Baixar Notícia
WhatsApp
Email

As culturas do Brasil que ainda precisam ser vistas pela grande imprensa – Revista Fórum

Fonte: revistaforum.com.br | Data: 03/06/2026 21:30:00

🔗 Ler matéria original

Opinião

Mais de 16 mil Pontos e Pontões de Cultura certificados pelo Ministério da Cultura estão hoje em atividade no país. Juntos, realizam cerca de 80 mil atividades culturais gratuitas por mês em seus territórios

Cultura
– Giba/ Minc

00:00


Modo claro


Modo escuro

A+
A-

  • Mais de 16 mil Pontos e Pontões de Cultura certificados pelo Ministério da Cultura atuam no Brasil, gerando cerca de 1 milhão de ações anuais e alcançando 3 milhões de pessoas por mês.
  • O Diagnóstico Econômico da Cultura Viva, elaborado pelo Consórcio Universitário Cultura Viva, destaca a rede como a maior de cultura comunitária da América Latina e Ibero‑América.
  • De 19 a 24 de maio, Aracruz sediou a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, retomando o evento nacional após 12 anos.
  • Na abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra Margareth Menezes marcaram a relevância política do encontro, que reuniu milhares de agentes de todas as regiões.

Mais de 16 mil Pontos e Pontões de Cultura certificados pelo Ministério da Cultura estão hoje em atividade no país. Juntos, realizam cerca de 80 mil atividades culturais gratuitas por mês em seus territórios. Isso representa aproximadamente 1 milhão de ações por ano, alcançando cerca de 3 milhões de pessoas mensalmente em todas as regiões do Brasil. Os dados fazem parte do Diagnóstico Econômico da Cultura Viva, desenvolvido pelo Consórcio Universitário Cultura Viva, e ajudam a dimensionar a escala da maior rede de cultura de base comunitária do Brasil, hoje reconhecida como referência para as políticas culturais da América Latina e da Ibero-América.

Ainda assim, essa dimensão pode ser ainda maior. O levantamento considera os Pontos e Pontões certificados e atualmente mapeados, mas a rede de Cultura Viva brasileira também é formada por inúmeras iniciativas culturais comunitárias ainda não certificadas ou fora dos registros institucionais. São coletivos, grupos, associações e experiências históricas espalhadas pelos territórios brasileiros que compartilham os mesmos princípios de atuação comunitária, memória, criação e organização coletiva. Isso significa que a potência revelada pelo diagnóstico já é imensa, mas ainda não esgota a dimensão real dessa rede no Brasil.

Foi com essa dimensão de fundo que, entre os dias 19 e 24 de maio, Aracruz tornou-se o centro da Cultura Viva brasileira ao sediar a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, retomada após 12 anos sem uma edição nacional. Milhares de pessoas vindas de todas as regiões do país reuniram-se em torno daquele que é o grande encontro dos agentes, dos Pontos e dos Pontões de Cultura do Brasil. Mestres, mestras, griôs, artistas, coletivos culturais, comunidades indígenas, quilombolas, juventudes periféricas, pesquisadores, comunicadores e agentes culturais voltaram a ocupar esse espaço de articulação política, troca de experiências e reconhecimento mútuo.

Na abertura oficial, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra Margareth Menezes, a dimensão política daquele encontro ficou ainda mais evidente. Ao falar sobre Cultura Viva, Lula destacou a força de uma teia construída coletivamente, capaz de reverenciar o passado, abraçar o presente e apontar caminhos para o futuro do país. Ao defender o investimento público no setor, reafirmou que a cultura traduz nossa identidade, memória, autoestima, desenvolvimento e transformação social. Sua presença em Aracruz deu dimensão institucional a algo que os territórios brasileiros conhecem há muito tempo: cultura é parte da estrutura viva do país.

A Teia é o grande encontro dos agentes, dos Pontos e dos Pontões de Cultura do Brasil. É onde essa rede se reúne, se reconhece e se fortalece coletivamente a partir da troca de experiências, da circulação de saberes e da construção compartilhada entre os territórios. Em Aracruz, essa dimensão apareceu com força no encontro entre trajetórias, memórias e práticas culturais vindas de diferentes partes do país.

Os números impressionam pela escala. Mas impressionam ainda mais pelo contraste. Apesar da dimensão nacional dessa rede, da sua presença contínua nos territórios e do impacto social produzido por essas experiências ao longo de mais de duas décadas, sua repercussão na grande imprensa brasileira ainda é pequena diante do que representa.

Basta percorrer os principais jornais, portais e plataformas digitais para perceber esse descompasso. São milhares de experiências culturais em atividade permanente, realizando ações gratuitas todos os dias, mobilizando milhões de pessoas, preservando memórias coletivas e estruturando parte significativa da vida cultural brasileira. Ainda assim, seguem pouco presentes no noticiário nacional e raramente ocupam o espaço proporcional à sua capilaridade, permanência e relevância pública.

Esse silêncio não é apenas ausência de cobertura. Ele revela também uma dificuldade histórica de reconhecer como central aquilo que nasce, se organiza e produz sentido fora dos circuitos tradicionais de visibilidade. A Cultura Viva, porém, não começa com a política pública. Ela começa muito antes dela. Ela nasce da experiência viva dos territórios brasileiros, da continuidade de práticas coletivas construídas por comunidades que há décadas transformam cultura em memória, pertencimento, formação, cuidado coletivo e organização social. Muitas dessas iniciativas acumulam longas trajetórias anteriores ao reconhecimento institucional. São experiências que preservam saberes ancestrais, formam novas gerações, produzem vínculos comunitários e sustentam a vida cultural de seus territórios muito antes de qualquer política pública lhes dar nome.

Ao completar mais de vinte anos, o Cultura Viva reafirma a força dessas trajetórias históricas. A política pública não inaugura essa história. Ela reconhece, fortalece e amplia a dimensão pública de experiências culturais que já existiam e seguem produzindo vida coletiva no Brasil há décadas. Quando Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura, propôs uma mudança profunda na forma de pensar as políticas culturais brasileiras. O ponto de partida era reconhecer que a cultura já pulsava viva no país real e que cabia ao Estado fortalecer essa potência onde ela já estava presente. Não se tratava de levar cultura onde ela não existia, mas de reconhecer sua presença nos territórios e garantir condições para sua continuidade.

É dessa compreensão que nasce o Programa Nacional de Cultura Viva, formulado por Célio Turino durante a gestão de Gil no Ministério da Cultura. Os Pontos de Cultura tornam-se a expressão concreta dessa política pública: espaços onde a cultura já existe antes da ação do Estado, onde a memória é preservada coletivamente, onde a criação acontece vinculada ao território e onde a transmissão de saberes organiza a vida comunitária.

Esse percurso se consolidou em 2014 com a criação da Política Nacional Cultura Viva, a partir do projeto apresentado por Jandira Feghali e sancionado por Dilma Rousseff. Ao longo de mais de duas décadas, o Cultura Viva consolidou-se como uma das experiências culturais e políticas mais relevantes do país. Como conceito e prática construída nos territórios, antecede a política pública.

Ao longo dessas duas décadas, a experiência brasileira dos Pontos e Pontões de Cultura tornou-se também referência internacional. Néstor García Canclini reconhece a iniciativa como uma das formulações mais relevantes da política cultural contemporânea latino-americana justamente por articular território, diversidade cultural, participação social, memória e democracia a partir das práticas concretas das comunidades. O Brasil tornou-se referência para o debate sobre políticas culturais na América Latina e na Ibero-América ao reconhecer institucionalmente aquilo que os territórios já produziam historicamente.

Os dados ajudam a tornar essa dimensão concreta. O diagnóstico identificou cerca de 3.700 bibliotecas comunitárias, 2.800 cineclubes, 2.200 salas de exposição, 900 hortas comunitárias e 450 rádios comunitárias articuladas pelos Pontos e Pontões de Cultura em todo o país. Revela ainda que 74% atuam continuamente em seus territórios, 75% desenvolvem ações educativas e formativas permanentes, 96% trabalham com múltiplas linguagens artísticas, 90% mobilizam trabalho voluntário e 70% movimentam práticas de economia solidária e colaboração comunitária. Mais do que programação cultural, trata-se de uma ampla infraestrutura cultural comunitária que produz memória, circulação de saberes, formação cidadã e vínculos sociais em escala nacional.

Mas talvez sua dimensão mais profunda esteja menos nos números e mais no que eles representam. Porque a Cultura Viva não se limita a promover atividades culturais. Ela produz comunidade. Produz memória coletiva. Produz pertencimento. Produz continuidade histórica. Está presente nos modos de celebrar, ensinar, lembrar, cuidar, resistir e imaginar futuro. Vive nos vínculos, nos saberes compartilhados e nas práticas que transformam experiência em memória e memória em permanência.

Por isso, quando a política pública reconhece os Pontos e Pontões de Cultura, ela reconhece muito mais do que projetos culturais. Reconhece formas coletivas de existência que historicamente sustentam a vida cultural brasileira. Diante dessa dimensão, o desafio colocado agora não é apenas o da continuidade da política pública. É também o da ampliação da sua circulação narrativa no espaço público brasileiro. As culturas que estruturam a vida cotidiana do país precisam ser mais vistas, mais documentadas, mais registradas e mais narradas, pelos próprios fazedores de cultura que ocupam ponta a ponta desse imenso territorio chamado Brasil.

Esse é um chamado à grande imprensa, mas também aos comunicadores populares, jornalistas, pesquisadores, documentaristas, fotógrafos, radialistas, educadores, produtores de conteúdo e agentes culturais comprometidos com a produção de memória pública no Brasil. Porque comunicar a Cultura Viva também é fortalecê-la. É ampliar seu reconhecimento social. É preservar suas histórias. É registrar seus sujeitos. É disputar a narrativa sobre o Brasil que efetivamente existe nos territórios.

Os territórios brasileiros já vivem essa potência há muito tempo. Talvez tenha chegado a hora de a grande imprensa também enxergá-la.

Siga nosso canal no WhatsApp

Siga-nos no

Siga-nos no

Google News

Comunicar erro