A pandemia no Brasil – alguns números que você ainda não conhecia
Fonte: estadao.com.br | Data: 26/04/2026 06:48:32
Continuando a minha série sobre a pandemia, hoje vou falar especificamente sobre alguns indicadores no Brasil no intervalo de 2020 a 2023.
Começando com um gráfico de óbitos semanais por covid:
Tivemos três grandes ondas:
- A primeira em meados de 2020;
- A segunda (a pior de todas) em abril de 2021;
- E a terceira na virada para 2022.
No pior momento, nós chegamos a ter mais de 20 mil óbitos por semana!

Paciente em leito de UTI em São Paulo; foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid no Brasil.
Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Ao contrário do que alguns que negam a gravidade da pandemia dizem, as demais causas de óbito ficaram praticamente sem alteração. Vejam aqui que aquelas histórias de alguém que morreu porque explodiu um pneu e foi registrado como covid simplesmente não geraram alteração nos registros por causas externas. Em causas naturais, não sumiu dengue nem causa alguma – todas continuaram lá.
Nesse período, foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid, mas tem algo além que é pouco falado no Brasil: o excesso de óbitos. É o total de óbitos subtraído dos óbitos esperados pela série histórica. E vejam que esse excesso de óbitos é próximo de 900 mil, maior que o registrado como covid, o que indica que houve subnotificação (o oposto daquilo que os que negam a pandemia dizem).
Os 700 mil mortos por covid são um número tão alto que perdemos a referência do que significa. Vou colocar em perspectiva com duas das maiores causas de óbitos:
- Infarto, com 379 mil óbitos neste intervalo;
- Diabetes, com 300 mil óbitos.
Somando ambas as causas ao longo de todos os 4 anos entre 2020 e 2023, ainda não chega ao número de mortes por covid. Ou, se considerarmos apenas o intervalo entre março de 2020 e março de 2023, a covid matou mais que a soma de TODOS os tumores. Nunca houve nada parecido em saúde pública em toda a história documentada do Brasil.
Um outro ponto sobre o qual pouco se falou foi a influência da idade nas taxas de mortalidade médias por Estados e municípios. No gráfico a seguir, que contém todos os municípios acima de 100 mil habitantes, percebe-se que há uma correlação entre maior porcentagem de população idosa e taxa de óbitos por covid.
Isso significa que as taxas que constam nos painéis comparam entes muito distintos entre si (vale tanto para municípios quanto para Estados). Mas há uma maneira de corrigir isto.
Aqui comparo a taxa de mortalidade crua, sem ajuste, com a taxa de mortalidade ajustada por idade, na qual se usa uma ponderação baseada na distribuição etária da população brasileira.
Com isso, há uma alteração significativa no ranking de mortalidade dos Estados:
- Vários Estados da região Norte têm um índice padronizado muito maior que o cru – principalmente o Amazonas, que sai de menos de 4.000 para mais de 6.000 por milhão.
- O Rio de Janeiro, que era o Estado que nominalmente tinha a taxa mais alta, passa a ser o oitavo – devido à sua população relativamente mais idosa. Minas e Rio Grande do Sul também caem no ranking devido a este mesmo fator.
- Já o Maranhão, que no índice não ajustado aparecia com a taxa mais baixa, sobe duas posições.
Considerando isto, chegamos a esse mapa, no qual alguns Estados do Norte e Centro-Oeste destoam muito do restante do Brasil. E a Bahia, por outro lado, com a taxa mais baixa do país (lembrando novamente que é o índice ajustado por idade).
Um fator que eu gostaria muito de analisar seria o excesso de óbitos por Estado. Por quê? É bem possível que alguns Estados tenham registrado melhor seus óbitos por covid que outros, então pode ser que existam taxas de subnotificação maiores em alguns Estados – ou, em outras palavras, diferenças na qualidade dos dados. É algo que infelizmente ainda não está disponível e demandará análises minuciosas dos dados – mas espero eu que não seja esquecido do debate público.
Se vocês lembram da coluna semana passada, hoje tampouco vou comentar sobre os casos de covid porque aqui no Brasil tivemos uma política de testagem deficiente e mal documentada.
Ainda existe muito a estudar sobre os indicadores comparando Estados e municípios entre si e gerar conhecimento que nos capacite para uma possível nova pandemia no futuro. E, falando nisso, na próxima semana, na terceira parte desse especial sobre a pandemia, eu vou comentar sobre alguns aprendizados da pandemia. Até a próxima.