Dólar ou petróleo: o que deve ficar mais caro e quais preços podem cair
Fonte: valorinveste.globo.com | Data: 29/04/2026 07:25:47
Há décadas, os preços nas prateleiras do mercado reservam sempre algum susto. “Está tudo mais caro”, é o bordão do consumidor médio no Brasil. Mas a situação pode piorar nos próximos meses. As engrenagens da economia brasileira operam hoje sob um paradoxo: o real tem se apreciado em relação ao dólar, enquanto o petróleo ficou mais caro no mercado internacional. A moeda mais forte deveria conter os preços, mas o choque de oferta da commodity empurra as contas para cima. No fim, essas forças não se cancelam, e sim atingem a carteira em pontas diferentes.
Porém especialistas indicam que o resultado dessa composição sobre os preços finais é inflacionária. Em outras palavras: os preços podem subir em ritmo mais acelerado nos próximos meses. E, a bem da verdade, o consumidor já está sentindo esses efeitos no seu bolso há mais de um mês.
O real está entre as moedas que mais se valorizaram no mundo em 2026, com alta de mais de 9% sobre o dólar entre janeiro e o dia 27 de abril. Em tese, essa apreciação da moeda local deveria, indiretamente, agir como canal para aliviar as pressões sobre os preços e baratear uma série de produtos importados.
Mas, nesse meio tempo, os preços do petróleo dispararam. Enquanto o caminho de valorização do real foi tortuoso e lento, a commodity arrancou após a eclosão dos conflitos entre Estados Unidos e o Irã, que levou a um choque de oferta. Assim, o preço do barril, que estava comportado na faixa dos US$ 70 até o fim de fevereiro, escalou para US$ 120 em um mês.
A conta dessa combinação já apareceu no IPCA de março, que veio em 0,88% – uma surpresa diante do que o mercado esperava no primeiro mês da guerra no Golfo Pérsico, tendo o grupo dos preços do setor de transportes liderado a pressão no mês, puxado pela gasolina (4,59%) e pelo diesel (13,90%) mais caros.
“O efeito líquido sobre os preços deve ser, na margem, inflacionário. O câmbio mais apreciado tende a aliviar o preço de bens com insumos importados, como eletroeletrônicos, móveis e alimentos industrializados. O problema é que essa transmissão é assimétrica: quando o dólar sobe, o repasse para o consumidor tende a ser rápido e quase completo; quando cai, as empresas primeiro recompõem suas margens de lucro”, explica Guilherme Klein, professor de economia na Universidade de Leeds, na Inglaterra, e pesquisador da USP.
É o produto dessa equação que cria o entendimento de que está tudo sempre mais caro. No limiar dessa dinâmica, o preço no Brasil sobe de elevador, mas desce de escada.
Combustíveis: onde o bolso dói mais
O preço do combustível na bomba é o canal mais direto e mais sentido neste momento para o consumidor médio desde o começo da crise. A gasolina e o diesel já acumulam altas expressivas desde março, ainda no início da guerra no Oriente Médio, mas ainda assim os preços finais possuem defasagem em relação à escalada no valor do petróleo (do qual derivam) lá fora.
Segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a diferença entre o preço praticado nas refinarias e a cotação internacional chegou a cerca de 85% no diesel e 49% na gasolina no período de maior pressão. Para conter essa disparada dos preços, o governo federal anunciou a política de isenção de PIS/Cofins para o diesel que deve reduzir o litro em R$ 0,32.
Quase todo produto que chega às prateleiras Brasil adentro passa pelo porão de um navio ou de um avião ou pela caçamba de um caminhão – quando não por todos esses veículos. Com o diesel mais caro, o frete sobe e, com ele, o custo de praticamente toda a cadeia produtiva aumenta.
Só que, mesmo na frente mais sensível aos preços do petróleo, a mecânica não é tão direta e absoluta.
“Em combustíveis e energia, a presença de tributos (ICMS, PIS/Cofins) e regras de precificação de estatais cria uma camada fiscal e regulatória entre o câmbio e a bomba, tornando o repasse da apreciação parcial e errático”, pondera Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
Alimentos: mais caros na carona do combustível
A alimentação dentro de casa foi o segundo grupo com maior impacto no IPCA de março, com alta de 1,94%, a maior desde abril de 2022. E a dinâmica dos preços nesse núcleo tem relação direta com o petróleo, por isso, a tendência é de que, enquanto as pressões sobre a commodity não se dissiparem, as compras de mercado seguirão sempre cada vez mais caras.
Sobre a relação entre esses eventos, o professor Klein explica: “O petróleo mais caro pressiona combustíveis, frete e insumos industriais (inclusive fertilizantes) – e esse canal costuma chegar com mais força. A literatura internacional também mostra que choques de petróleo geram efeitos de segunda rodada relevantes via alimentos e núcleo de inflação com defasagens longas. Esses efeitos tendem a ser mais intensos quando o mercado de trabalho está aquecido como no quadro brasileiro atual.”
A queda da oferta de alguns produtos agrícolas ou de insumos combinada com o aumento do frete só corroboram o cenário de alimentação mais cara neste ano. Mas a situação se agrava por causa dos fertilizantes. Como são insumos agrícolas importados, eles têm capacidade de encarecer o produto final para o consumidor com defasagem de meses.
Por isso, mesmo que o preço do petróleo tenha um comportamento mais benigno no segundo semestre, o preço dos alimentos pode continuar sob pressão.
Passagens aéreas e energia elétrica: o que está por vir
O querosene de aviação acumulou alta de 55% no início de abril, mas o impacto nas passagens ainda não apareceu integralmente na inflação. Porém seu efeito está por vir: as passagens já encareceram, mas tendem a ficar ainda mais caras.
A tendência é as passagens aéreas responderem mais agressivamente à escalada dos preços do combustível, uma vez que o setor opera com margens comprimidas e alto índice de endividamento, o que deixa pouco espaço para manobra. E nem a viagem de ônibus deve escapar desses apertos.
A indústria de transporte nunca se recuperou plenamente da pandemia, por isso, seus custos mais altos tendem a ser repassados de forma relevante para os preços das passagens.
Já a energia elétrica pode encarecer no cenário de seca, quando as hidrelétricas não conseguem suprir a demanda do território. Nesses casos, as termelétricas são ativadas, porém seu funcionamento é dependente de combustíveis fósseis, o que pode encarecer o custo de energia no país.
Eletrônicos: poderiam ficar mais baratos, mas…
No segmento de eletrônicos importados, o dólar mais fraco tem efeito real, porém age de forma lenta. Celulares, notebooks, videogames e televisores têm seus custos atrelados ao dólar. Com o real valorizado, o custo de importação desses produtos cai.
A expectativa é que os primeiros efeitos cheguem ao consumidor em um prazo de dois a três meses e apenas se o real se mantiver no patamar atual em relação ao dólar. O entrave, neste caso, é o estoque: lojistas que compraram mercadorias com o dólar mais caro e precisam primeiro girar esse inventário antes de repassar o barateamento.
“Altas do dólar são repassadas com muito mais rapidez e intensidade do que as desvalorizações da moeda. Estoques comprados com a moeda mais cara, contratos fechados antes da desvalorização e custos de remarcação de preços são alguns dos culpados, significando que quedas pontuais não costumam ter impacto muito significativo na inflação”, explica a estrategista-chefe da Nomad sobre a assimetria estrutural do mercado brasileiro.
Por isso, é preciso que o câmbio fique valorizado de forma persistente para que esse efeito se transforme em alívio real nos preços.
E mesmo nesse caso a equação não é tão direta. Mesmo com o dólar mais barato hoje, se o comércio sentir pressão de custos em outra ponta da sua cadeia lá na frente, pode ser que o alívio cambial nunca seja repassado aos preços pagos pelo consumidor final.
O nó do frete e dos serviços
Há núcleos do IPCA em que o câmbio e o petróleo concorrem de forma mais direta, e a predominância de um desses fatores está intrinsecamente ligada à natureza da economia brasileira.
No frete rodoviário, o petróleo vence com folga. O diesel é o insumo principal, e o modal rodoviário responde pela maior parte do transporte de cargas no Brasil. Uma queda do dólar não barateia o diesel de forma imediata.
O combustível segue indexado ao mercado internacional de petróleo, com a Petrobras como intermediária e o governo como regulador parcial. Sobre essa dinâmica, Klein é direto: “O efeito que se espalha mais amplamente pela economia é o do frete rodoviário.”
Já em serviços, o dólar tampouco ajuda muito em baratear os preços. “Nesse setor, em que a estrutura de custos é quase toda doméstica e intensiva em trabalho, o efeito da queda do dólar é residual”, explica Zogbi.
E é exatamente no núcleo de preços de serviços que a inflação brasileira está mais firme há anos. Resistente ao período prolongado de Selic em nível contracionista, o comportamento dos preços do setor segue em um patamar que exige cautela na condução da política monetária, segundo os comunicados do próprio corpo diretivo do Banco Central do Brasil.
Já não havia muito espaço para respiro antes, mas agora o cinto pode apertar mais ainda.