Hanseníase: A Grande Imitadora da Reumatologia, da Neurologia e da Dermatologia – A Gazeta do Amapá
Fonte: agazetadoamapa.com.br | Data: 13/06/2026 22:21:14
A hanseníase, conhecida durante séculos como lepra, é uma das doenças mais antigas descritas pela humanidade. Durante muito tempo, esteve cercada por medo, preconceito e estigmatização social, frequentemente associada ao isolamento dos pacientes e a conceitos equivocados sobre sua transmissão. Com a evolução do conhecimento científico, compreendeu-se que se trata de uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae (bacilo de Hansen), motivo pelo qual o termo “hanseníase” passou a ser adotado oficialmente no Brasil, substituindo a antiga denominação “lepra”, considerada pejorativa e discriminatória.
Apesar dos avanços da medicina e da disponibilidade de tratamento eficaz pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a hanseníase continua sendo um importante problema de saúde pública. O Brasil permanece entre os países com maior número de casos novos do mundo, ocupando historicamente a segunda posição global, atrás apenas da Índia. Trata-se de uma doença que possui especial afinidade pela pele e pelos nervos periféricos, mas que pode comprometer diversos órgãos e sistemas, produzindo manifestações clínicas extremamente variadas.
Embora tenha ocorrido redução significativa da prevalência nas últimas décadas, a hanseníase continua sendo considerada um importante problema de saúde pública no Brasil. A maior concentração de casos ocorre nas regiões Norte, Centro-Oeste e parte do Nordeste, áreas onde a transmissão permanece ativa. A Amazônia Legal apresenta alguns dos maiores coeficientes de detecção do país, o que torna fundamental que médicos de diversas especialidades mantenham elevado grau de suspeição diagnóstica. O fato de a doença ainda ser diagnosticada em crianças demonstra que a cadeia de transmissão permanece ativa em diversas comunidades brasileiras.
É justamente essa diversidade de apresentações que torna a hanseníase uma das maiores imitadoras da medicina. Dependendo da forma clínica e da resposta imunológica do paciente, a doença pode simular enfermidades reumatológicas, neurológicas e dermatológicas, levando muitas vezes a atrasos diagnósticos significativos. Alguns pacientes passam anos — e ocasionalmente décadas — sendo investigados por dores articulares, neuropatias periféricas, lesões cutâneas ou alterações imunológicas antes que a verdadeira causa seja reconhecida.
A transmissão ocorre principalmente por vias respiratórias, através do contato próximo e prolongado com pessoas doentes que ainda não iniciaram tratamento. Uma das características mais peculiares da hanseníase é seu longo período de incubação. Em muitos casos, os sintomas surgem apenas anos após a infecção, podendo levar de dois a dez anos para se manifestar, e em algumas situações até mais tempo. Isso explica por que alguns pacientes convivem durante décadas com sintomas discretos ou inespecíficos antes de receberem o diagnóstico correto.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a hanseníase não se manifesta apenas por manchas na pele. Embora as alterações cutâneas sejam frequentemente a principal pista diagnóstica, a doença pode comprometer diversos sistemas do organismo. Os sinais mais clássicos incluem manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou acastanhadas associadas à diminuição ou perda da sensibilidade ao calor, à dor e ao tato. Também são comuns formigamentos, dormências, sensação de queimação, perda de força muscular, espessamento de nervos periféricos, diminuição da destreza manual, alterações nos pés e nas mãos e lesões decorrentes da perda da sensibilidade protetora.
Do ponto de vista clínico, a hanseníase pode apresentar diferentes formas de manifestação, determinadas principalmente pela resposta imunológica de cada indivíduo. A forma indeterminada costuma ser a fase inicial da doença e pode apresentar apenas uma ou poucas manchas discretas com alteração da sensibilidade. A forma tuberculoide caracteriza-se por lesões mais localizadas e resposta imunológica mais eficiente. A forma dimorfa apresenta características intermediárias e costuma ser uma das formas mais instáveis da doença. Já a forma virchowiana representa o extremo oposto do espectro imunológico, com grande quantidade de bacilos e acometimento mais disseminado da pele, nervos e outros órgãos.
Entretanto, muitas vezes a doença se apresenta de maneira muito diferente do padrão clássico. Do ponto de vista da Reumatologia, a hanseníase merece atenção especial. Diversos estudos demonstram que manifestações musculoesqueléticas podem ocorrer em uma parcela significativa dos pacientes, principalmente durante as chamadas reações hansênicas. Nesses momentos, podem surgir dores articulares, artrites, inchaço das articulações, rigidez matinal, tendinites, dores musculares, vasculites e fenômeno de Raynaud, manifestações que frequentemente lembram doenças autoimunes sistêmicas.
Entre as doenças mais frequentemente simuladas pela hanseníase estão a artrite reumatoide, o lúpus eritematoso sistêmico, a síndrome antifosfolípide, a doença de Sjögren, algumas vasculites e até determinadas apresentações dermatológicas que podem lembrar psoríase. Além disso, a hanseníase pode cursar com FAN positivo, fator reumatoide positivo e anticorpos antifosfolípides, confundindo ainda mais a investigação clínica.
Outro aspecto que torna a hanseníase particularmente desafiadora para o reumatologista é a presença de alterações imunológicas que frequentemente simulam doenças autoimunes. Em determinadas situações, esses exames laboratoriais levam inicialmente à suspeita de artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren ou síndrome antifosfolípide. No entanto, diferentemente das doenças autoimunes clássicas, tais alterações podem representar apenas uma resposta do organismo desencadeada pela infecção crônica causada pelo bacilo de Hansen.
As manifestações neurológicas representam uma das interfaces mais importantes entre a hanseníase e outras especialidades. Dormências, formigamentos, queimação, perda de força, atrofias musculares, pé caído, mão em garra e alterações do equilíbrio podem ser os sintomas predominantes, levando inicialmente a diagnósticos de neuropatia diabética, neuropatia idiopática, radiculopatias, compressões nervosas ou outras doenças neurológicas.
A neuropatia hansênica merece destaque especial por representar uma das principais causas de incapacidade física associadas à doença. O acometimento neural pode ocorrer de forma lenta e progressiva ou apresentar piora súbita durante as reações hansênicas. Nervos como o ulnar, mediano, fibular comum, tibial posterior e radial são frequentemente afetados. O reconhecimento precoce do comprometimento neural é fundamental para evitar sequelas permanentes, deformidades e limitações funcionais.
Além da própria infecção, muitos pacientes desenvolvem as chamadas reações hansênicas, fenômenos inflamatórios agudos que podem surgir antes, durante ou após o tratamento. As reações do tipo 1 podem provocar inflamação das lesões cutâneas e neurites dolorosas. Já as reações do tipo 2, cuja manifestação mais conhecida é o eritema nodoso hansênico, podem cursar com febre, nódulos dolorosos, artrite, vasculite, inflamação ocular e comprometimento sistêmico importante. Frequentemente são essas manifestações inflamatórias que levam o paciente ao atendimento reumatológico.
O diagnóstico da hanseníase é fundamentalmente clínico. A identificação de manchas com alteração de sensibilidade, associada ao comprometimento neural periférico, continua sendo um dos pilares diagnósticos. Quando há suspeita clínica, podem ser solicitados exames complementares, como a baciloscopia para pesquisa de BAAR obtidos da linfa dérmica, biópsias de pele para estudo histopatológico, exames moleculares quando disponíveis e avaliações especializadas neurológicas e dermatológicas. Em algumas situações, a ultrassonografia de nervos periféricos pode auxiliar na avaliação do acometimento neural.
Nesse contexto, o reumatologista desempenha papel relevante. Acostumado a investigar doenças complexas e condições que simulam enfermidades autoimunes, esse especialista frequentemente identifica pacientes com sinais compatíveis com hanseníase e os encaminha para investigação específica em serviços especializados.
No Amapá, o Centro de Referência em Doenças Tropicais desempenha papel fundamental nessa missão. O serviço conta com médicos dermatologistas experientes no diagnóstico e tratamento da hanseníase, além de enfermeiros, biomédicos, técnicos e outros profissionais capacitados para a realização dos exames diagnósticos e acompanhamento dos pacientes.
Contudo, para que o tratamento seja iniciado em tempo oportuno, é necessário que médicos e pacientes reconheçam seus inúmeros disfarces. A experiência clínica demonstra que a hanseníase continua merecendo lugar de destaque entre os diagnósticos diferenciais das doenças reumáticas, neurológicas e dermatológicas, especialmente na Amazônia brasileira.
A hanseníase permanece como uma doença capaz de enganar médicos experientes, produzir exames laboratoriais sugestivos de autoimunidade e imitar diversas enfermidades complexas. Por isso, diante de uma artrite de causa incerta, de uma neuropatia periférica inexplicada ou de lesões cutâneas persistentes, especialmente em regiões endêmicas como o Amapá e a Amazônia, lembrar da hanseníase continua sendo uma atitude médica essencial.