Ugo Giorgetti diz que todo documentário é ficção em debate sobre Alberto Dines
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 04/06/2026 15:03:48
Pilhas de livros e documentos sobre cinema, literatura, jornalismo e história dividem espaço com tipos móveis e equipamentos de impressão tipográfica no antigo escritório de Alberto Dines. No centro da sala, onde antes escrevia o jornalista, está o computador diante do qual Norma Couri, sua viúva e também jornalista, trabalha.
A cena encerra “Alberto Dines – Vínculos de Liberdade”, documentário lançado neste ano por Ugo Giorgetti. O filme serviu de ponto de partida para a conversa entre o diretor e o crítico da Folha Inácio Araujo, realizada nesta quarta-feira (3), como parte da programação do Festival Cineastas de São Paulo, com apoio da Folha.
Na abertura do encontro, no Espaço Petrobras de Cinema, na região central de São Paulo, Araujo destacou a singularidade da obra de Giorgetti no cinema brasileiro. Segundo o crítico, seus filmes escapam das classificações mais usuais da historiografia nacional, sem se encaixar plenamente no cinema novo, no cinema marginal ou na tradição acadêmica. Em comum, disse, está a atenção aos ambientes, aos pequenos gestos e às transformações captadas em escala cotidiana.
Ao comentar títulos exibidos na retrospectiva, Araujo citou especialmente “O Príncipe” (2002), que acompanha o retorno de um intelectual a uma São Paulo transformada. Para o crítico, o filme registra um momento específico da cidade e sintetiza uma característica recorrente da filmografia do diretor: personagens confrontados com o tempo, a mudança e a desilusão.
O comentário serviu de introdução ao documentário sobre Dines, uma das figuras centrais do jornalismo brasileiro do século 20. Em cerca de uma hora, o filme reúne entrevistas de arquivo, depoimentos do próprio jornalista e testemunhos de colegas para reconstruir sua trajetória profissional. Entre os episódios abordados estão a publicação da histórica capa sem manchete do Jornal do Brasil sobre o golpe militar no Chile, em 1973, e a criação da coluna “Jornal dos Jornais” na Folha, precursora da crítica sistemática da mídia no país.
Sem seguir uma cronologia linear, Giorgetti constrói o retrato a partir de depoimentos de nomes como Eugênio Bucci, Fernando Gabeira, Juca Kfouri e Roberto D’Ávila, além da participação de Norma Couri. Um dos eixos da narrativa é uma longa entrevista concedida por Dines ao Museu da Pessoa.
Foi justamente a construção desse retrato que levou Giorgetti a defender, durante o debate, a ideia de que documentário e ficção compartilham o mesmo gesto narrativo.
“Todo filme é ficção”, afirmou. Segundo o diretor, a realidade registrada pela câmera já chega ao espectador transformada pelas escolhas do realizador, da montagem e da própria forma cinematográfica. “Quando ele passa pela sensibilidade de um diretor, ele é transformado por alguém, é ficção.”
O cineasta contou que chegou a considerar outros caminhos para o documentário, mas mudou de ideia ao se deparar com os depoimentos do próprio Dines. “Eu tinha uma pessoa falando de si mesma com pertinência e veracidade de sentimento.”
Ainda assim, rejeitou a ideia de que o filme pudesse oferecer uma verdade definitiva sobre seu personagem. “Não é a verdade sobre o Dines. Nenhum documentário é.”
A partir daí, Giorgetti passou a defender a ficção como uma forma privilegiada de compreensão histórica. Para sustentar o argumento, citou os escritores franceses Honoré de Balzac (1799-1850), Émile Zola (1840-1902) e Marcel Proust (1871-1922). Segundo o cineasta, as obras desses autores permitem compreender aspectos da sociedade francesa de suas respectivas épocas com uma riqueza de detalhes que nem sempre aparece em registros documentais ou estudos históricos.
O debate também percorreu as mudanças tecnológicas no cinema. Giorgetti recordou os tempos da moviola e da película, substituídos em poucas décadas pelo ambiente digital. O próprio documentário sobre Dines, segundo o diretor, foi realizado inteiramente com a câmera de um iPhone.
Em um dos momentos mais descontraídos da conversa, Giorgetti apontou uma semelhança entre sua trajetória e a de Alberto Dines, que surgiu conforme mergulhava na trajetória do jornalista. “Eu não tenho graduação também. O Dines não tinha”, disse.
A conversa terminou entre histórias da Boca do Lixo, polo da produção cinematográfica paulistana entre as décadas de 1960 e 1980, lembranças de colaboradores como o diretor de fotografia Walter Carvalho e referências ao músico Tom Zé, figura central da tropicália e ator de “Sábado” (1995), filme de Giorgetti.