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O que se sabe sobre a usina nuclear de Bushehr, no Irã, supostamente atacada por um projétil

Fonte: valor.globo.com | Data: 18/03/2026 08:38:35

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Tanto o Irã quanto a Rússia alegam que um projétil atingiu as instalações da usina nuclear de Bushehr, na República Islâmica, aumentando o risco de um incidente radiológico em meio à guerra entre Teerã e Israel e os Estados Unidos.

Nem o Irã nem a Rússia afirmam que houve liberação de material nuclear no incidente da noite de terça-feira (17), mas a situação reforça uma antiga preocupação dos vizinhos do Irã: a de que a usina, localizada às margens do Golfo Pérsico, possa ser atingida por um ataque ou um terremoto.

Aqui está o que você precisa saber sobre o incidente, a própria usina e o programa nuclear iraniano em geral, que continua sendo um dos motivos apontados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para justificar o início da guerra ao lado de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro.

Relatórios de um projétil atingindo a área

A agência de notícias estatal russa Tass citou o CEO da Rosatom, Alexey Likhachev, na noite de terça-feira, afirmando que “um projétil atingiu a área adjacente ao prédio do serviço de metrologia localizado na usina nuclear de Bushehr, nas proximidades da unidade de potência em operação”. Técnicos russos da Rosatom operam a usina, utilizando urânio pouco enriquecido de fabricação russa.

“Não houve vítimas entre os funcionários da Corporação Estatal Rosatom”, disse Likhachev. “A situação da radiação no local está normal.”

Cerca de 480 cidadãos russos permanecem na usina, disse Likhachev, e as autoridades estão se preparando para uma nova rodada de evacuações.

A Organização de Energia Atômica do Irã emitiu posteriormente um comunicado afirmando que “não houve danos financeiros, técnicos ou humanos e nenhuma parte da usina foi danificada”. O Irã culpou os Estados Unidos e Israel pelo incidente, informou a agência Tass.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que teve suas inspeções no Irã restringidas ao longo de anos de tensões sobre o programa de Teerã, após Trump retirar unilateralmente os Estados Unidos do acordo nuclear de 2015 com as potências mundiais, emitiu um comunicado cuidadosamente redigido na manhã de quarta-feira (18).

“A AIEA foi informada pelo Irã de que um projétil atingiu as instalações da usina nuclear de Bushehr na noite de terça-feira”, disse a agência das Nações Unidas, usando a sigla para usina nuclear. “Não foram relatados danos à usina nem feridos entre os funcionários.”

Nenhum outro especialista independente viu os danos. Nem o Irã nem a Rússia divulgaram imagens dos danos. Moscou fez alegações sobre instalações nucleares durante a guerra contra a Ucrânia que se provaram falsas, enquanto o Irã tem tentado usar tanto a força quanto a diplomacia coercitiva para pressionar seus vizinhos a, por sua vez, pressionar os EUA a interromper a guerra.

Ainda não está claro o que era o “projétil” que atingiu o complexo. O Comando Central das Forças Armadas dos EUA, responsável pelas forças que lançam ataques aéreos no sul do Irã, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Estilhaços de interceptações de mísseis e outros disparos de defesa aérea também causaram danos na região desde o início da guerra. Bushehr, a cerca de 750 quilômetros ao sul da capital iraniana, Teerã, abriga uma base naval iraniana e um aeroporto de uso misto, civil e militar, com sistemas de defesa aérea protegendo a área.

Bushehr: um projeto almejado há muito tempo pelo Irã

O xá Mohammad Reza Pahlavi anunciou, na década de 1970, planos para construir 23 reatores nucleares e, ao mesmo tempo, obter controle total sobre o ciclo do combustível nuclear — abrindo caminho para a construção de armas atômicas. Isso alarmou as autoridades americanas, que impuseram restrições às empresas americanas que desejavam vender para o Irã. A empresa alemã Kraftwerk Union iniciou a construção da usina de Bushehr em 1975, como parte de um acordo de US$ 4,8 bilhões para quatro reatores.

Mas a Revolução Islâmica de 1979 interrompeu o projeto. O Iraque bombardeou repetidamente o local durante os oito anos de guerra com o Irã na década de 1980, buscando impedir o programa de Teerã.

A Rússia acabou aderindo ao projeto, que conectou a usina à rede elétrica iraniana em 2011. A usina opera um reator de água pressurizada que gera até 1.000 megawatts de eletricidade, o suficiente para abastecer centenas de milhares de residências, empresas e indústrias. No entanto, sua contribuição para a geração de energia do Irã se limita a apenas 1% a 2%.

O Irã vem tentando expandir a usina de Bushehr para múltiplos reatores. Em 2019, iniciou um projeto que prevê a adição de dois novos reatores ao local, cada um com capacidade de geração de 1.000 megawatts. Uma imagem de satélite de dezembro, da Planet Labs PBC, mostrava a construção ainda em andamento, com guindastes sobre as duas estruturas.

O reator atualmente em operação em Bushehr utiliza urânio enriquecido a 4,5% proveniente da Rússia, um nível baixo, necessário para a geração de energia em usinas desse porte.

Bushehr permaneceu intacta durante a guerra de 12 dias em junho

Bushehr, uma usina nuclear civil em operação, permaneceu intacta durante a guerra de 12 dias em junho entre Israel e Irã. Durante esse conflito, os EUA bombardearam três instalações de enriquecimento nuclear iranianas, destruindo centrífugas e provavelmente aprisionando o estoque de urânio altamente enriquecido (60%) de Teerã no subsolo. Desde então, o Irã tem impedido que inspetores da AIEA visitem essas instalações.

Um possível ataque a uma usina nuclear poderia causar um vazamento de radiação para o meio ambiente. Essa tem sido uma grande preocupação nos anos que se seguiram à invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022. As usinas nucleares ucranianas, construídas quando o país fazia parte da União Soviética, foram atacadas e se viram na linha de frente dessa guerra.

Um vazamento desse tipo no Golfo Pérsico representaria uma crise existencial para os estados árabes do Golfo, que dependem das usinas de dessalinização da região para o seu abastecimento de água.