BRB desconsidera alertas sobre problemas em carteiras de crédito na negociação com Master
Fonte: noticiasdoplanalto.com.br | Data: 27/04/2026 07:01:38
Relatório interno do Banco Regional de Brasília (BRB) revelou que a instituição financeira não deu atenção a uma série de alertas sobre irregularidades em carteiras de crédito transferidas pelo Banco Master durante o processo de negociação de aquisição.
O relatório produzido por especialistas do banco aponta problemas como valores inconsistentes em contratos de crédito consignado, ausência de reconhecimento de contratações feitas por clientes e documentos com valores e prazos repetidos, o que suscitou suspeitas dentro de um grupo interno formado pela gestão anterior da estatal. Apesar dessas suspeitas, a gestão decidiu continuar com as negociações.
Esse documento é parte de uma ação movida pelo BRB solicitando o bloqueio dos bens de fundos e pessoas relacionadas ao Master. Conforme revelou o Globo, uma auditoria contratada pelo BRB identificou que o grupo ligado a Daniel Vorcaro, fundador do banco, ampliou sua participação acionária em 33 mil vezes entre o começo de 2024 e o final de 2025. Esse período coincide com a aquisição, pela instituição estatal, de carteiras de crédito consideradas problemáticas do Master, com valor totalizando R$ 12 bilhões.
Na ação, o BRB argumenta que esse aumento de capital resultou na entrada de Vorcaro e outros investigados pela Polícia Federal como acionistas do banco estatal.
O grupo responsável por avaliar a negociação com o Master foi criado pelo ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, preso pela Polícia Federal após investigações indicarem que ele receberia R$ 146 milhões em imóveis de Vorcaro para facilitar a negociação entre os bancos. A defesa de Paulo Henrique Costa informou que não faria comentários.
Na decisão que autorizou a prisão, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, destacou que a investigação da Polícia Federal demonstrou que “o sucesso da fraude não pode ser separado de falhas graves de governança e de uma atuação, supostamente intencionalmente conivente, da alta administração”.
Conversas obtidas pela Polícia Federal entre Paulo Henrique e outro diretor do banco indicam que, desde o início das operações, já se tinham conhecimento de inconsistências significativas nas carteiras ofertadas. “Mesmo assim, as aquisições foram aceleradas, com sucessivas flexibilizações de procedimentos e pressões para rápida finalização, desconsiderando controles prudenciais”, escreveu Mendonça.
O documento elaborado pelos técnicos também aponta que todo o controle da carteira de crédito era feito manualmente por meio de planilhas Excel, o que é incomum considerando o volume das operações.
O grupo técnico identificou ainda distorções relacionadas a créditos consignados. Uma análise dos contratos de pessoas físicas mostrou que o valor contratado não correspondia ao valor final quando as parcelas eram somadas. “Os valores informados são menores do que a soma das parcelas dos contratos adquiridos pelo BRB por cada CPF”, afirma o relatório.
Além disso, o documento destacou um aumento significativo nas reclamações de clientes relacionadas ao não reconhecimento de contratos originados pelo Banco Master e posteriormente adquiridos pelo banco estatal.
Nova operação
Na última segunda-feira, o BRB comunicou ter firmado um memorando de entendimento com a gestora Quadra Capital para a venda de parte dos ativos provenientes do Banco Master. Segundo o banco estatal, o valor de referência dessa operação é de R$ 15 bilhões.
O acordo prevê um pagamento inicial à vista entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões, enquanto o valor remanescente, estimado entre R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões, será vendido por meio de cotas de um fundo de investimento que será criado para gestão e monetização desses ativos.