O RS está preparado para lidar com eventos climáticos extremos?
Fonte: correiodopovo.com.br | Data: 03/05/2026 07:03:59
A linha reta de cor marrom, marcada no meio da parede, não deixa esquecer: a água e a lama chegaram até ali. Essa cor, carimbada até nas árvores e nos postes, entregam que aquelas ruas, que sempre foram para passagem de carros, ônibus, caminhões e pés, durante dias podiam ser apenas transitadas com barcos ou nadando, e que prédios e casas refletiam na água como um espelho. Neste domingo, dia 3 de maio, completam-se dois anos da enchente que invadiu Porto Alegre. Um episódio que havia ocorrido 80 anos atrás entrou novamente para a história, e como uma tragédia ainda maior, consequência da intensificação global dos eventos climáticos extremos.
Dois anos depois, mais do que as marcas que são perceptíveis a qualquer olho que percorre ruas da Capital e de outros municípios castigados, ainda é maior a cicatriz deixada dentro de cada morador atingido. Além da dor da perda – de familiares e amigos, de casas, de móveis e de lembranças –, um medo de vivenciar novamente aquele maio é categórico entre todos. A apreensão, conforme relatos de muitos moradores, surge a cada chuva que cai e a cada alerta meteorológico. Recentemente, os avisos sobre a formação de um novo Em Niño intensificaram esse medo.
Marcas da enchente histórico no Centro Histórico de Porto Alegre após 2 anos
| Foto: Alina Souza
Nesse tempo, a população acompanha a reconstrução e aguarda a proteção das suas cidades contra novas cheias. Municípios trabalham em diferentes frentes, com estudos para projetos, execução de grandes obras estruturais, reforço de sistemas já existentes, aquisições de equipamentos e investimentos com recursos a nível federal, estadual e municipal. Muitas dessas frentes, no entanto, dependem de aportes extras, licitações, questões técnicas e outros entraves e, portanto, levam mais tempo para serem concluídas. Com as recentes previsões da chegada do fenômeno climático, as perguntas que ficam são: o que, de fato, mudou em dois anos? O Rio Grande do Sul está preparado?
Placa marcando a cota de inundação da enchente de maio de 2024 no Memorial do Rio Grande do Sul
| Foto: Alina Souza
El Niño no RS
Os prognósticos indicam que o El Niño deverá voltar a influenciar o clima em 2026. O fenômeno ocorre quando as águas do Oceano Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando a circulação da atmosfera. No Rio Grande do Sul, os impactos mais esperados envolvem o aumento de chuvas, que devem ter picos maiores para o final do inverno e o início da primavera. Para o mês de agosto em diante, há de 60 a 70% de probabilidade de estar instalado, trazendo mais riscos de temporais e cheias.
Como explica o climatologista e chefe do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Francisco Aquino, as previsões climáticas dos centros nacionais e internacionais são categóricas: não há dúvidas sobre a configuração do fenômeno. No entanto, não é possível afirmar que se repetirá o que aconteceu em 2023 ou 2024. O que se sabe é que os períodos serão quentes e secos, e a chuva, ao invés de ser distribuída ao longo dos meses, será mais concentrada. “É normal o Sul do Brasil e o Rio Grande do Sul serem impactados com temperaturas acima da média e chuva muito intensa e concentradamente”.
O diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Ufrgs (IPH/Ufrgs), Fernando Fan, faz uma analogia ao explicar as chances de intensificação do fenômeno com dois times em um jogo de futebol: a seca e a enchente. Em uma formação de El Niño, o time da enchente possui um atacante mais forte, com mais chances de ganhar, enquanto o zagueiro da seca é mais fraco. Já em um fenômeno La Niña, o time da seca avança na frente. Em um ano neutro, ambos os times são iguais em habilidade e preparação.
No entanto, independentemente do fenômeno, o resultado do placar não é garantido, já que há muitos fatores em jogo, que podem alterar o final para um lado ou inverso. “De repente, esse El Niño vai ser forte, mas não é garantido exatamente como vai ser o placar. Isso a gente só consegue dizer quando está vendo o jogo acontecer”.
Ao analisar a preparação do Estado para novos eventos extremos, Fan estabelece uma pirâmide com ordem de prioridades. No topo, estão as obras estruturais de proteção. Logo abaixo, as medidas não estruturais, de mapeamento e definição de áreas de risco. Após, a instalação de sistema de alerta e previsão e, logo depois, o levantamento de dados topográficos, com dados de batimetria. Por fim, mas não menos importante, o fortalecimento institucional dos órgãos.
Com os níveis da pirâmide, o especialista aponta um fortalecimento das equipes, com maior capacitação. Também, os avanços em estudos de levantamentos topográficos, além da instalação de equipamentos de emissão de alertas de maneira parcial. Para ele, o que ainda está em aberto são os mapeamentos de áreas inundadas. “Entendo que o mapa de risco que a gente tem hoje não evoluiu muito em relação ao que tinha antes das enchentes, mas porque isso depende da finalização desses levantamentos detalhados”, diz. Em relação às obras, Fan reconhece avanços em projetos, como o dique de Eldorado do Sul, e do reforço do sistema na zona Central de Porto Alegre, mas aponta que a zona Norte ainda carece de reforço.
Porto Alegre corre contra o tempo para reforçar sistema de proteção
Uma das principais infraestruturas urbanas de Porto Alegre, o sistema de proteção contra cheias da Capital, que tinha sido revisto apenas na década de 1960 para evitar eventos como a enchente de 1941, apresentou falhas críticas em 2024: comportas vazaram, diques romperam e diversas casas de bombeamento deixaram de operar, o que permitiu a entrada da água em áreas ocupadas. Com o nível do Guaíba superando sua maior marca, bairros inteiros foram alagados, situação intensificada pela vulnerabilidade de diversas regiões.
Dois anos depois, o sistema ainda passa por processo de reconstrução e adaptação, com investimentos públicos para a qualificação e do fechamento definitivo de comportas. Mesmo que haja avanços no reforço, ainda há pontos vulneráveis que podem trazer riscos diante de previsões de mais chuvas. Porto Alegre investiu, no total, R$ 2,3 bilhões, entre recursos próprios, financiamentos e fundos como o Fundo da Reconstrução (Funrigs) e o Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece), para a reconstrução e melhoria dos sistemas, envolvendo drenagem para as casas de bombas (R$ 1,1 bilhão), arroios e galerias (R$ 600 milhões) e proteção de cheias (R$ 624,1 milhões).
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Dique do Sarandi
Em relação aos diques de proteção, foi concluída a recuperação do Muro da Mauá, a recomposição de pontos frágeis do dique da Assis Brasil e também da Fiergs, cuja estrutura foi elevada à cota de 5,8 metros. Já o dique do Sarandi, na Vila Nova Brasília, zona Norte, teve seu segundo trecho concluído em 20 de janeiro, depois de sete meses de retomada das obras autorizadas pela Justiça. Pouco tempo antes do retorno da recuperação, em junho do ano passado, o dique apresentou uma infiltração e o extravasamento de água deixou moradores apreensivos. Hoje, quem passa pela rua Aderbal Rocha de Fraga consegue ver a estrutura levantada e completada com grama. Neste trecho, onde houve o rompimento em 2024, foi necessário refazer a estrutura por completo, diz o diretor-presidente do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Vicente Perrone. Na área localizada em frente ao campo de Nova Brasília, foi feito o alteamento em 6,10 metros.
Apesar da conclusão dos dois trechos, ainda estão sem prazo para começar os trabalhos no terceiro, entre o ponto de rompimento na enchente de 2024 e na avenida Assis Brasil. Muitas famílias ainda vivem no local e precisam ser remanejadas, mas casas já estão demolidas, enquanto outras, já desocupadas, estão marcadas com um “X”. A desocupação, segundo a prefeitura, é necessária para a continuidade da obra. Equipes do Departamento Municipal de Habitação (Demhab) realizam atendimentos de casa em casa para levantar a situação de cada família que ainda está no local e discutir os encaminhamentos.
Situação da reconstrução e o reforço do dique do Arroio Sarandi, dois anos após a enchente de maio de 2024
| Foto: Alina Souza
Ele explica que o processo de realocação envolve diferentes processos de indenização ou reembolso para as famílias, e muitos casos acabam virando até mesmo processos judiciais. “A gente tem essa dificuldade de contemplação de todos e a gente não pode colocar uma compactação ao lado de uma residência que está em uma estrutura frágil e que tem, muitas vezes, dificuldades, então precisamos que todos sejam realocados. Essa é a grande dificuldade desse tipo de estrutura”, disse. A empresa que fará os trabalhos no terceiro trecho será diferente da contratada para os trechos 1 e 2.
- Casas de Bombas
As estações de bombeamento também passam por melhorias. De acordo com o Dmae, dois lotes de obras, em oito casas de bombas no total, já estão com ordem de início emitida e contrato assinado. Em maio, terá a licitação do terceiro lote, com mais quatro casas de bomba. “A gente já tem 12 das 18 muito bem encaminhadas e finalizando o anteprojeto das demais seis, e a pretende licitar isso entre maio e junho”, disse Perrone. Depois de iniciadas, as obras devem ocorrer em um ano. Ou seja, serão finalizadas apenas em 2027.
Outra frente relacionada à melhoria das estações de bombeamento envolve a implantação de uma linha exclusiva de fornecimento de energia, em parceria com a CEEE Equatorial, para a operação do Dmae, com dupla alimentação, para garantir a operação ininterrupta dos sistemas de drenagem e abastecimento de água. A energia das estações será fornecida por duas fontes diferentes, o que permitirá acionamento automático caso haja problema em um dos alimentadores de energia.
De acordo com Perrone, o primeiro lote de serviços já foi entregue. A previsão é de que, até novembro deste ano, todos sejam. “A gente já vem conversando tecnicamente com os técnicos do Dmae, com a Secretaria Territorial. Esse é um projeto que, por contrato e por determinação, por regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), não pode atrasar. Então, até novembro a gente vai ter todas as linhas dedicadas nas estações de bombeamento do Dmae.”
- Comportas
Das 14 comportas que compõem o sistema de proteção contra cheias, oito devem ser extintas com concreto armado e seis serão móveis, com melhorias. As passagens 3, 5, 7, 8, 10, 13 e 14 foram extintas, enquanto as 1, 2 e 6 passaram por melhorias. Atualmente, quatro portões passam por obras: os de números 4, 9, 11 e 12.
Como detalha Perrone, a comporta 4, localizada entre a avenida Mauá e Sepúlveda, é móvel e está em obras para melhorias de vedação e mobilidade, com conclusão prevista para maio. Os trabalhos passaram por atrasos por conta do South Summit, que ocorreu entre os dias 25 e 27 de março. “Foi pedido para a gente não fazer esse serviço no mês de fevereiro, porque tinha montagem do evento”, justificou. As obras também estão sendo executadas à noite, para que não haja impactos no trânsito. O diretor, porém, salientou que o trabalho é simples, envolvendo troca de trilhos.
A comporta 9, localizada nas proximidades da Estação de Bombeamento de Águas Pluviais (Ebap) Moinhos de Vento, contém interferências específicas que justificam o atraso para a sua conclusão, segundo o diretor-presidente do Dmae. A previsão é que ela tenha a sua concretagem completa também até o final de maio. “A gente tinha, ali, dois cabos de alta tensão da CEEE, duas galerias do próprio Dmae, de captação de água, mais redes da Sulgás, e também da Procentro. Foi uma comporta que teve esse tipo de problema de interferência de outro serviço.”
Obras na comporta 12 do sistema de Proteção contra cheia, em Porto Alegre.
| Foto: Alina Souza
Os trabalhos nas comportas 11 e 12 passaram por uma troca do consórcio que está fabricando os portões. O prazo passado pelo órgão é de que sejam finalizadas em junho. “Com isso a gente finaliza as 14 comportas que deveriam estar prontas nessa época do ano já, mas ainda não estão por questões de engenharia mesmo. Mas a gente tá em vez de finalizar todas elas”.
Além do dique, das comportas e das casas de bomba, Porto Alegre passa por reforços em outros pontos do sistema. Entre eles, está o tamponamento dos condutos forçados, que já era uma reivindicação antiga da população, localizados em pontos da avenida Voluntários da Pátria, da rua Álvaro Chaves e nas proximidades do parque Marinha do Brasil, entre outros pontos. O objetivo é que haja um tamponamento hermético, para que a água seja levada diretamente ao Guaíba sem vínculo com outras regiões dentro do sistema, evitando problemas com chuvas volumosas nos bairros Moinhos de Vento, São Geraldo, Navegantes e Floresta. A previsão é de que os trabalhos sejam concluídos ainda em maio.
Estão sendo planejados, também, outros diques na zona Norte, principalmente na região da Fiergs e da Assis Brasil, com projetos envolvendo a Secretaria Estadual da Reconstrução Gaúcha e recursos do Funrigs e do Firece.

| Foto: Arte: Leandro Maciel
- Obra “emergencial”
Uma solução imediata a ser desenvolvida nos próximos meses, de uma obra considerada “emergencial”, é para o sistema de proteção para a região dos pôlderes (áreas de terra baixas, que foram drenadas e são protegidas por diques) 7 e 8, visando proteger a região do Aeroporto Salgado Filho.
Trata-se do fechamento das galerias do arroio Areia, que leva a água da chuva para o rio Gravataí, com o volume sendo represado na área alagável. Ainda, a construção de um dique no arroio Passo das Pedras, com 100 metros de extensão, entre o curso d’água e o rio Gravataí. O projeto, com investimento de R$ 30 milhões, também compõe a inserção de bombas submersíveis que retiram a água da área alagável para fora do dique, em direção ao Gravataí. Neste mês, deverá ser concluído um parecer que está sendo elaborado pela Procuradoria do Município.
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Proteção para a Zona Sul
A prefeitura também elabora projetos para proteger os bairros Guarujá e Serraria, na zona Sul. A proposta, em fase final de desenvolvimento, visa à construção de um dique de proteção para cada bairro, e uma nova casa de bombas será responsável pela drenagem urbana da região. Os detalhes ainda serão apresentados à população.
Para o Guarujá, está sendo planejada, como solução definitiva, a construção de um parque linear onde, atualmente, está localizado Zeno Simon, com uma nova casa de bomba. A obra terá investimento de R$ 250 milhões, e deverá auxiliar, principalmente, os moradores do entorno e da região entre a Avenida Orleans e o início da Vila dos Sargentos, localizada no bairro Serraria, onde também deverá ser construído um muro.
Questionado sobre o cronograma e os atrasos ao longo do caminho, o diretor-geral do Dmae argumenta que ele está “razoável” dentro das dificuldades do poder público e dos desafios técnicos de conhecimento do sistema e que a cidade está mais preparada do que estava em 2024. “Hoje a gente conhece todo o sistema, com cotas, com fragilidades, com muitas obras que foram finalizadas e muitas que serão finalizadas nos próximos meses. Os recursos estão disponibilizados. Tem uma diretoria de drenagem e proteção de cheias dentro do Dmae com mais de uma centena de servidores, pessoas trabalhando em plano de contingência, em contratações, via registro de preço, preparando materiais para caso tenha qualquer tipo de subida”, diz Vicente Perrone.
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Plano para as Ilhas
A região das Ilhas, por ser uma área de preservação permanente (APP) e de proteção ambiental, não tem um sistema de proteção. A prefeitura tem feito uma cooperação com a Universidade Técnica de Delft (TU Delft), dos Países Baixos, para desenvolver um plano urbanístico sustentável para o território, baseado em riscos e de maneira que os moradores possam ser realocados para locais mais seguros. Neste momento, está sendo elaborado o plano de ação operacional para as pessoas que permanecem nas ilhas.
Com tantas casas destruídas pela inundação, muitas famílias ainda tentam conseguir uma moradia. No RS, milhares aderiram ao programa Compra Assistida, do governo federal, da modalidade Reconstrução do Minha Casa, Minha Vida. O programa oferece até R$ 200 mil para compra de imóveis por famílias que perderam suas casas, sem financiamento ou prestações. Até o momento, 12.467 delas já estão com as chaves na mão, enquanto 13.383 aguardam recebê-las.
Dois anos depois da enchente de maio de 2024, no bairro Arquipélago, em Porto Alegre
| Foto: Alina Souza
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Moradias
O Estado forneceu moradias temporárias ou definitivas para desabrigados. No total, foram 625 unidades temporárias construídas em 10 municípios. No entanto, segundo o governo, cerca de 500 famílias ainda vivem em casas temporárias. Pelo programa A Casa é Sua – Calamidade, foram entregues 176 moradias definitivas em seis municípios (Encantado, Feliz, Muçum, Nova Bréscia, Salvador do Sul e Santa Tereza), e 2.723 unidades autorizadas em 56 municípios.
Moradores de Passo da Estrela, bairro do município de Cruzeiro do Sul que foi inteiramente destruído pela enchente, serão realocados para uma área a ser reconstruída do zero. No local, haverá 150 casas e 174 lotes, com dez áreas de recreação e duas de preservação, além de quatro áreas institucionais com escola, igreja e mata nativa. A previsão é de que o anúncio da assinatura do contrato ocorra em breve e a entrega das casas comece em dezembro deste ano.
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Em rios e arroios
Até o momento, foram retirados 7 milhões de metros cúbicos de sedimentos de rios e arroios. Foram 145 municípios com trabalhos de desassoreamento concluídos, sendo 56 com frentes de serviço em operação e 31 com início “nos próximos meses”, como informou o governo do Estado. A dragagem hidroviária do Guaíba retirou 2,4 milhões de metros cúbicos e há expectativa de mais 1,8 milhão a ser dragado.
A batimetria, que consiste no levantamento para avaliar a profundidade de relevos submersos e identificar pontos críticos de acúmulo de sedimentos, foi analisada na região de Eldorado do Sul, Jacuí, Ilha das Flores, Ilha Grande dos Marinheiros, Navegantes e Guaíba.
Segundo o Estado, o levantamento atual comparado ao histórico, indica “tendência de estabilidade na profundidade do leito nos pontos analisados”. Com a batimetria, é possível analisar os impactos de eventos climáticos extremos na dinâmica de sedimentos e assoreamento (após validação dos dados batimétricos).
Região metropolitana avança em projetos e aguarda outros
- Eldorado do Sul
Desde a enchente de 2024, o município já realizou melhorias em diferentes pontos para proteger o município das cheias. Entre eles, está a troca da tubulação da drenagem pluvial em pontos que registravam alagamentos e contavam com tubos estreitos e fluxo lento da água. Foram construídas, também, galerias no bairro Picada para aumentar a velocidade de vazão da água que ficava represada. Ainda, o desassoreamento de canais e arroios internos do município.
A cidade também conta, desde a metade do ano passado, com um novo sistema para a medição do Guaíba e do rio Jacuí, para facilitar na precisão de informações e previsão de cheias. O sistema é composto por uma estação meteorológica, quatro sensores de lâmina d’água, como conjunto de réguas que compõem o complexo dos corpos hídricos, e dois sensores de alagamento. O município também foi contemplado com mais uma estação meteorológica, entre as 130 que começaram a ser instaladas pelo Estado desde outubro do ano passado.
No entanto, o que os moradores do município mais aguardam é a construção do dique. A atualização do anteprojeto de sistema de proteção contra cheias da cidade, anunciado mais de um ano depois da enchente, em agosto do ano passado, com investimento de R$ 3,8 milhões, ainda está em fase de atualização. Em janeiro deste ano, o governador Eduardo Leite havia informado que deveria ser concluído em março deste ano. No entanto, deve ser concluído neste mês. As obras na estrutura, que deverá ter um traçado de 8,6 metros, pode começar apenas em 2027.
Em janeiro deste ano, também foi assinado o contrato para o estudo de viabilidade da Fase 2 do dique, para proteger os bairros e áreas historicamente mais vulneráveis aos impactos das enchentes, como no bairro Sans Souci. O estudo é custeado pelo governo do Estado, por meio do programa Fundo a Fundo da Reconstrução, no valor de R$ 112 mil.
- Alvorada
Alvorada passa por obras de micro e macrodrenagem para minimizar os recorrentes alagamentos no município. Foi publicado, em outubro do ano passado, o edital para contratação da empresa na atualização do anteprojeto de engenharia do sistema da cidade, para proteger 10 bairros. O município também busca recursos para as obras de macro e micro drenagem. Há um projeto protocolado junto ao governo do Estado para utilizar recursos do Funrigs, cerca de R$ 120 milhões, para ampliar esse sistema de proteção.
Há, também, a elaboração dos projetos para o dique que será parte do sistema de proteção do Arroio Feijó. “A gente sabe que é uma obra grande, uma obra complexa, uma obra bilionária. Está orçada em 2,5 bilhões de reais, mas a gente entende que essa obra que irá resolver o problema. A nossa expectativa e a nossa construção junto ao governo do Estado é que, o quanto antes, ela saia do papel e se torne vida real e a gente possa virar essa página triste na história de Alvorada, que é a questão das enchentes”, disse o prefeito do município, Douglas Martello.
- São Leopoldo
A cheia do Rio dos Sinos deixou mais de 80% de São Leopoldo desabrigado ou desalojado. Dois anos depois, de acordo com a prefeitura, o município tem trabalhado em desassoreamento, desobstrução e conserto de bocas de lobo e da rede pluvial, além da manutenção do sistema de contenção de cheias. Dos trabalhos já concluídos, parte do sistema para o Sinos, estão o alteamento do dique, com elevação que chega a 1,5 metro. Foram cerca de 300 quilômetros de dutos desobstruídos e cerca de 700 bocas de lobo trocadas e limpas. As casas de bombas, revitalizadas, já estão em funcionamento. Além disso, foram adquiridas bombas modernas, instaladas no bairro Campinas e na Vila Brás. Mais uma será construída na região Nordeste, com uma vala de drenagem, e no bairro Santos Dumont. A licitação deve ocorrer ainda neste mês.
A principal demanda pendente, segundo o prefeito Heliomar Franco, está na ampliação do muro de 400 metros de contenção do arroio Cerquinha, parte do sistema para o bairro Campinas. A estrutura foi construída antes dos diques e, por ser mais baixa, foi o primeiro lugar que a água passou. “Estamos em tratativas com o governo federal, que vai financiar essa obra com verba do Funrigs. E precisa de laudos técnicos que estão sendo concluídos para a gente iniciar efetivamente a execução dessa obra, que é o que falta para nivelar na mesma altura todos os sistemas de proteção. Tem que ficar pronto antes de junho, essa é a nossa projeção”, disse o prefeito. Os laudos geotécnicos apontarão se será necessário fazer um muro novo para reforçá-lo.
- Canoas
Canoas tem doze ações de proteção contra cheias, e o município já foi contemplado com seis. O montante total de obras para proteção de cheias é de R$ 600 milhões. No final de abril, foi entregue o Muro da da Cassol, conhecido como primeiro trecho do dique Rio Branco, local onde começou a inundação no município em 2024. O terceiro trecho do Rio Branco deverá ser entregue em agosto. O segundo, com maior complexidade, ficará pronto apenas em 2027.
O dique da Mathias Velho, em um dos bairros mais atingidos pela cheia, e o trecho dois do dique Niterói deverão ser concluídos até setembro. Há, também, o dique Araçá, no bairro Mato Grande, que está sendo aportado por recursos do próprio município, de R$ 80 milhões, com conclusão prevista para junho de 2027. Por fim, o dique São Luis, com recursos do Firece, que ainda deverão ser feitos estudos que compõem os projetos para a bacia do Sinos.
Casa de bombas 8, no bairro Mathias Velho, em Canoas
| Foto: Alina Souza
Projetos do governo estadual
As obras anteriormente citadas estão envolvidas nos projetos que compõem o Rio Grande do Sul, parte do Plano Rio Grande, que foi estruturado para as ações de reconstrução e resiliência do Estado. Para cada bacia que compõe o estado, estão em andamento atualizações de anteprojetos do Sistema de Proteção Contra Cheias, com estudos ambientais. Confira, abaixo, a situação de cada projeto e os prazos para conclusão das principais bacias:
- Bacia do Rio Gravataí
Projeto: Sistema de Proteção Contra Cheias e minimização do efeito de estiagem, com complementação e atualização dos anteprojetos e estudos ambientais (elaboração do anteprojeto por 13 meses). Abrange os municípios de Porto Alegre, Cachoeirinha e Gravataí.
Valor: R$ 450 milhões
Situação: Documentação para licitação em fase de finalização. A próxima etapa será a publicação de edital, prevista para agosto de 2026.
Conclusão da obra: dezembro de 2031.
- Arroio Feijó
Projeto: Para o Arroio Feijó, que compreende os municípios de Alvorada e Porto Alegre, estão sendo viabilizadas obras para dique, casas de bombas e canais para proteger as áreas. A proteção será de 14 bairros (sendo 10 em Alvorada e 4 em porto Alegre)
Valor: R$ 2,5 bilhões
Situação: processo de habilitação das licitantes, com previsão de entrega dos anteprojetos para março de 2027.
- Bacia do Rio dos Sinos
Projeto: Sistema de Proteção Contra Cheias, com complementação e atualização dos anteprojetos e estudos ambientais (elaboração do anteprojeto por 13 meses)
Valor: R$ 1,9 bilhão
Situação: documentação para licitação em fase de finalização. A próxima etapa será a publicação de edital, prevista para agosto de 2026
Conclusão da obra: dezembro de 2031.
- Bacia do Rio Caí
Projeto: Sistema de Proteção Contra Cheias, com complementação e atualização dos anteprojetos e estudos ambientais (elaboração do anteprojeto será de 12 meses, e os estudos ambientais, 20 meses), abarcando as cidades de Montenegro, São Sebastião do Caí, Harmonia, Pareci Novo e outros
Valor: R$ 14,5 milhões, com R$ 7,5 milhões para os estudos e elaboração do anteprojeto
Situação: documentação para licitação em fase de finalização. A próxima etapa será a publicação de edital, prevista para junho. A conclusão dos anteprojetos e estudos ambientais será em julho de 2029.
- Bacia do Rio Taquari – Antas
Projeto: Sistema de Proteção Contra Cheias, com desenvolvimento de anteprojetos e estudos ambientais
Valor: R$ 8,5 milhões
Situação: em julgamento das propostas, com previsão de homologação da licitação em junho.
Defesa Civil reforçada para lidar com desastres
Um dos maiores avanços para se lidar com os desastres foi na prevenção. Foi aprovada a política estadual estruturada da Defesa Civil, decreto que regulamenta o Conselho Estadual de Proteção da Defesa Civil. O órgão, que em 2023 contava com 42 servidores estaduais e militares, agora tem 131, somando 32 técnicos também contratados pelo Estado. Houve reforço ainda no número de veículos, embarcações e caminhões.
Em relação à gestão de risco, foram contratados três radares meteorológicos de dupla polarização, em Pelotas, Alegrete e Soledade, que irão se somar ao já instalado na Capital, para permitir um monitoramento com cobertura de todo o território e atualização dos dados em poucos minutos. No entanto, eles ainda não foram instalados.
Foi criada, também, uma rede própria de estações hidrometeorológicas, com 130 novas estações, e planos de contingência municipal em 497 municípios.
Recentemente, o órgão, em conjunto com a organização não governamental ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, alinhou um plano de trabalho para criar o Plano Estadual de Proteção e Defesa Civil, instrumento de aperfeiçoamento da governança estadual de riscos e desastres, que deve orientar a atuação do Estado em todas as fases do ciclo de gestão de desastres. A organização é responsável pela elaboração do plano, que teve contrato assinado em março pelo governador Eduardo Leite. O plano deve ser desenvolvido em 12 meses.
Outro destaque do órgão foi a criação do Centro Estadual de Gestão Integrada de Riscos e Desastres (Cegrid), responsável por coordenar as ações de Proteção e Defesa Civil em nível estadual, para centralizar a coordenação das ações em momentos de crise.
Em março também foi anunciada a criação da Secretaria de Estado de Proteção e Defesa Civil. A pasta passará a representar o Estado entre os atores do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, atuando nas fases de prevenção, mitigação, preparação, resposta e reconstrução.
Questionado sobre o cronograma de obras de reconstrução e de preparação, Pedro Capeluppi, titular da Secretaria de Reconstrução Gaúcha, destacou que elas possuem entregas de médio prazo, como obras em rodovias e habitacionais, e outras de longo. Em relação às elaborações e atualizações de estudos de anteprojetos, Capeluppi argumenta que todas as etapas passam pelo cumprimento de questões técnicas. “As etapas estão sendo cumpridas, mas são etapas que exigem essa discussão técnica e têm o seu tempo para serem feitas. Não é algo que está na prateleira para você contratar. Sempre que você fala em sistema de proteção, está falando com um sistema hídrico, o que você faz aqui num ponto, afeta outro ponto.”
“Desde 2024, o Estado vem se preparando, e fez todas as ações necessárias e possíveis para lidar melhor com eventos dessa natureza. Estamos falando de ações estruturais, no caso dos sistemas de proteção, principalmente os existentes, e da capacitação e do aparelhamento da Defesa Civil. Hoje o Estado está muito mais preparado do que estava nos eventos de 2023, de setembro e novembro e no evento crítico de 2024”, disse.
Em coletiva de imprensa no dia 24 de abril, Leite afirmou que o Estado está trabalhando forte. “Ainda que não seja possível ter clareza absoluta do que venha a ocorrer, em qual gravidade esses eventos possam acontecer, posso garantir que o Estado está trabalhando forte na preparação, considerando todos os cenários que a ciência nos permite prever”, declarou.