Conheça o ‘Cine Sapatão’, iniciativa que promove cinema LGBT+ e palestino
Fonte: brasildefato.com.br | Data: 26/04/2026 06:03:13
O Cine Sapatão surgiu no final de 2017 como uma iniciativa que divulga produções audiovisuais feitas por cineastas lésbicas. O projeto também busca dar visibilidade a autoras que tratam dessa temática no Sul Global, inclusive na Palestina.
Ao BdF Entrevista, a cineasta Nayla Guerra, organizadora do Cine Sapatão, conta que, no início, ele funcionava como Cine Clube. Embora o modelo seja adotado até hoje, o coletivo foi diversificando as ações ao longo do tempo, e já produziu artigos acadêmicos, ministrou oficinas e produziu o curta-metragem “Ferro Bar”.
Guerra explica que a temática LGBT+ não é central no cinema palestino. Ainda assim, a cineasta decidiu insistir no desafio. “Foi bem difícil fazer essa curadoria. Principalmente por causa da questão do pinkwashing, que é uma prática que respinga muito no cinema. Então, a gente mudou muito a curadoria dessa sessão, porque a gente escolhia um filme, ia pesquisar mais a fundo e descobria que era um filme que estava sendo usado para a prática de pinkwashing. No final, a gente acabou exibindo um filme palestino que chama ‘Eu Nunca Te Prometi Um Jardim de Jasmine’, mas esse filme foi feito no Canadá, na diáspora palestina. E isso é uma característica comum também do cinema palestino, muitos filmes são feitos por diretores palestinos em outros países, diante das dificuldades de fazer os filmes no território palestino”, explica.
A cineasta explica o termo pinkwashing a partir do termo greenwashing. “Greenwashing é literalmente lavagem verde, é uma prática das empresas para se passarem como ecologicamente sustentáveis, mas no fundo, na essência, são empresas extremamente danosas para o meio ambiente. E aí temos o pinkwashing, lavagem rosa, uma prática de promoção de uma imagem de um país que defende direitos LGBTs e a utilização dessa imagem justamente para encobrir discriminações e práticas racistas, colonialistas, imperiais, com outras populações, inclusive populações LGBTs.”
Guerra aborda a crença comum de que Israel defende a comunidade LGBT+, mas a Palestina não. “A gente constrói esse imaginário graças a uma série de estratégias e práticas dentro disso que a gente chama de pinkwashing. Isso também é muito efetivo no caso, por exemplo, dos estereótipos que a gente tem das mulheres árabes. E aí o ‘Leonardo’, por exemplo, é um filme fantástico porque ele traz fotografias reais de mulheres de 1920, 1910, ali na Palestina, no Líbano, que não performavam feminilidade, que tinham uma série de práticas que a gente entende como práticas ocidentais contemporâneas, mas que estavam sendo praticadas ali”, afirma.
Ao discorrer sobre memória e identidade, temas bastante cruciais no cinema palestino, Nayla Guerra fala sobre a Nakba, termo usado para definir o momento da criação do Estado de Israel, em 1948. “A Nakba é a grande catástrofe. A partir da Nakba, a gente tem instauração de um cenário colonial”, afirma, ao indicar o filme “Palestina 36”, de Annemarie Jacir, como referência.
Ela também fala sobre o processo de destruição da cultura palestina pelo Exército de Israel, que se intensificou nesse período e dura até os dias atuais. “A questão do saque era uma prática recorrente que passa ao longo do tempo, não só o saque, mas a destruição de patrimônio histórico. Há uma série de espaços culturais que foram destruídos pelos bombardeios [de Israel contra Palestina]”.
Guerra também conta das mobilizações em resistência a essa situação a partir do cinema. Uma dessas iniciativas, que data dos anos 1960, é a Unidade de Cinema Palestino, ligado à Organização pela Libertação da Palestina (OLP). Uma das criadoras do grupo, a primeira fotógrafa do mundo árabe, Sulafa Jadallah, chegou a registrar a linha de frente de um campo de batalha, mas sofreu um acidente em campo, ficou paraplégica e teve que parar. “Era um grupo extremamente militante e conectado realmente com a luta, com as guerrilhas armadas. Esse grupo tinha uma noção muito concreta da questão da importância da memória, então eles faziam muitos documentários registrando a presença dos palestinos no território”, diz.
Muito além da história, Guerra afirma que as dificuldades de fazer cinema palestino continuam muito atuais e, apesar de algumas facilidades tecnológicas, os desafios são muitos. Para ela, fazer cinema palestino continua sendo um ato de resistência assim como no passado. A cineasta menciona, por exemplo, o episódio do documentário “No other land”, que teve grande repercussão porque venceu o Oscar 2025 — um de seus diretores, Hamdan Ballal, foi linchado por colonos israelenses.
“Muitos dos filmes são feitos, na verdade, na Jordânia, no Líbano, por causa dessa impossibilidade de retorno. Para os palestinos que estão nos territórios palestinos, a locomoção é muito difícil. Para os que já estão fora, o retorno ali para a gravação é muito complexo. A realização de um cinema diaspórico no exílio é uma realidade muito concreta para o cinema palestino”, afirma.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.