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IA corporativa além do hype: o que Madrid ensina sobre governança, confiança e ERP

Fonte: robertodiasduarte.com.br | Data: 28/05/2026 08:12:08

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IA corporativa além do hype: o que Madrid ensina sobre governança, confiança e ERP

O SAP Sapphire Madrid Customer Keynote deixou uma mensagem mais madura do que a habitual corrida por anúncios de IA: no ambiente corporativo, valor não nasce do número de agentes, mas de como eles são governados, onde entram nos processos e se as pessoas confiam neles o suficiente para usá-los no trabalho diário. Para CIOs, líderes de transformação e donos de processo, isso desloca a conversa da tecnologia pela tecnologia para execução operacional.

Essa mudança importa porque o mercado já saiu da fase em que bastava prometer automação. As empresas agora precisam decidir quais casos de uso merecem investimento, como conectar IA ao ERP sem ampliar complexidade e como transformar pilotos em rotina. Em Orlando, segundo o material de referência, a ênfase estava em prontidão, fundação de dados e padronização. Em Madrid, a conversa avançou para governança, human-in-the-loop, clean core, propriedade de negócio e mensuração de valor.

Também há um ponto de cautela: boa parte do que foi apresentado vem da própria SAP e de clientes convidados ao palco. Isso não invalida os casos, mas exige leitura crítica. Métricas como 85.000 usuários ativos, ganho de 5% a 7% em produção, 2 semanas para uma demonstração e redução de 11 a 13 minutos em busca de informação devem ser tratadas como resultados atribuídos a contextos específicos, não como benchmarks universais.

Além da Inovação: O Imperativo da Governança na IA Corporativa

A tese central da keynote foi que IA corporativa escalável depende de governança robusta. Manos Raptopoulos, presidente global da SAP para Customer Success em várias regiões, recolocou a governança no centro ao afirmar que o blueprint de empresa autônoma da SAP depende de agentes que possam ser observados, rastreados, medidos e controlados. Em termos práticos, isso significa que a empresa precisa entender o que o agente fez, reconstruir o caminho de uma decisão, medir o efeito gerado e definir quando a autonomia pode aumentar ou quando a aprovação humana continua obrigatória.

Esse ponto é mais importante do que parece. Em ambiente de ERP, um agente não atua no vazio: ele toca pedidos, manutenção, atendimento, tributos, dados de funcionários e decisões operacionais. Sem observabilidade e rastreabilidade, a promessa de produtividade pode virar problema de auditoria, compliance ou confiança interna. Sem medição, a empresa não consegue separar ganho real de impressão de ganho. Sem controle, o risco é automatizar uma etapa crítica sem clareza sobre limites, exceções e responsabilização.

Por isso, Madrid reposicionou a conversa sobre IA. Em vez de apresentar agentes como fim em si mesmos, a SAP e os clientes sugeriram que cada caso de uso precisa de um modelo operacional: quem é o dono do agente, que decisão ele influencia, quais dados usa, que resultado será acompanhado e em quais momentos o humano precisa intervir. Para líderes de TI, isso aproxima a governança de IA da governança clássica de processo, dados e risco, em vez de tratá-la como uma camada separada de inovação.

O conceito de agentes verificados também apareceu nesse contexto. Segundo a SAP, isso inclui agentes desenvolvidos sob controles certificados ISO e desenhados para apoiar expectativas de auditoria quando interagem com dados sensíveis de negócio. É uma formulação importante, mas ainda incompleta com o material disponível. O briefing não traz metodologia detalhada, alcance técnico nem demonstração de que essa definição corresponda a um padrão amplamente aceito no mercado. A leitura mais responsável, portanto, é tratá-la como um claim de confiança e auditabilidade da SAP, não como uma categoria universalmente estabelecida.

Esse cuidado evita um erro comum em projetos de IA: confundir sofisticação tecnológica com prontidão operacional. Um ERP orientado por agentes exige menos deslumbramento e mais disciplina. Se o negócio não definiu critérios de uso, trilha de decisão, métricas e supervisão, a escalabilidade tende a ficar comprometida mesmo quando a tecnologia funciona.

Modernização e IA: Duas Faces da Mesma Moeda para o ERP

O segundo grande aprendizado de Madrid é que modernização de ERP e entrega de IA precisam seguir o mesmo roteiro. A mensagem da keynote foi clara: IA não deve ser um programa isolado rodando em paralelo à transformação do core transacional. Ela depende da qualidade de processos, do grau de padronização, da arquitetura de extensões e da disciplina para não reintroduzir complexidade no ERP enquanto a empresa tenta ganhar velocidade com novos casos de uso.

A Fonterra foi o exemplo mais direto dessa lógica. Toby Granwal, CIO da cooperativa neozelandesa, descreveu a migração para SAP S/4HANA via RISE with SAP como algo maior do que um upgrade tecnológico. Segundo ele, o objetivo é abandonar formas excessivamente customizadas de trabalho, voltar ao padrão, simplificar operações e estabelecer processos mais consistentes. Isso ajuda a entender por que clean core aparece tanto no discurso da SAP: sem simplificação do núcleo, a IA corre o risco de ser construída sobre exceções, remendos e dados pouco confiáveis.

Ao mesmo tempo, a Fonterra não está esperando o fim da jornada para entregar valor. A empresa já opera dois locais de fabricação e um mercado no novo ambiente enquanto segue com a transformação mais ampla. Essa combinação é relevante para quem lidera programas de ERP: a lição não é paralisar a IA até que toda a modernização termine, mas integrá-la à sequência real de migração, padronização e adoção.

Granwal também afirmou que a escolha por clean core foi deliberada e apoiada pela CEO e pelo conselho, e que o SAP BTP entra como plataforma para extensões e inovação. A implicação prática é importante. Se o core transacional deve permanecer mais limpo e padronizado, a inovação com IA tende a depender de uma camada bem definida para integrações, extensões e experimentação controlada. A SAP vende isso como fundação para uma IA confiável; o ponto analítico aqui é que a fundação realmente importa, mesmo que o evento não tenha detalhado custos, trade-offs de arquitetura ou esforço de governança necessário para sustentar esse desenho.

A própria Fonterra mostrou como ligar essas peças ao negócio. Em vez de partir de um catálogo de possibilidades, reuniu SAP, donos de negócio, donos de processo e parceiros para decidir onde havia valor real e quais casos estavam prontos para deployment. O resultado, segundo o material, já aparece em áreas como aplicação de caixa, recomendações de ordens de manutenção e planejamento conversacional em gestão de transportes. Não há ROI detalhado no briefing, mas há um ensinamento sólido: a priorização de IA precisa sair da lógica de laboratório e entrar na lógica de portfólio operacional.

A Ericsson reforçou o mesmo raciocínio por outro caminho. A empresa afirmou ter 85.000 usuários ativos no Joule unificado, resultado que atribui a patrocínio executivo, governança e investimento antecipado em estratégia de dados. O caso é relevante menos pelo número isolado e mais pelo encadeamento que ele sugere: escala não viria apenas da interface de IA, mas de produtos de dados reutilizáveis e governados capazes de sustentar múltiplos casos de uso. Em paralelo, a Ericsson descreveu dois trilhos: modernização contínua por RISE with SAP com princípios de clean core, e inovação para levar casos de IA à execução operacional.

O exemplo citado foi uma capacidade relacionada a HCM, desenvolvida com a SAP, para recomendações inteligentes de função. A utilidade, segundo a narrativa do evento, está em conectar empregados à estratégia mais ampla enquanto reduz esforço manual. De novo, a lição para o leitor é menos sobre a funcionalidade específica e mais sobre o desenho do programa: modernizar o ERP, governar os dados e operacionalizar IA são movimentos interdependentes.

O Fator Humano: Construindo Confiança e Impulsionando a Adoção da IA

Se a governança organiza o risco, a confiança define a adoção. Madrid foi explícita ao mostrar que a IA só entra no fluxo diário quando o usuário entende de onde vêm os dados, o que a recomendação está propondo e qual resultado esperar. Essa ênfase tira a discussão da camada abstrata de modelos e a leva para o ponto de trabalho, onde um técnico, um atendente ou um servidor público decide se vale a pena seguir a sugestão da máquina.

O caso da RWE ilustra bem esse ponto. Frank Scholtka, diretor de operações offshore da empresa no Reino Unido, descreveu um cenário em que erro operacional custa caro: manutenção de turbinas eólicas no mar, com deslocamento por embarcação, clima adverso e janela limitada para intervenção. Nesse contexto, a IA ajuda a equipe a se preparar antes da viagem, recomendando prováveis caminhos de falha, ferramentas, equipamentos, software e documentação. O valor de negócio é direto, porque uma turbina indisponível pode ficar parada por dias se as condições piorarem.

Mas a lógica de adoção apresentada por Scholtka é ainda mais importante do que o caso em si. Segundo ele, a IA apoia decisões de engenheiros, coordenadores de manutenção e técnicos; ela não os substitui. Os usuários conhecem a origem dos dados, contribuem para esses dados e recebem feedback sobre a utilidade da recomendação. Em ambientes industriais focados em segurança, essa transparência não é detalhe de experiência do usuário: é condição de uso.

A Cidade de Madri levou a mesma discussão para o setor público. Juan Corro, gerente geral de informática do município, argumentou que a administração pública tem uma base favorável para IA porque opera por regras e regulamentos, o que cria fronteiras mais claras para o uso da tecnologia. A cidade começou por casos internos antes de avançar para serviços voltados ao cidadão. Depois da migração de receita e impostos de sistemas legados para o SAP Tax and Revenue Management, Corro afirmou que o município atingiu um recorde histórico de eficiência fiscal.

O exemplo mais concreto, porém, veio do suporte tributário de linha de frente. Segundo Corro, funcionários podiam gastar de 11 a 13 minutos procurando informação em múltiplos sistemas e telas para um caso específico. Quando um protótipo com suporte de IA foi mostrado, a reação foi imediata porque ele atacava uma dor visível. A lição é simples e poderosa: quando a IA remove atrito perceptível do trabalho, a gestão da mudança deixa de depender só de comunicação institucional e passa a ser puxada pela utilidade.

A Fonterra acrescentou outra camada essencial ao debate: o problema mais difícil não seria a tecnologia, mas fazer usuários adotarem e incorporarem novos modos de trabalhar no dia a dia. Nesse raciocínio, ferramentas como o WalkMe ganham importância por ajudar funcionários a navegar processos novos e formar hábitos. Em outras palavras, confiança não nasce apenas de boa governança; ela também depende de desenho de processo, suporte no ponto de uso e mudança organizacional persistente.

Lições de Campo: Casos de Sucesso e Estratégias Acionáveis

Lidos em conjunto, os casos apresentados em Madrid sugerem um padrão: a IA corporativa escala quando começa por uma dor operacional clara, é conectada ao programa de modernização e entrega algum nível de transparência suficiente para o usuário agir com segurança. Eles não provam que qualquer empresa obterá o mesmo resultado, mas ajudam a separar narrativa de execução.

Caso Problema ou foco Abordagem apresentada Evidência citada Limitação de evidência
Ericsson Levar IA além de pilotos e conectá-la a operações e estratégia de produto Joule unificado, governança, produtos de dados governados, priorização por impacto e viabilidade, modernização com clean core em paralelo A empresa afirmou ter 85.000 usuários ativos no Joule e citou um caso de recomendações inteligentes ligado a HCM Não há metodologia pública no material para definir usuário ativo, ganho operacional ou ROI
EssilorLuxottica Atendimento ao cliente e operações com wearables Demonstração com óculos inteligentes conectados ao Joule, fala, integrações SAP, disponibilidade de loja e inventário SAP e EssilorLuxottica disseram ter montado o caso em cerca de 2 semanas Trata-se de uma demonstração; o material não detalha rollout, escala ou resultado em produção
Fonterra Modernizar ERP sem interromper entrega de valor S/4HANA via RISE with SAP, clean core, SAP BTP para extensões, seleção conjunta de casos de IA Dois locais de fabricação e um mercado já operam no novo ambiente; usos em caixa, manutenção e transportes Não há métricas detalhadas de produtividade, custo, payback ou adoção
RWE Preparação de manutenção offshore com alto custo de erro IA recomenda falhas prováveis, ferramentas, equipamentos, software e documentação antes da viagem O caso foi apresentado como apoio direto à disponibilidade do ativo e à geração de energia Não foram informados números públicos de ganho, tempo economizado ou taxa de acerto
Prysmian Group Escalar inovação industrial em rede global de fábricas IA embarcada para precificação, previsão, time-to-market de engenharia, parâmetros de máquinas e criação de pedidos Giovanni Cauteruccio afirmou que a empresa opera 109 plantas, com 99 em um único sistema RISE, e relatou ganho de 5% a 7% de produção em um contexto de fábrica de cabos A métrica foi apresentada para um contexto específico; faltam duração, amostra e replicabilidade
Cidade de Madri Reduzir atrito no suporte fiscal e modernizar administração tributária SAP Tax and Revenue Management e protótipo de IA para localizar informação mais rápido Juan Corro relatou redução de 11 a 13 minutos no tempo de busca e afirmou melhora recorde em eficiência fiscal após a modernização O material não detalha metodologia, escala do protótipo nem isolamento do efeito da IA

O que os casos sugerem para CIOs e donos de processo

  1. Comece pela dor do negócio, não pela tecnologia. Ericsson foi explícita ao dizer que parte do problema e do valor mensurável antes de escolher a solução. Esse filtro ajuda a evitar pilotos interessantes, mas pouco relevantes.
  2. Trate IA e ERP como um único programa de execução. A experiência da Fonterra mostra que decisões de clean core, S/4HANA, RISE with SAP, SAP BTP e padronização de processo condicionam a viabilidade da IA.
  3. Defina governança antes de ampliar autonomia. Cada agente precisa de dono, trilha de decisão, métrica de resultado e regra clara para intervenção humana. Sem isso, a promessa de escala tende a virar risco operacional.
  4. Projete para confiança e adoção. RWE e Cidade de Madri mostraram que transparência de dados e resolução de atrito visível aumentam a disposição do usuário de incorporar a IA ao trabalho real.
  5. Diferencie demonstração, piloto e operação em produção. O caso da EssilorLuxottica é útil para mostrar integração rápida e complexidade de back-end, mas não deve ser lido como prova de escala consolidada.

Onde a evidência ainda é insuficiente

  • O material disponível não traz ROI detalhado, custos de implementação, payback ou esforço de manutenção dos casos apresentados.
  • O conceito de agentes verificados foi descrito pela SAP em termos de confiança, ISO e auditoria, mas sem metodologia suficiente para avaliar escopo, critérios e comparação com práticas de mercado.
  • Parte dos exemplos representa demo, protótipo ou resultado contextual. Isso vale especialmente para as 2 semanas da EssilorLuxottica e para a redução de 11 a 13 minutos na Cidade de Madri.
  • Mesmo quando há métrica, ela costuma estar limitada a um recorte específico, como o ganho de 5% a 7% na Prysmian em um contexto de fábrica de cabos.
  • Como a narrativa depende fortemente de fornecedor e clientes no palco, ainda falta validação independente para generalizar conclusões.

O que monitorar a partir daqui

  • Nova documentação oficial da SAP sobre agentes verificados, Joule, RISE with SAP e SAP BTP.
  • Eventual publicação de transcrição ou gravação mais completa do customer keynote.
  • Correções ou detalhamentos de números, nomes e escopo dos casos apresentados.
  • Indícios de rollout em produção mais ampla, com metodologia de medição mais clara.
  • Contrapontos independentes que permitam separar melhor marketing de evidência operacional.

Glossário rápido:

  • Agente autônomo: software que executa tarefas ou recomenda decisões com algum grau de autonomia dentro de um processo.
  • Clean core: estratégia de manter o ERP mais padronizado, evitando recriar complexidade histórica no núcleo transacional.
  • RISE with SAP: oferta de modernização e transição para SAP S/4HANA com foco em transformação do ambiente ERP.
  • SAP BTP: plataforma usada para extensões, integração e inovação sem sobrecarregar o core.
  • Joule: interface e camada de interação de IA da SAP mencionada nos casos apresentados.
  • Human-in-the-loop: desenho em que pessoas supervisionam, validam ou aprovam etapas críticas antes de ampliar a autonomia.
  • Agentes verificados: termo usado pela SAP para agentes desenvolvidos sob controles voltados a confiança e auditoria; o alcance exato ainda requer mais detalhamento.

Checklist: Sua empresa está pronta para a IA operacional?

  • Existe um dono de negócio claro para cada caso de uso de IA?
  • Os dados e processos críticos já têm governança suficiente para observabilidade e rastreabilidade?
  • O roadmap de IA está conectado à modernização do ERP, ao clean core e às extensões necessárias?
  • Há métricas operacionais definidas para medir resultado, não só atividade ou uso?
  • Os usuários entendem de onde vêm os dados e quando precisam validar a recomendação?
  • O caso de uso remove atrito visível do trabalho cotidiano?
  • Há plano de adoção e mudança organizacional, e não apenas plano de implementação técnica?

O sinal mais relevante de Madrid talvez seja este: a IA corporativa está deixando de ser julgada pelo brilho da demonstração e passando a ser julgada pela qualidade do modelo operacional que a sustenta. Isso é um avanço para o mercado, porque obriga fornecedores e clientes a falar menos de promessa abstrata e mais de responsabilidade, processo, dados e confiança.

Para CIOs, líderes de TI e donos de processo, o passo mais sensato não é correr atrás de um catálogo maior de agentes. É escolher poucos casos com dor explícita, valor mensurável e aderência ao roadmap de ERP; definir governança desde o início; e tratar adoção como parte do produto, não como etapa posterior. Se há uma lição consistente nos casos de Ericsson, EssilorLuxottica, Fonterra, RWE, Prysmian e Cidade de Madri, é que tecnologia isolada não escala. Governança, integração e confiança, sim, podem colocar a IA em operação de verdade.

Fontes