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Indígenas e cientistas psicodélicos avançam com conversa difícil sobre Jurema

Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 06/06/2026 10:16:45

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[RESUMO] Seminário na terra Tapera do povo truká expôs, mais uma vez, os embates de pesquisadores acadêmicos e indígenas a respeito do uso de psicodélicos extraídos de raízes de plantas, como a jurema-preta, em terapias para transtornos psíquicos. Choque entre as duas formas de saber e de concepção do mundo por vezes parece sem possibilidade de conciliação, mas manifestações no encontro abriram brechas para algumas formas de entendimento.

A ciência psicodélica voltada a desenvolver novas terapias para transtornos psíquicos tem um nó górdio a desatar. Ele a mantém presa num cabo de guerra com o conhecimento indígena, fonte de vários compostos alteradores da consciência em sua mira, numa paralisia conflituosa que impede os dois lados de caminharem juntos na disseminação de tratamentos inovadores.

O impasse se evidenciou mais uma vez no 2º Seminário Medicinas Ancestrais – Jurema: Ciências, Cuidado, Proteção, realizado de 23 a 26 de maio na terra Tapera do povo truká. O encontro reuniu mais de 500 pessoas de várias etnias do Nordeste com pesquisadores e profissionais de saúde numa oca com formato de amplo prisma triangular coberta de taboa, a uma centena de metros do rio Opará (São Francisco) no município de Orocó (PE).

Jurema é o nome comum de árvores do gênero Mimosa com posição central na cosmologia dos povos indígenas do Nordeste, em especial os da caatinga onde viceja a jurema-preta (M. tenuiflora).

Da raiz se prepara o anjucá, ou vinho da jurema, bebida consagrada em rituais como torés (dança pública ao som de maracás e de toantes cantadas) e mesas fechadas (trabalhos realizados no segredo de ocas cerimoniais), com incorporação de entidades chamadas de encantados.

A raiz contém alta concentração de N,N-dimetiltriptamina (DMT), psicodélico que também se encontra noutra beberagem de origem indígena, a amazônica ayahuasca preparada com as plantas chacrona (Psychotria viridis) e jagube, mariri ou caapi (Banisteriopsos caapi).

A DMT, presente ainda endogenamente no cérebro de mamíferos, tem revelado potencial antidepressivo em estudos clínicos que se tornaram objeto de controvérsia entre povos juremeiros. “Estão desencantando a nossa Jurema, e isso dói muito”, desabafou no seminário Zenilda Xukuru, anciã que teve o marido, cacique Xicão, assassinado em 1998. Em seguida entoou um ponto do catimbó/Jurema Sagrada e da umbanda que tem muitas variações, como esta: “Ó Jurema Encantada / Que nasce do frio chão / Dai-me força e ciência / Como deste a Salomão”.

O contencioso que opõe as duas formas de saber se condensa nas palavras “ciência” e “encanto”. A ciência da Jurema a que se referem indígenas e povos de terreiro designa o acervo de conhecimentos esotéricos em torno da planta, da bebida, de seu preparo e de seus usos cerimoniais e curativos sob a égide de mestres e caboclos que vivem encantados em reinos como o Juremá.

Em sentido estreito, é a antítese da outra ciência, a hegemônica herdeira racionalista, empírica e experimental do Iluminismo do século 18, ou tal Esclarecimento. Como sugerem tais nomes, uma atitude diante da realidade que prescinde de forças ou influências não mensuráveis, ou documentáveis para explicar —e explorar— o mundo natural. Um saber que pretende desencantar o universo, livrar o conhecimento objetivo de crendices e pensamento mágico.

Nesses termos, não há diálogo nem encontro possíveis. Em que pesem as aparências, subsiste alguma permeabilidade entre as ciências em choque, como deixaram transparecer certas manifestações durante o seminário em que a condição relativa de diversos saberes foi reconhecida.

Nas palavras do psicólogo Alexandre Franca Barreto, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e um dos organizadores do seminário: “Existe a ciência truká, e cada povo tem a sua ciência” (inclusive o povo da academia, pode-se concluir).

“Aprendi pela universidade da natureza, dos encantados de luz”, afirmou Bino Truká na oficina de plantas medicinais, antes da abertura oficial do encontro, que liderou com Ricardo Monteles, biólogo da Universidade Federal do Maranhão.

Bino explicou que a jurema-preta também é usada para curar feridas e dor de dente, ou em lambedores (xaropes), garrafadas e banhos —mas não serve de assento para mulheres, ressalvou, “porque mata todas as bactérias, e tem bactéria que não é para matar”.

Concebida como ciência ancestral, a medicina indígena não está parada no tempo e abre espaço para incorporar bactérias, além de encantados. A dificuldade parece derivar mais da pretensão de superioridade da ciência acadêmica, que nega cidadania epistemológica a formas de conhecimento que não empreguem seu método fundado em categorias, hipóteses e medições com vistas à universalidade.

No entanto, mesmo operando sob orientação de plantas professoras e mestres encantados, foi a ciência indígena que ensinou à acadêmica haver propriedades psicoativas na raiz da jurema-preta, nas folhas da chacrona e no lenho do caapi, para não falar das técnicas de utilização dessas virtudes vegetais.

Não há dúvida de que são tecnologias, ditas ancestrais porque a descoberta original, em culturas orais, se transmite não por registros escritos, mas por meio de narrativas míticas. Por outro lado, a pretensão de alcance universal da biomedicina baseada em evidências se esboroa no confronto com a doença individual, algo tanto mais óbvio quando se toma em conta os transtornos de saúde mental.

No afã de capturar a diversidade de sofrimentos que afligem pessoas reais, manuais de psiquiatria seguem multiplicando e subdividindo categorias de depressão, estresse, autismo etc., convertendo-as em tipos essenciais materializados por desequilíbrios bioquímicos no cérebro, portanto tratáveis, em princípio, com medicamentos.

A fragilidade desse modelo está à vista de todos, na impotência médica diante de pelo menos 30% de deprimidos graves hoje sem tratamento eficaz, além do avanço constante dos transtornos mentais à sombra da inteligência artificial, das redes sociais, da precarização do trabalho, da crise do clima. Não há fármaco capaz de erradicar fatores etiológicos sociais do mal-estar na civilização.

O ponto foi destacado no seminário pelo psicólogo Geovan Cardoso dos Santos, do terreiro Aldeia Pena Branca em Petrolina (PE). “Na faculdade a gente aprende protocolo, universalização, homogeneização, maior quantidade possível de pessoas”, ressalvou. “Na comunidade, a cura se dá na relação. O cuidado da Jurema é do vínculo, da relação.”

Sintomaticamente, é esse componente relacional que psicodélicos como a DMT da jurema-preta parecem recuperar para o indivíduo enclausurado nas ruminações da depressão e do estresse pós-traumático. Mas essa ampliação do horizonte terapêutico pela confluência de medicinas tradicionais com a acadêmica esbarra, entre povos tradicionais, na obsessão com o conceito de biopirataria, por assim dizer o anverso da moeda farmacológica supervalorizada na biomedicina.

“Um dos intuitos da academia é patentear e vender o que tiraram da gente. A preocupação continua, porque existem outros laboratórios, outras pessoas”, reagiu no seminário Pretinha Truká à afirmação do pesquisador Dráulio de Araújo, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, de que abandonara de modo voluntário a pesquisa com DMT da jurema-preta após as dúvidas levantadas contra seus estudos da substância contra depressão.

O pressuposto é que estudos clínicos dependam do acesso à planta da caatinga. Existe, porém, a alternativa de empregar uma versão sintética da DMT, disponível desde o trabalho pioneiro do químico teuto-canadense Richard Manske em 1931, se o pesquisador puder importar o composto por mais de R$ 12 mil o grama, contra R$ 50 para extraí-lo da raiz da Mimosa tenuiflora (Araújo recebeu há poucas semanas a primeira partida da droga importada).

O nó górdio se aperta com essas tensões nos dois lados da corda. Não faltam declarações de boa vontade, como as dos caciques Yssô e Neguinho de que os truká não se consideram donos da jurema nem pretendem impedir a pesquisa, ou as de pesquisadores de que o Brasil é um dos poucos lugares em que podem surgir caminhos para reunir comunidades tradicionais e biomedicina acadêmica na democratização de terapias psicodélicas, por exemplo, no SUS.

Restam, decerto, as pendências do reconhecimento do saber indígena como ciência autônoma e da repartição de benefícios com os povos que nos legaram o conhecimento dessas plantas de poder e se desencantaram com cinco séculos de violência e apropriação. Pode forjar-se aí a lâmina capaz de romper o nó górdio.


O jornalista Marcelo Leite recebeu hospedagem e alimentação em Tapera por cortesia do povo truká