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O ralo do SUS, a fragilidade dos capacetes e o alerta para as madrugadas juninas – Blog do Garrone

Fonte: garrone.com.br | Data: 31/05/2026 12:52:55

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Estamos iniciando hoje uma série especial de reportagens dedicada a destrinchar um dos maiores gargalos estruturais, econômicos e de saúde pública do Brasil e, muito especialmente, do Maranhão: a escalada contínua dos acidentes envolvendo motocicletas. A escolha deste momento para o lançamento do material não é aleatória. Com o acender das fogueiras e a abertura da temporada junina, o Nordeste e o Maranhão entram no período de maior fluxo viário noturno do ano. Historicamente, as estatísticas nacionais e os registros das polícias rodoviárias comprovam que o bimestre de junho e julho concentra a maior incidência de acidentes graves em duas rodas. No cenário nacional, a taxa média brasileira já preocupa, orbitando 5,7 mortes para cada 10 mil habitantes. No Maranhão, onde a motocicleta se popularizou a ponto de compor quase 60% de toda a frota automotiva estadual, esse índice dispara para alarmantes 11,2.

Os números são incontestáveis e formam uma radiografia do colapso. O período junino condensa a tempestade perfeita: deslocamentos noturnos em rodovias mal iluminadas, a letal cultura do “bate-volta” regada a álcool e a precarização do transporte. O reflexo disso bate à porta do Sistema Único de Saúde. Apenas no bimestre de festas do último ano, estima-se que mais de 1.100 vítimas graves de acidentes de moto deram entrada nos hospitais maranhenses.

O custo dessa omissão generalizada é astronômico. Enquanto os poderes públicos lavam as mãos na fiscalização preventiva, os cofres públicos sangram. São quase R$ 10 milhões torrados apenas em diárias de UTI, cirurgias ortopédicas e neurológicas de alta complexidade. Na outra ponta da tragédia, a Previdência Social (INSS) assume um passivo que ultrapassa os R$ 51 milhões em pensões por morte, auxílios-doença e aposentadorias por invalidez precoce.

O objetivo fundamental desta série não é fazer acusações ou apontar o dedo para o governo A ou governo B, mas sim chamar a atenção de toda a sociedade e do poder público para a construção conjunta e urgente de soluções. Precisamos enfrentar os dados reais e estruturar políticas públicas antes que as macas dos hospitais fiquem lotadas.

O primeiro e mais grave reflexo dessa epidemia viária é o gigantesco ralo financeiro aberto no Sistema Único de Saúde (SUS). O aumento do fluxo nas madrugadas festivas multiplica os casos complexos de Traumatismo Cranioencefálico (TCE) severo. O impacto dessas internações prolongadas em UTIs neurológicas gera um efeito dominó doloroso: para dar conta de salvar as vidas que chegam das rodovias e avenidas, a rede pública precisa paralisar as cirurgias eletivas, penalizando milhares de cidadãos que aguardam meses por procedimentos médicos. Para agravar o cenário, essa conta tornou-se muito mais pesada para o orçamento do Estado e dos municípios com a extinção dos antigos moldes do seguro DPVAT, que antes repassava automaticamente 45% de sua arrecadação bilionária direto para o caixa da saúde focado no trauma.

Ao longo desta série, demonstraremos que a gravidade expressiva desses traumas cranianos está intimamente ligada a uma questão técnica e de mercado: o equipamento de proteção. Vamos aprofundar o debate sobre o capacete de plástico injetado (ABS) — um item que, embora seja permitido por lei e possua o selo básico do Inmetro, oferece proteção apenas para impactos laboratoriais mínimos, falhando e rachando em colisões de alta energia nas vias reais.

Mais do que mostrar o problema, nossa intenção é apresentar saídas financeiramente inteligentes. Detalharemos como a transição da classe de trabalhadores sobre duas rodas para os capacetes de fibra de carbono ou tricompósitos pode estancar o ralo do SUS. Demonstraremos que há caminhos institucionais viáveis, como a utilização de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública, para estruturar um financiamento que proteja a vida do cidadão e gere uma economia brutal para a saúde e a previdência.

Iniciamos hoje este esforço investigativo e propositivo exatamente para jogar luz sobre o tema enquanto os tambores começam a tocar e ainda há espaço para prevenção. O nosso alerta público está sendo feito agora. Ao final da temporada junina, voltaremos a este espaço para apresentar a “conta” consolidada: o retrato final das internações, os gastos gerados no SUS e o impacto nas UTIs maranhenses. O balanço estatístico revelará se conseguimos, como sociedade, frear a curva. Os números dirão a verdade e, quando essa fatura for apresentada no fim do mês, teremos a certeza de que não foi por falta de aviso.