Como querem transformar o lixo do agro em energia para a casa dos mineiros » Moon BH
Fonte: moonbh.com.br | Data: 09/06/2026 13:44:21
A Gasmig quer transformar resíduos do agronegócio em uma nova fonte de energia para Minas Gerais. A companhia abriu sua maior chamada pública de biometano, com o objetivo de contratar até 250 mil metros cúbicos por dia do combustível renovável produzido no estado e entregue inicialmente na região do Triângulo Mineiro.
A iniciativa coloca o lixo orgânico do campo no centro de uma nova cadeia econômica. Dejetos da suinocultura, resíduos de laticínios, subprodutos de usinas sucroenergéticas, restos agroindustriais e materiais orgânicos que antes eram tratados como passivo ambiental podem virar gás para abastecer indústrias, frotas, empresas e redes de distribuição.
O projeto tem contrato previsto por dez anos e busca atrair produtores capazes de fornecer o biometano à Gasmig. A proposta é criar uma escala comercial para uma fonte que ainda engatinha em Minas, mas que pode crescer justamente onde o estado tem uma das maiores forças econômicas: o agro.
O Triângulo Mineiro foi escolhido como ponto de partida por reunir três fatores difíceis de encontrar juntos: produção agroindustrial intensa, grande volume de resíduos orgânicos e demanda industrial concentrada. A região tem usinas, granjas, suinocultura, laticínios, produção agrícola e cidades-polo como Uberaba, Uberlândia, Araxá e Indianópolis.
Como funciona essa indústria?
A lógica é simples. O produtor gera resíduo. Esse resíduo pode ser tratado em biodigestores, produzindo biogás. Depois de purificado, esse biogás vira biometano, combustível com características semelhantes às do gás natural. A partir daí, pode ser usado em caldeiras, processos industriais, veículos pesados, geração de energia e abastecimento por rede.
Para a Gasmig, a chamada pública marca a entrada efetiva nesse mercado com escala. Para o produtor rural e para a agroindústria, abre uma nova possibilidade de receita. Em vez de apenas gastar para tratar resíduos, a empresa pode transformar parte desse material em energia vendável.
A diferença em relação a chamadas anteriores está no desenho logístico. Além da entrega direta na rede de distribuição que deve ser construída no Triângulo, os fornecedores poderão propor o chamado gasoduto virtual, com transporte do gás por caminhões. Isso permite que projetos comecem antes da conclusão de toda a infraestrutura física de dutos.
Esse detalhe é importante porque reduz um dos maiores entraves do setor. Sem rede pronta, o produtor tem dificuldade para vender. Sem produtor contratado, a distribuidora tem dificuldade para justificar a expansão da rede. O modelo híbrido tenta resolver esse impasse, permitindo que a cadeia comece a funcionar enquanto a infraestrutura avança.
Investimento de R$ 1 bilhão em Minas Gerais
O plano prevê cerca de R$ 1 bilhão em investimentos e aproximadamente 400 quilômetros de infraestrutura, incluindo redes isoladas e futuras interligações. A capacidade estimada é de atendimento a quase 1 milhão de pessoas nas cidades-polo da região.
O avanço também conversa com a nova regulação federal. A Lei do Combustível do Futuro e o decreto que regulamenta o programa nacional de incentivo ao biometano estabeleceram uma trajetória de incorporação do combustível renovável ao mercado de gás natural. A regra começa com percentual mínimo de 1% em 2026 e sobe gradualmente até 10% em 2034.
Isso cria demanda obrigatória e dá mais previsibilidade para quem pretende investir. O biometano deixa de depender apenas de projetos isolados de sustentabilidade e passa a entrar na estratégia de suprimento energético do país.
Em Minas, o efeito pode ser relevante. O estado já é forte em energia solar, mineração, agroindústria e gás canalizado, mas ainda tem uma presença limitada em biometano. Segundo informações apresentadas sobre a chamada, Minas conta hoje com poucas usinas produtoras em operação, enquanto o potencial de resíduos permanece espalhado pelo interior.
A aposta da Gasmig é justamente organizar esse mercado. O resíduo que está na fazenda, na granja, na usina ou na agroindústria precisa virar contrato, logística, certificação, fornecimento regular e consumo. Sem essa engrenagem, o potencial ambiental não se transforma em negócio.
Há também um ganho para empresas que buscam reduzir emissões. A Gasmig afirma que o biometano pode cortar em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação ao diesel. Além disso, a chamada prevê precificação específica para o atributo verde do produto, aproximando fornecedores e compradores de certificados de origem e do mercado de carbono.
Na prática, uma indústria que substitui combustível fóssil por biometano pode reduzir sua pegada ambiental e melhorar sua posição diante de clientes, investidores e cadeias produtivas que cobram metas de descarbonização. Para o agro, a vantagem é dupla: tratar resíduos e vender energia limpa.
Impactos na cadeia produtiva serão sentidos
O projeto também pode ter impacto regional. A produção de biometano tende a movimentar engenharia, manutenção, transporte, operação de biodigestores, análise ambiental, fornecedores de equipamentos e mão de obra técnica. Em cidades do Triângulo, isso pode criar uma nova camada de negócios ligada à economia rural.
Produzir biometano em escala exige investimento alto, regularidade na oferta de resíduos, tecnologia de purificação, licenciamento, contratos de longo prazo e segurança para quem compra e para quem vende. A chamada pública é um passo, mas não resolve sozinha a complexidade do mercado.
Ainda assim, o plano da Gasmig mostra uma mudança importante. O interior de Minas, muitas vezes visto apenas como produtor de alimentos, carnes, leite, cana e grãos, pode passar a produzir também moléculas verdes para a transição energética.
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.