Empresas de saneamento alavancam biogás
Fonte: alemdaenergia.engie.com.br | Data: 08/06/2026 07:14:14
O biogás, após ser filtrado e convertido em biometano, apresenta eficiência comparável à do gás natural. No Brasil, o avanço mais significativo vem das empresas de saneamento, que já respondem por 60% da geração, especialmente a partir de aterros sanitários, embora representem apenas 9% das plantas existentes. A agropecuária, por sua vez, detém 80% das unidades de fabricação, mas respondem por 19% do volume. O segmento industrial, que inclui a agroindústria, responde por 11% do número de plantas, com 21% da produção.
De acordo com matéria do Valor Econômico, a Sabesp, cuja produção chega a quase 23 milhões de Nm3 /ano (normal metro cúbico/ano), tem planos para expandir a instalação de sistemas de aproveitamento do biogás em mais estações de tratamento de esgotos (ETEs) da região metropolitana de São Paulo. “Essa expansão é fundamental, dada a concentração populacional e a quantidade de efluentes”, afirma Ivana Wuo, diretora de Tratamento de Esgotos da companhia.
Segundo ela, o biogás será aproveitado para geração de energia elétrica, que pode alimentar as próprias ETEs, ou ser injetada na rede. “Adicionalmente, o biogás será utilizado como fonte de energia térmica para o processo de secagem de lodo, uma etapa crítica do tratamento, que demanda considerável quantidade de energia”.
Para o diretor-presidente do Centro Internacional de Energias Renováveis (Cibiogás), Felipe Souza Marques, o biometano tem ganhado espaço devido às suas características similares ao gás natural, que possibilitam, inclusive, que ambos sejam injetados na mesma rede.
Performance empresarial
A Regenera, unidade de resíduos sólidos da Aegea Saneamento, capta cerca de 25 mil Nm3 /hora de biogás no aterro sanitário de Seropédica (RJ). Uma parte, convertida em biometano, é destinada para a indústria e para o abastecimento veicular (são cerca de 130 mil m3 de biometano por dia); outra parcela é enviada para uma geradora de energia elétrica, com capacidade de 2,8 MW. Com previsão de expansão, a capacidade deve chegar a 8,4 MW:

Foto: Regenera Rio
“Com base na geração atual e na projeção de recebimento de resíduos para os próximos anos, prevemos a realização de investimentos na ordem de R$ 105 milhões até 2028”, diz o vice-presidente da Aegea, Yaroslav Memrava Neto. De acordo com ele, a unidade de tratamento de resíduos de Seropédica é responsável por cerca de 8% do potencial instalado para captação de biogás proveniente de aterros sanitários no Brasil.
Já o Grupo Energisa adquiriu, recentemente, 52% da paranaense Lurean, que atua no tratamento de resíduos e comercialização de adubo orgânico. “A partir dessa operação, será implantada a nossa segunda usina de biometano”, informa o diretor de Negócios da EBIO Energisa Biogás, Luiz Fernando Tomasini. Com investimentos de R$ 100 milhões, a planta, com operação comercial prevista para 2028, terá capacidade de produção de 28 mil m3 /dia.
Tomasini lembra que, em 2023, o grupo investiu outros R$ 110 milhões na construção de sua primeira usina de biometano em Campos Novos (SC). A unidade, que entrou em operação em abril de 2026, pode gerar aproximadamente 28 mil m3 /dia de biometano com o processamento diário de 300 toneladas de resíduos orgânicos, além de produzir cerca de 40 mil t/ano de fertilizante orgânico.
Para o executivo, o biometano cria alternativas mais sustentáveis e competitivas para atender à crescente demanda do mercado, principalmente em períodos instáveis como o provocado pela crise no Oriente Médio. “Quando o mundo enfrenta tensões em rotas críticas de abastecimento, a discussão sobre fontes domésticas, previsíveis e menos expostas à volatilidade externa ganha força”, pondera.
Consumo próprio
Derivado do processo de tratamento do esgoto, o biogás tem sido cada vez mais usado como fonte energética para a autoprodução das próprias concessionárias, grandes consumidoras de energia. Matéria do portal Brasil Energia mostra que a distribuidora de gás Necta, que atende a 43 municípios em São Paulo, está negociando com a Sabesp uma parceria estratégica para ter biogás firme a partir do processo de tratamento de esgoto.
“O manejo do lodo nas estações de tratamento representa um desafio significativo para as companhias de saneamento. E há uma oportunidade para transformar o lodo em biogás que, tratado, pode gerar biometano para indústrias e frotas de veículos pesados interessadas em descarbonizar”, comenta o gerente-executivo de Estratégia e Supply da Necta, Rafael Gonzales. Segundo ele, uma cidade com 100 mil habitantes pode produzir até 600 m3/dia de biogás a partir de efluentes.
No Paraná, a Sanepar, que atende a 345 municípios, também vem desenvolvendo diversos projetos de aproveitamento energético do esgoto tratado em suas ETEs – desde a microgeração distribuída de eletricidade até a secagem do lodo para gerar biomassa. Uma das frentes envolve estrutura de co-digestão simultânea do material orgânico, em que são acrescidas ao lodo cerca de 30 t/dia de outras fontes de matéria orgânica, como resíduos de frutas e hortaliças da Ceasa, de uma processadora de sardinhas e de uma fábrica de sorvetes, por exemplo.
O biogás captado, depois de purificado, é encaminhado para movimentar dois grupos motogeradores, de 1,4 MW cada. Ainda de acordo com a publicação da Brasil Energia, parte da energia gerada é consumida na própria planta, enquanto “os excedentes são injetados na rede da concessionária local, gerando créditos de energia para mais de 100 ETEs distribuídas pelo estado do Paraná, no regime de compensação”, revela o especialista em Inovação da Diretoria de Inovação e Novos Negócios da Sanepar, Gustavo Possetti.