outra tecnologia que começa a aparecer no radar do setor são os aviões autônomos, também chamados de VANTs de asa fixa.
Hoje existem cerca de 11 equipamentos desse tipo operando no Brasil, ainda sem legislação específica.
“Do ponto de vista legal, eles ainda são considerados drones. Porém, estamos falando de aeronaves com capacidade de até 300 litros de carga e potencial para causar grandes danos se não forem bem reguladas.”
Segundo Colle, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) já trabalha na construção de regras específicas para esse tipo de equipamento.
O setor também acompanha iniciativas tecnológicas apoiadas pela Embraer, que estuda o desenvolvimento de novas soluções para a aviação autônoma.
“A aplicação dessas aeronaves é impressionante. Elas podem ser programadas e operar praticamente sozinhas. Mas ainda existem desafios logísticos e operacionais importantes.”
Futuro do setor
Para o Sindag, o mercado de drones agrícolas continuará crescendo nos próximos anos. No entanto, a consolidação do setor dependerá da organização regulatória e da profissionalização dos operadores.
“Estamos em um momento de transformação. A aviação agrícola deve continuar crescendo até 2028, mas o cenário depois disso ainda é incerto. O importante é olhar para todas as tecnologias e preparar o setor para o futuro”, conclui Colle.